Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1940)
óleo sobre tela, 63 x 79 cm
Halifax Public Archives
“Murcha em meu peito a rosa da alegria
e uma só flor viceja — a da saudade.”
Domingos de Castro Lopes (Brasil, 1862-?) em Dia e Noite.
Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1940)
óleo sobre tela, 63 x 79 cm
Halifax Public Archives
Domingos de Castro Lopes (Brasil, 1862-?) em Dia e Noite.
André Deymonaz (França, 1946)
William Boyd
William Boyd (GB, 1952)
Katya Gridneva (Ucrânia, 1965)
óleo sobre tela
Simone de Beauvoir
Heinz Pinggera (Itália, 1900 – ?)
óleo sobre madeira, 31 x 26 cm
Pe. Antônio Vieira
George Seton Coggeshall (EUA, 1914-1994)
José Eduardo Agualusa
Em: “A escritora que me derrotou”, O Globo, 23/05/2016, 2º caderno, página 2.
Frederick Simpson Coburn (Canadá, 1871-1960)
óleo sobre tela, 77 x 62 cm
Coleção Particular
Emily Dickinson
Remy Boquiren (Filipinas, 1940)
Olavo Bilac (Brasil, 1865-1918), em Via Láctea, 1888, XIII [Ouvir estrelas].
Elizabeth Peyton (EUA, 1965 – )
óleo sobre madeira
Museum of Contemporary Art, Los Angeles
Juan Gabriel Vásquez
Didier Delamonica (França, 1950)
Romain Rolland
Ilustração anônima.
“Lohmark ficara acordada na última noite. Devia ser antes das quatro da manhã. Ainda estava tudo escuro. Uma corrente de ar acariciou seu rosto.Uma vez. Outra vez. O pulso de repente a cento e oitenta. Palpitação. Uma borboleta grande? Uma mariposa-beija-flor, mas, na verdade, era tarde demais para uma dessas. Então, paz. Talvez tivesse pousado. Talvez também não estivesse mais lá. Ela precisou tatear por um tempo até alcançar o interruptor da luminária no criado-mudo. Quando finalmente clareou, o bicho lançou-se me pânico pelo quarto. Voava em grandes círculos. Oitos imaginários, três palmos abaixo do teto. Revoada de trem fantasma. Um morcego! Um jovem morcego-anão que se perdera. O sistema de radar falhou, seu sentido de orientação infalível o deixou na mão. A bocarra estava aberta, ele gritava. Mas não se ouvia o grito.
Talvez sua inteligência bastasse para que ele voasse pela janela entreaberta e reconhecesse que ali não era um buraco em um celeiro, nem uma fenda de árvore ou uma abertura num muro de alguma central de energia, mas não para encontrar novamente a da janela e assim a saída. Deveria ter vindo de uma colônia-berçário que agora, no fim do verão, se dissolveu. Cada animal estava por conta própria. Em busca de um novo lar.
Lohmark apagou a luz e foi em silêncio para o porão. Por segurança, puxou o cobertor sobre a cabeça. Bom que Wolfgang tinha um sono tão profundo. Teria se apavorado com a visão. Um fantasma em sua ronda noturna. Ela ainda ouviu os roncos quando parou diante da estante com os potes a vácuo.
Então, foi tudo muito rápido. Provavelmente o animal sentiu que ela era sua salvação. Escapuliu algumas vezes, mas, quando ela quis cobrir seu pequeno corpo com o vidro, se rendeu por puro medo. Por um instante ele se debateu, em seguida dobrou as asas e a encarou. Parecia morto. Empalhado. Muito frágil: marrom com pelo grossos de rato. A membrana fina das asas. Articulações vermelhas salientes. As garras pretas dos polegares alongadas. A cabeça achatada. Um focinho brilhante, úmido. Dentes mínimos vampirescos. A boca aterrorizada de um recém-nascido. Olhos parados de medo. Tanto medo. Pareciam mais aparentados com seres humanos do que com camundongos. O mesmo conjunto de ossos: antebraço, rádio, cúbito e carpos. Nas orelhas afuniladas, a mesma cartilagem. Além disso, órgãos sexuais anatomicamente idênticos. Um par de tetas no peito. O pênis pendia. Um ou dois filhotes ao ano. E nasciam quase totalmente pelados.
Por um instante, ela ainda pensou se poderia usar o morcego em aula. Apresentar à nova classe uma típica espécie sinantrópica. O menor de todos os mamíferos. Mas ela quis se livrar o mais rápido possível da criatura. Abriu a janela. E, então, o vidro. Bem devagar, o animal esgueirou-se para fora, primeiro caiu, então se endireitou, estendeu as asas e desapareceu na escuridão, para algum lugar na direção da garagem. Rapidamente, ela fechou a janela e voltou a se deitar. Apenas quando começou a clarear foi que finalmente adormeceu.”
Em: O pescoço da girafa, de Judith Schalansky, tradução de Petê Rissatti, Rio de Janeiro, Alfaguara:2016, pp: 55-59.