Palavras para lembrar: Ernest Hemingway

14 08 2019

 

 

 

Jean-François Martin – Illustration le Monde des livres (2012)O mundo dos livros, ilustração de Jean-François Martin.

 

 

“Não há amigo mais fiel do que um livro.”

 

 

Ernest Hemingway





“Vou morrer” texto de Martin Page

11 08 2019

 

 

 

d'espagnat, georges, mulher lendo no jardimMulher lendo no jardim

Georges D’Espagnat (França, 1870 – 1950)

óleo sobre tela, 64 x 80 cm

 

 

“Vou morrer, pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.

Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo?  Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos,  pensava Virgile,  o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.

Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild.  A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos.  Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.

Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcosm as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microsulcos contendo seus monólogos e suas conversas.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 18-19.





A América no século XX

8 08 2019

 

 

 

Columbia wearing a warship bearing the words World Power as her Easter bonnet, cover of Puck (April 6, 1901). It was published from 1871 until 1918.jpg

Columbia usando um chapéu para a Páscoa com as palavras “Poder Mundial”, na capa da Revista Puck em abril de 1901.  Puck foi publicada entre 1871 e 1918.

 

 

“Nos anos 1950, a América ergueu o globo pelos tornozelos e sacudiu o troco de seus bolsos. A Europa tinha se tornado um primo pobre – só brasões, porém nenhum serviço de jantar. E os indistinguíveis países da África, da Ásia e da América do Sul tinham apenas começado a surgir nas paredes das nossas salas de aula como salamandras ao sol. Certo, os comunistas estavam por lá, em algum lugar, mas, com Joe McCarthy no túmulo e ninguém na Lua, por enquanto os russos apenas se esgueiravam pela páginas do romances policiais.”

 

Em: Regras de Cortesia, Amor Towles, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2012, página 9





Sobre o sucesso nas artes, texto de Amy Tan

15 06 2019

 

 

 

pintor, al parker, 1959Ilustração Al Parker, 1959.

 

 

“Pensei que em toda minha vida ninguém havia me amado total e desesperadamente. Ah, houve um tempo em que acreditei que Stefan Cheval gostava de mim dessa maneira — sim, o famoso e polêmico Stefan Cheval. Mas isso foi há séculos, pouco antes daquele congressista de pele rosada ter declarado que suas pinturas eram “obscenas e antiamericanas”. Minha opinião? Para ser absolutamente sincera, eu achava que a série de Stefan Liberdade de Escolha, era dramática e clichê. Vocês sabem do que estou falando: os guaches retratando a bandeira americana misturada com bois e vacas, cães mortos por eutanásia, monitores de computador — ou será que eram aparelhos de TV naquela época? Em todo caso, pilhas e pilhas de excessos para mostrar o desperdício imoral. O vermelho da bandeira era cor de sangue, o azul era berrante e o branco da cor de “esperma ejaculado”, de acordo com a descrição do próprio Stefan. Ele sem dúvida não era nenhum Jasper Johns. Entretanto, depois que a obra de Stefan foi execrada, ela foi clamorosamente defendida por grupos de direitos humanos pela ACLU, pelos departamentos de arte das melhores universidades americanas e por todos aqueles tipos liberais defensores das liberdades civis. Permitam-me dizer, foram eles que atribuíram à obra mensagens grandiosas que Stefan jamais havia pretendido. Eles viram as complexidades das camadas significativas, viram como certos valores e estilos de vida eram considerados mais importantes do que outros, e como nós, os americanos, precisávamos do choque da feiúra para reconhecer nossos valores e responsabilidades. Os regatos [SIC] de esperma eram especialmente citados como representativos da fome de prazer incontrolável que nos levava à desordem e à proliferação. Tempos depois, a desordem se referia ao aquecimento global e à proliferação de armas nucleares. Foi assim que aconteceu dele se tornar famoso. Os preços subiram. O simples mortal virou um ícone. Alguns anos mais tarde até igrejas e escolas tinham pôsteres e cartões-postais de seus temas mais apreciados e as galerias franqueadas dos grandes centros turísticos logo criaram um negócio lucrativo vendendo suas serigrafias de edição limitada, junto com gravuras de Dali, Neiman e Kincade.”

 

Em: As redes da ilusão, Amy Tan, tradução Ana Deiró, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, pp: 26-27.





Minutos de sabedoria: Emil Cioran

13 06 2019

 

 

 

Derek NobbsNovembro: Ela desapareceu, ilustração de Derek Nobbs

 

 

“O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta – ou inventa – a vida…”

 

Emil Cioran

 

 

Emil-cioran-3Emil Cioran (1911-1995)




Minutos de sabedoria: Camus

3 06 2019

 

 

 

arte, pintura, vogue-cursive-logo-cover-woman-painting-by-edouard-marty.jpgIlustração de Édouard Marty.

 

 

 

A obra de arte nasce da renúncia de racionalizar sobre o concreto.”

 

Camus

 

 

 

Albert-Camus-631Albert Camus (1913 – 1960)




As questões eternas… Marcelo Gleiser

28 05 2019

 

 

 

A-Surprise-GuestUm visitante inesperado, ilustração de Roy Keister.

 

 

“Encantei-me com o Universo e construí uma carreira como físico teórico, interessado por questões que, até recentemente, não eram consideradas científicas. Como o Universo surgiu? De onde veio a matéria que compõe as estrelas, os planetas e as pessoas? Como que átomos inanimados viraram criaturas vivas, algumas delas capazes de refletir sobre sua própria existência? E se a vida existe aqui, será que existe em outros lugares? Será que a imensidão cósmica esconde outras criaturas inteligentes?

Comecei a me interessar por essas questões quando era ainda um adolescente, seduzido pelo poder da mente e por sua capacidade de ponderar assuntos que, aparentemente, eram imponderáveis. Mesmo que, em muitos casos, as respostas a essas perguntas sejam incompletas, o que importa é participar do processo da descoberta, da busca pelo conhecimento. É nossa curiosidade que nos ergue acima da banalidade do igual, da rotina de todos os dias; é nossa curiosidade que nos define enquanto criaturas pensantes.”

 

Em: A simples beleza do inesperado: um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida, Marcelo Gleiser, Rio de Janeiro, Record: 2017, p. 13.





Palavras para lembrar: Camus

23 05 2019

 

 

 

 

pintor Ernest ChiriakaIlustração de um pintor por Ernest Chiriaka, 1955.

 

 

“Criar é viver duas vezes.”

 

Camus

 

 

Albert-Camus-631Camus (1913-1960)




Amor Towles sobre Agatha Christie

9 05 2019

 

 

 

Ethel Porter Bailey (GB,1872-1944 ) - Reflection, ost

Reflexões, 1921

Ethel Porter Bailey (GB, 1872-1944)

óleo sobre tela

 

 

“Pode-se dizer o que quiser sobre a nuance psicológica de Proust ou sobre a extensão da narrativa em Tólstoi, mas não se pode negar o prazer que a Sra. Christie proporciona. Seus livros são tremendamente gratificantes.

Sim, eles são formalistas. No entanto, essa é uma das razões pelas quais eles são gratificantes. Com cada personagem, cada aposento, cada arma do crime dando a impressão de ser ao mesmo tempo algo novo e familiarmente rotineiro (o papel do tio pós-imperialista chegado da Índia sendo desempenhado aqui pela solteirona de Gales do Sul, e os suportes de livro que não combinam no lugar do vidro de veneno na última prateleira do barracão de ferramentas do jardim), a Sra. Christie distribui suas pequenas surpresas com o ritmo cuidadosamente calibrado de uma babá distribuindo balas para as crianças sob seus cuidados.

Mas acho que existe outro motivo para eles agradarem tanto – um motivo que é pelo menos tão importante, se não mais, que é o fato de que no universo de Agatha Christie todo mundo, no fim, recebe o que merece.

Riqueza ou pobreza, amor ou perda, uma pancada na cabeça ou a corda do enforcado, nas páginas dos livros dela, homens e mulheres, não importa sua idade, não importa seu nível social, são colocados cara a cara com o destino condizente. Poirot e Marple não são na verdade personagens centrais no sentido tradicional. Eles são simplesmente os agentes  de um complicado equilíbrio moral que foi estabelecido pelo Todo Poderoso no início dos tempos.”

 

Em: Regras de Cortesia, Amor Towles, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2012, p. 239.

 

NOTA: Nesta tradução,  de Léa Viveiros de Castro, logo na primeira frase do segundo parágrafo mostra a palavra “formulaic”  traduzida por formalista, quando na verdade, a melhor tradução teria sido formulaico, que vem de fórmula e não formalista cuja conotação é de seguir regras estritas.  Deve haver alguma razão para esta tradução, já que esta é uma das mais conhecidas tradutoras do inglês.  Noto isto porque li originalmente o texto em inglês e o anotei porque havia a rotulação das obras de Agatha Christie seguirem uma fórmula e me surpreendi com a tradução quando procurei essa passagem na edição brasileira.

 





Na boca do povo: escolha de provérbio popular

8 05 2019

 

 

 

844a1a1035797fa7d27a7686e80656e9O último beijo, ilustração de Raymond Leech, 1949.

 

 

 

“A distância é para o amor, como o vento para o fogo.”