Lembrando Neruda para nossos tempos

9 04 2020

 

 

Françoise Gilot (França, 1921) The red vest, 1955O colete vermelho, 1955

Françoise Gilot (França, 1921)

 

De tudo isso, amigos, surge uma lição que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. To­dos os caminhos levam ao mesmo ponto: a comunicação daquilo que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico no qual podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia: mas nesta dança ou nesta canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência, da consciência de ser homens e de crer num destino comum.

 

Em: Discurso de Pablo Neruda ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, 1971

 

 





Visita a Argel, texto de Kaouther Adimi

8 04 2020

 

 

Geo Sipp (EUA, contemporâneo) Milk Bar, AlgiersMilk Bar, Algiers

Geo Sipp (EUA, contemporâneo)

sketch preliminar

 

 

“Assim que você chegar à Argel, será preciso pegar uma série de ladeiras, subir e, em seguida, descer. Você vai dar na rua Didouche-Mourad, atravessada tanto por muitas ruelas como por uma centena de histórias, a alguns passos de uma ponte partilhada por suicidas e apaixonados.

Será preciso descer mais, afastar-se dos  cafés e dos bistrôs, das lojas de roupas, dos mercados de frutas e legumes, rapidamente, prosseguir, sem parar, virar à esquerda, sorrir para um velho florista, encostar-se por algum tempo em uma palmeira centenária, não prestar atenção no policial que vai dizer que é proibido, correr atrás de um pintassilgo junto com um monte de meninos e ir parar na praça do Emir Abd el-Kader. Talvez você não repare no Milk Bar, pois a fachada foi reformada recentemente e, de dia, a placa é pouco visível: o azul quase branco do céu e o sol ofuscante embaralham as letras. Você observará algumas crianças escalando o pedestal da estátua de Abd el-Kader, sorrindo largo, posando para seus pais, que estão prontos a postar suas fotos nas redes sociais. Haverá um homem fumando ao pé de uma porta, lendo o jornal. Será preciso cumprimentá-lo e trocar algumas palavras educadas antes de dar meia-volta, sem se esquecer de dar uma olhadela para o lado: o mar prateado que brilha, o grito das gaivotas, de novo o azul quase branco. Será preciso seguir o céu, esquecer os prédios que se querem parisienses e passar ao lado do Aéro-habitat, uma muralha de concreto que domina a cidade.”

 

Em: As verdadeiras riquezas, Kaouther Adimi, tradução de Sandra M. Stroparo, Rio de Janeiro, Radio Londres: 2019, pp:9-10





Minutos de sabedoria: Wilhelm von Leibniz

23 03 2020

 

 

Conrad Felixmüller (Alemanha,1897-1977) BILDNIS - HANS CONON VON DER GABELENTZ, Woodcut, 1934, on wove paper, signed, dated, titled and inscribed Holzschnitt.397 x 495 mm.Retrato Hans Conon von der Gabelentz, 1934

Conrad Felixmüller (Alemanha,1897-1977)

Xilogravura sobre papel feito à mão 39 x 49 cm

 

 

“A educação pode tudo: ela faz dançar os ursos.”

 

Wilhelm von Leibniz

 

 

1leibnizWilhelm von Leibniz (1646 – 1716)




Minutos de sabedoria: Haruki Murakami

3 03 2020

 

 

 

Seikichi Izawa (Japão 1926-1997) 1

Jovem mulher lendo

Seikichi Izawa (Japão,  1926-1997)

 

 

“O luto vive dentro de nós, mas a vida é muito maior do que ele. Há muito espaço para todas as demais vivências.”

Haruki Murakami

 

murakamiHaruki Murakami




Palavras para lembrar: Amor Towles

26 02 2020

 

 

 

Arthur_A_Drummond (1891-1977)_BOY_READING_IN_ARMCHAIR_BY_A_WINDOW, 1914, ost, 11x8insRapaz lendo em poltrona junto à janela, 1914

Arthur A Drummond (EUA, 1891-1977)

óleo sobre tela, 28 x 20cm

 

 

“Walden de Thoreau, o único livro em que a infinidade pode ser encontrada em cada página.”

 

Amor Towles





Treinando para ser escritor, texto de Paul Auster

21 01 2020

 

 

 

Merrie C. Ligon (EUA) O leitor, aquarela sobre papelO leitor

Merrie C. Ligon (EUA, contemporânea)

aquarela sobre papel

 

 

“Naqueles três anos como aluno do ensino médio nos subúrbios de Nova Jersey, Ferguson de dezesseis, dezessete e dezoito anos começou a escrever vinte e sete contos, terminou dezenove e passou não menos de uma hora por dia com o que chamava de seus cadernos de trabalho, que ia enchendo com diversos exercícios de escrita que inventava para si mesmo, a fim de manter a forma, afiar a pegada e tentar melhorar (como ele disse certa vez para Amy): descrições de objetos físicos, paisagens, céus no amanhecer, rostos humanos, animais, o efeito da luz na neve, o barulho da chuva no vidro, o cheiro de madeira queimada, a sensação de andar na neblina e ouvir o vento soprar entre os galhos das árvores; monólogos na voz de outras pessoas a fim de se transformar naquelas pessoas ou, pelo menos, tentar entendê-las melhor (o pai, a mãe, o padrasto, Amy, Noah, seus professores, seus colegas de colégio,o sr. e a sra Federman), mas também pessoas desconhecidas e mas distantes, como J. S. Bach, Franz Kafka, a garota do caixa do supermercado local, o cobrador da Companhia Ferroviária Erie Lackawanna, o mendigo barbado que lhe pediu um dólar na Grand Central Station; imitações de admirados, rigorosos, inimitáveis escritores do passado (pegue um paragrafo de Hawthorne, por exemplo, e componha algo baseado no seu modelo sintático, usando um verbo nos lugares onde ele usava um verbo, um substantivo nos lugares onde ele usava um substantivo, um adjetivo nos lugares onde ele usava um adjetivo — a fim de sentir o ritmo nos ossos, sentir como se forma a música); uma sequência curiosa de vinhetas geradas por trocadilhos, homonímias e deslocamento de uma letra: óleo/olho, luxo/luto, alma/lama; porto/morto e arroubos impetuosos de escrita automática, a fim de limpar o cérebro, toda vez que estiver se sentindo tolhido, como um jorro de escrita de quatro páginas inspirada pela palavra “nômade”, que começava assim: Não, eu não estou doido. Não estou nem zangado, mas me dê uma chance para desnortear você e num instante eu vou te deixar com os bolsos vazios. Também escreveu uma peça em um ato, que ele queimou de desgosto uma semana depois de terminar, e vinte e três poemas que estavam entre os mais nojentos que qualquer cidadão do Novo Mundo jamais viu e que ele rasgou depois de jurar para si mesmo que nunca mais ia escrever poemas. No geral, detestava o que escrevia.  No geral, achava que era burro e sem talento e que jamais conseguiria escrever nada, mesmo assim insistia, se esforçava a se dedicar àquilo todos os dias, apesar dos resultados muitas vezes decepcionantes, entendia que não haveria esperança para ele, a menos que persistisse, que para ser o escritor que almejava levaria anos, mais anos do que seu próprio corpo levaria para terminar de crescer, e toda vez que escrevia algo que parecia ligeiramente menos ruim do que o texto que tinha escrito antes, Ferguson achava que estava progredindo, ainda que o texto seguinte se revelasse uma abominação, pois a verdade era que ele não tinha opção, estava destinado a fazer aquilo ou então morrer, porque, apesar de seus esforços e de seu descontentamento com as coisas mortas que muitas vezes saíam dele, fazer aquilo lhe dava a sensação de estar vivo, mais do que qualquer outra coisa que já tinha feito na vida, e quando as palavras começavam a cantar em seus ouvidos e ele se sentava diante da escrivaninha e empunhava a caneta ou colocava os dedos nas teclas da máquina de escrever, sentia-se nu, nu e exposto ao vasto mundo que passava em disparada na sua frente, e nada dava uma sensação melhor do que isso, nada podia se equiparar à sensação de desaparecer de si mesmo e entrar no vasto mundo cantarolando, por dentro, as palavras que cantarolava, no interior de sua cabeça.”

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 431-432

 

 





Palavras para lembrar: Imperador Juliano

18 01 2020

 

 

 

Agnolo Bronzino, Portrait of a Young Man with a Book. .Christie's Images Ltd 2012Retrato de jovem com livro

Agnolo Bronzino (Itália, 1503 – 1572)

[Il Bronzino]

óleo sobre madeira,  94 x 78 cm

 

 

“Uns gostam de cavalos, outros de animais selvagens: eu, desde a infância, fui tomado por um prodigioso desejo de comprar, de possuir livros.”

 

Imperador Juliano (330 – 363)





Minutos de sabedoria: Ovídio

12 01 2020

 

 

 

442px-Leighton,_Edmund_Blair_-_Off_-_1899Desmanche, 1899

Edmund Blair Leighton (GB, 1852-1922)

óleo sobre madeira, 32 x 24 cm

Manchester Art Gallery

 

 

“O amor é uma espécie de guerra.”

 

Ovídio (43 a.E.C. — 17 E.C.)





Palavras para lembrar: Hubert Aquin

7 01 2020

 

 

 

Raymond-Dendeville-Jeune-fille-lisantMenina lendo

Raymond Dendeville (França, 1901- 1968)

óleo sobre tela

 

 

“A literaturua existe em sua plenitude não quando a obra é escrita, mas quando um leitor refaz o caminho das frases e palavras para transformá-las, dessa maneira, em co-autor da obra.”

 

Hubert Aquin

 





Ah! A adolescência… trecho de Paul Auster

2 01 2020

 

 

 

aula de dança

 

 

“Em 1959, poucas mulheres no subúrbio tinham emprego, mas Ferguson e seu amigo tinham mães que eram mais que donas de casa e, consequentemente, foram obrigados a serem mais independentes e autoconfiantes do que a maioria de seus colegas de escola, e agora que tinham doze anos e começavam a curva que levava ao portão da adolescência, o fato de terem largos intervalos de tempo, só para eles, sem a supervisão de ninguém, estava se revelando uma vantagem, pois nessa etapa da vida os pais são, seguramente, as pessoas menos interessantes do mundo, e quanto menos tivermos de ficar com eles, melhor. Portanto, os dois podiam ir à casa de Ferguson depois da escola e ligar a televisão pra ver American Bandstand ou Million Dollar Movie sem medo de serem repreendidos por desperdiçar as últimas horas preciosas da luz do dia sentados dentro de casa numa tarde tão linda. Por duas vezes naquela primavera, eles conseguiram convencer Glória Dolan e Peggy Goldstein a irem para casa com eles, para bailes a quatro, na sala, e como nessa altura Ferguson e Glória já eram veteranos em beijar, seu exemplo inspirou Howard e Peggy a experimentarem sua própria iniciação na complexa arte do beijo de língua.”

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 167-168