Leitora, c. 1900
Irving Ramsay Wiles (EUA, 1861-1948)
óleo sobre tela, 26 X 18 cm
“Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa, destruído, um coração que chora.”
Provérbio hindu
Leitora, c. 1900
Irving Ramsay Wiles (EUA, 1861-1948)
óleo sobre tela, 26 X 18 cm
Provérbio hindu
A escritora cearense Socorro Acioli é autora do livro escolhido para leitura, no mês do Carnaval, pelo grupo Papalivros: A Cabeça do Santo [Cia das Letras:2014]. Publicado há mais de uma década, tornou-se um fenômeno de popularidade nos últimos tempos. Influenciadores digitais e jornalistas mencionaram a obra com frequência e, aos poucos, o público endossou as recomendações tornando-o um best-seller. Tenho afiliações com quatro grupos de leitura (cariocas e nacionais). Com essa escolha do Papalivros, vejo que todos quatro já leram a obra. Socorro Acioli é uma escritora escolhida por Gabriel Garcia Marques para a oficina “Como contar um conto”, em 2006, em Cuba. Ela pode, então, se considerar não só herdeira do realismo mágico, à maneira de Gabo, mas também abençoada pelo feitiço de seu mentor. A cabeça do santo é resultado dessa experiência.
Um livro pequenino — 176 páginas — consegue encantar a gregos e troianos, ao descrever a saga de Samuel, um homem, que após a morte de sua mãe e a conselho dela, sai em busca do pai. Nessa empreitada, precisando de abrigo depois de muito andar, ele encontra uma gruta, onde se esconde para passar a noite. Qual não é sua surpresa ao descobrir, quando acorda, que o abrigo é a cabeça oca de um Santo Antônio, de proporções gigantescas, parte de uma escultura abandonada, um projeto sem sucesso da cidade vizinha, Candeia. Sua surpresa é acentuada quando percebe que o local é lugar de peregrinação de mulheres à procura um companheiro, namorado, marido, enfim de um milagre do santo casamenteiro. Escondido na cabeçona, Samuel ouve os causos relatados e as preces endereçadas ao santo. Acaba interferindo à sua maneira no destino delas, graças a Francisco, um amigo que faz no local.
Fiel às tradições da literatura nordestina, situações de farsa e humor ecoam obras de Dias Gomes e Ariano Suassuna. Aqui, Socorro Acioli nos presenteia com uma mini fábula, enraizada nas tradições populares, na política dos lugares pequenos, nas crendices da vida cotidiana, na superstição. Osório, o prefeito de Candeia, cidade responsável pelo projeto desastroso da escultura monumental, é personagem que poderia ser encontrado em alguma obra de Dias Gomes, herdeiro, podemos dizer, de Odorico Paraguaçu, de O Bem-amado (1961). Dias Gomes também é sentido no humor cáustico com que Osório é representado. Candeia é uma cidade dividida entre misticismo e ganância, dualidade também encontrada nas obras do dramaturgo, conhecido por representar o conflito entre o sagrado e o profano.
Samuel e Francisco por outro lado são ‘filhos’ de Ariano Suassuna, personagens que sobrevivem graças à astúcia e a algumas artimanhas. São sertanejos e bem representam o local em que a religião é cultura viva, em que milagres acontecem apesar de ou por causa de todas suas mazelas. Isso é retratado num ritmo de cultura oral, em alguns lugares reminiscente da literatura de cordel, e pela fé mística e grandiosa, como acontece em O Auto da Compadecida (1955).
A cabeça do santo é obra ainda mais rica nas referências bíblico-religiosas de Samuel (do Velho Testamento), São Francisco e Santo Antônio, dois dos mais populares santos cultuados no Brasil, referências admitidas pela própria autora. Recomendo a leitura ainda que para meu gosto ela pudesse ter sido expandida, com mais causos, mais detalhes nas histórias contadas a Samuel. Achei o final, deus-ex-machina previsível e súbito, um tantinho à maneira Dias Gomes, um final dramático e retumbante, que resolve todos os problemas. Mas vale. É uma boa leitura para um fim de semana divertido.
No início do ano, li Sobre a Ficção, de Ricardo Viel — obra que resenhei em 7 de fevereiro. A publicação reúne entrevistas com dez autores contemporâneos da Península Ibérica e de países lusófonos: Espanha, Portugal, Brasil e Moçambique. Dos selecionados, apenas Djaimilia Pereira de Almeida me era desconhecida. Cativada por suas respostas, assim que terminei a leitura, adquiri o livro mencionado na entrevista: Esse Cabelo. Não houve arrependimento; pelo contrário, sinto a felicidade de uma grande descoberta e a certeza de que esta será apenas a primeira de muitas obras da autora em minha estante.
Nascida em Angola, de pai português e mãe angolana, Djaimilia mudou-se para Portugal ainda criança, nos anos 80. Narrado em primeira pessoa, o livro transita entre a autobiografia, o ensaio e o romance curto. Trata-se, em essência, de um processo de autoconhecimento: a busca de Mila por sua identidade. Seu cabelo — cacheado, rebelde, “invencível” — é o fio condutor que evidencia as diferenças familiares e serve de porta de entrada para o racismo cotidiano. A relação com os fios marca eventos cruciais de sua formação, enquanto memórias familiares, lembranças de Lisboa e histórias da ascendência judia em Moçambique fazem o texto fluir com um caráter onírico. A narrativa poética, ritmada pela busca incessante pelo cabeleireiro ideal, transforma relatos fragmentados em um sonho lúcido.
Um exemplo:
“Estando a tia Justina para aí virada, a visita era comemorada com um bolo inglês que ela fizera, impregnado do mesmo perfume que eu lhe sentia no pescoço ao cumprimentá-la à chegada — o perfume, aposto, das gavetas de sua casa. E então acompanhava-se o chá com o bolo, por entre suspiros dirigidos à sua oportunidade e sabor imutável: pouca coisa aliviava a sorte da consanguinidade como uma cereja cristalizada. Mastigar o miolo seco e maçudo dispensava-as por momentos da necessidade de fazer conversa. Eram cavalos do mesmo dono, vizinhos de estábulo, pouco mais que quaisquer outras duas almas tomadas ao acaso“
Embora seja um livro breve, com cerca de cem páginas, seu impacto é monumental. Recomendo a leitura; é uma experiência profundamente comovente.
Uma conversa íntima, 1961
Chris McMorrow (Irlanda, contemporâneo)
aquarela sobre papel
“Servido o café, as mulheres se ocuparam com o tricô, instaladas no seu canto habitual. Pardon e Maigret sentaram-se perto de uma das janelas, enquanto o jovem marido de Alice, não sabendo bem a que grupo se integrar, acabou por sentar-se ao lado de sua mulher.
Já estava decidido que a Sra. Maigret seria a madrinha da criança, para quem ela tricotava um casaquinho.
Pardon acendeu um charuto. Maigret encheu seu cachimbo. Eles não tinham particularmente vontade de falar, e um tempo bastante longo transcorreu em silêncio enquanto lhes chegava o rumor das mulheres.
Por fim o médico murmurou como para si mesmo:
— É mais uma dessas noites eu que eu desejaria ter escolhido outra profissão!
Maigret não insistiu, não o estimulou a confidências. Ele gostava muito de Pardon. Considerava-o um homem no sentido pleno que dava a essa palavra.”
Em: Uma confidência de Maigret, Simenon, L&PM-Pocket: 2013.
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Amanhã, aqui no Rio de Janeiro, já é ponto facultativo, pelo Carnaval. Este ano estarei por aqui, na cidade. E já escolhi alguns livros para ler. Alguns gostosos como esse de Simenon, e alguns outros. Devo poder descansar.
Escolhi essa passagem do livro, logo em seu início, Simenon nos lembra que nas grandes amizades, não se precisa falar o tempo todo. Há conforto no silêncio.
Que nós todos tenhamos amigos assim!
O gato sábio, 1904
Henriëtte Ronner-Knip (Holanda, 1821-1909)
óleo sobre madeira, 28 x 36 cm
Coleção Particular
De manhã, quando a gente chegava à nossa baia, tinha sempre um gato branco deitado na mesa de P. O encarregado da limpeza disse que podia dar um jeito nele, Tá tranquilo, o bichinho não faz mal pra ninguém. No começo era o gato do hangar. Depois virou o gato da nossa ilha. Até que chegamos um dia pela manhã e o bicho parecia meio morto. Nunca vi alguém tão desesperado pela vida de um animal que sequer lhe pertencia. Foi aí que ele virou o gato da P.
Penélope segurou o gato, que mais parecia um tigre-de-bengala em seu colo, e correu com dificuldade em direção ao pátio. Pediu ao seu Geraldo, o motorista, que o levasse ao veterinário mais próximo, e rápido. A lamúria da P. durou uma semana, o tempo da internação. Penélope foi visitá-lo todos os dias e voltava com boletins não solicitados da evolução do quadro. Eu não aguentava mais aquela ladainha toda. Quando ela voltou com o bicho recém-operado dentro da caixa de transporte, seu Geraldo despontou atrás com sacolas enormes, trazendo o enxoval completo comprado no pet shop. Penélope depositou a caixa cuidadosamente no canto da sua mesa. Dava para ver um colchãozinho xadrez. Não tem gato? Então, não tem. É uma gata. Penélope mostrou a plaquinha de identificação como nome Lady Gata e o número do celular dela. É isso, agora a gata mora aqui com a gente. Alguém tem alergia? Bateu uma caixa de Fenergan em cima da mesa. Sem protestos.
Em: Virgínia mordida, Jeovanna Vieira, Companhia das Letras: 2024
Leitura na poltrona
Alfonso Cuñado (Espanha, 1953)
óleo sobre tela, 50 x 50 cm
“Nossos mortos e nossos filhos são as coisas mais importantes que nos acontecem na vida. Sempre recebo muitas mensagens, porque sou bastante acessível. Mas com esse livro foram muitíssimas. E 90% das pessoas me escreviam para contar histórias de mortes próximas. O extraordinário é que essas histórias não eram tristes, eram preciosas, celebravam o amor. Acho que essas pessoas não tinham podido contar isso a ninguém, nem sequer podiam reconhecer que havia alguma beleza ali, porque, quando há uma morte, temos a cabeça mergulhada na dor. Então, o meu livro, sem que eu tivesse a intenção, proporcionou aos leitores o resgate da beleza das mortes próximas.”
Essa foi a resposta do público que Rosa Montero recebeu depois da publicação de seu livro: A ridícula ideia de nunca mais te ver, tradução de Mariana Sanchez, Editora Todavia: 2019
Citação encontrada no livro: Sobre a ficção, Ricardo Viel, Companhia das Letras: 2025
“Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacterológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho.”
Parágrafo introdutório.
Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han, tradução Enio Paulo Giachini, Petrópolis, Vozes: 2024.
Memórias
Nesimi Pınarbaşı (Turquia, contemporâneo)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
“Claro que há aqueles que decidem pôr fim à sua vida, e o fazem, mas são minoria e por isso impressionam tanto, porque contradizem a ânsia de duração que domina a grande maioria, a ânsia que nos faz crer que sempre há tempo e que nos leva a pedir um pouco mais, um pouco mais, quando este se acaba.”
Javier Marías, Os enamoramentos
Moça lendo, 1911
William Chadwick (EUA, 1879-1952)
óleo sobre tela
Eugène Delacroix