“Os livros nos fazem viajar no tempo. Todos os leitores de verdade sabem disso. Mas os livros não nos levam para o momento em que foram escritos. Eles nos fazem lembrar de nós mesmos em outra época.”
Em: Oito assassinatos perfeitos, Peter Swanson,tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, São Paulo, Jangada: 2022
É extenso o capítulo de irritações. Acrescentamos: a lentidão de Vera para comer, que aguento a duras penas para não botar mais fogo na canjica; a impontualidade de Mário Mora; o jeito de Euloro Filho nos apertar a mão, entre preguiça e descaso; a grosseria congênita de Nilza, e o Gasparini estava louco varrido quando a transformou de enfermeira e amante em esposa; a cara ofendida e reprovante de Susana se ouve uma palavra menos limpa, vestal insensível à sujidade de certos preconceitos e opiniões que vicejam em seu salão; a voz pamonha de Anita, que relembra a de Beiçola fazendo adormecer toda a classe com a leitura de vinte linhas da Antologia Nacional; e a maníaca perseguição que Garcia move aos meus cavalos, como se fossem eles as únicas pedras valiosas do tabuleiro — no décimo lance, rarissimamente tenho ainda um para manobrar.”
Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada, p. 345
“O dinheiro é uma coisa singular. Com o amor é considerado uma das maiores alegrias do homem. E com a morte deste, uma das grandes fontes de ansiedade.”
“Os garden-parties antes de 1914 eram algo que merecia ser recordado. Todo mundo se vestia com muita elegância, de sapatos de salto alto, vestidos de musselina com faixas, grandes chapéus de palha italiana com rosas pendentes. Os sorvetes eram deliciosos- de morango, de baunilha, de pistache, de laranja e de framboesa, à escolha — além de várias espécies de doces e de creme de leite, sanduíches, uvas moscatel, e de uma variedade de pêssegos sem penugem. Desses pormenores deduzo que os garden-parties eram quase sempre dados no mês de agosto. Não me recordo de servirem morangos com creme de leite. É claro que não era fácil chegar ao porto. Os que não dispunham de carruagem, se eram idosos ou inválidos, alugavam uma; a gente moça, porém, caminhava uma milha e meia ou duas milhas e vinha de diferentes pontos de Torquay; alguns tinham a sorte de morar perto, outros moravam bastante afastados, porque Torquay é construída sobre sete colinas. Não há dúvida de que caminhar por uma colina em cima de saltos altos, segurando a longa saia na mão esquerda, o chapéu de sol na direita, era uma provação. Mas valia a pena ir ao Garden party.”
Em: Autobiografia, Agatha Christie, tradução de Maria Helena Trigueiros, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1979, p. 112
“As cozinheiras menos jovens eram sempre tratadas por “senhora”. As outras empregadas deveriam ter nomes apropriados, tais como Jane, Mary, Edith, etc. Nomes como Violet, Muriel, Rosamund não eram considerados próprios, e então dizia-se firmemente a essas jovens: “Enquanto você estiver a meu serviço seu nome será Mary.” As empregadas quando de certa idade eram quase sempre tratadas pelo sobrenome.”
Em: Autobiografia, Agatha Christiie,, tradução de Maria Helena Trigueiros, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1979, p.32
“Um romance não pode ser feito exclusivamente de fatos; esses são em si coisas sem vida. Seu uso é para desenvolver uma ideia ou ilustrar um tema, e o romancista não só tem o direito de mudá-los para seu propósito, para dar ênfase a eles ou deixá-los nas sombras, mas de acordo com a necessidade de assim o fazer.”
[tradução Ladyce West]
[A novel cannot be made of facts alone; in themselves they are dead things. Their use is to develop an idea or illustrate a theme, and the novelist not only has the right to change them to suit his purpose, to stress them or leave them in shadow, but is under the necessity of doing so.]
Em: A Writer’s Notebook, William Somerset Maugham, Vintage:2012, Kindle Edition.
“Chorar por papai passou a ser sua profissão, sua identidade, sua persona. Anos depois, ao refletir sobre a parcela política no interior da qual havíamos todos vivido (o marxismo e o Partido Comunista), e ao dar-me conta de que as pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido com pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista, entendi que mamãe havia assumido sua viuvez de forma bastante semelhante. Sua viuvez a elevava a seus próprios olhos, tornava-a uma pessoa espiritualmente relevante, emprestava riqueza a seu pesar e retórica à sua fala. A morte de papai se transformou numa religião que oferecia cerimônia e doutrina. Mulher-que-perdeu-o-amor-de-sua-vida passou a ser sua ortodoxia: a ela, prestava uma atenção talmúdica.”
Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, p: 80.
“Chegamos à rua 69, viramos à esquina e avançamos para a entrada do auditório Hunter. As portas estão abertas. Dentro, duzentos ou trezentos judeus ouvem os depoimentos que comemoram sua história inenarrável. Esses depoimentos são a cola que os gruda. Rememoram e convencem. Curam e conectam. Permitem que as pessoas encontrem seu próprio sentido.”
Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, pp: 52 e 53