Paulo e Virgínia… um romance inesquecível…

18 08 2015

 

704_001História de Paulo e Virgínia em Postais

Data: 1888 — Liebig Company, Bélgica

 

 

Por vezes me perguntam se escolho primeiro a imagem ou o texto.  Não há regra… É uma questão de associações, de imagem puxando imagem.  Como neste caso aqui.  Há algum tempo selecionei um trecho de Pedro Nava, do primeiro volume de suas memórias, Baú de Ossos.  O trecho ficou gravado entre as minhas “seleções” — uma coisa meio século XIX que vez por outra alimento — : um caderno com passagens preferidas de textos.  É claro que com Pedro Nava corri sempre o risco de selecionar quase todos os seis volumes de suas memórias, tal a riqueza de sua prosa.  Passou o tempo.  De repente, procurando na internet por imagens que nada tinham a ver com as que coloquei acima, me encantei com a seleção de postais belgas retratando a história de Paulo e Virgínia.  Uma breve pesquisa me levou a procurar o texto selecionado e …Voilà, temos uma postagem por associação.  Mas o intervalo entre texto e imagem pode ser longo…

 

“Ai! de mim, que mais cedo que o amigo também abracei a senda do crime e enveredei pela do furto… Amante das artes plásticas desde cedo, educado no culto do belo pelas pinturas das tias, das primas e pelas composições fotográficas do seu Lemos, amigo de meu Pai — eu não pude me conter. Eram duas coleções de postais pertencentes a minha prima Maria Luísa Paletta. Numa, toda a vida de Paulo e Virgínia — do idílio infantil ao navio desmantelado na procela. Pobre Virgínia, dos cabelos esvoaçantes! Noutra a de Joana d’Arc, desde os tempos de pastora e das vozes, ao das cavalgadas com suas hostes e à morte sobre a fogueira de Ruão. Pobre Joana, dos cabelos em chama! Não resisti. Furtei, escondi e depois de longos êxtases, com medo, joguei tudo fora. ”

 

Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 272.





Nomes e apelidos… texto de Pedro Nava

4 03 2015

 

 

DÉCIO RODRIGUES VILLARES, Retrato de senhora, 1889, mnbaRetrato de Senhora, 1889

Décio Rodrigues Villares (Brasil , 1851-1931)

óleo sobre tela

Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Há uma propaganda de carro na televisão no momento lembrando que devemos ter orgulho do nosso nome, que ele nos faz únicos!  Será?  Será que é sempre assim?  Lembrei-me desse trecho das memórias de Pedro Nava.

 

 

“A irmã mais moça de meu pai recebera, em lembrança de certa tia e madrinha de meu avô paterno, nome absolutamente igual ao desta antepassada: Maria Euquéria Nava.  Além disso, quando ela nasceu, era tão mofina e miúda que o tio Itriclio, ao vê-la no primeiro banho, dissera logo que aquilo não era gente. Isto é um belisco… E a menina, além de Euquéria, teve de arcar com o apelido que pegara e Belisco ficou sendo. O Euquéria, ela rifou ao assinar o registro de casamento. O Belisco, depois, quando, com muita paciência e muito jeito, ela conseguiu modificá-lo no Bibi com que morreu. Tia Bibi. Delicada, reservada, discreta criatura. ”

 

Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 338.

 

Tenho alguns casos na família semelhantes a esse. E você?





O Carnaval de Pedro Nava

3 02 2015

 

 

J. Carlos Paratodos 01Arlequim e Colombina, 1927

Capa da Revista Para Todos,26 de fevereiro de 1927

J. Carlos (Brasil, 1884-1950)

 

 

“Água não era só de chuva e de enchente. Mais abundante era a dos entrudos.  Carnaval. Passavam uns escassos mascarados, dominós de voz fina, diabinhos com que o Benjamim Rezende se divertia arrancando o rabos, quebrando os chifres. O Paulo Figueiredo, encantando minha avó com seu Pierrot  recamado de lantejoulas. Os primeiros lança-perfumes — Vlan e o Rodo. Mas o bom mesmo era o entrudo. Havia instrumentos aperfeiçoados para jogar água, como os relógios, assim chamados  porque esses recipientes imitavam a forma de um relógio fechado, com dois tampo metálicos flexíveis que, quando apertados, deixavam air um delicado esguicho de água perfumada. Havia de todos os tamanhos, desde os pequeninos, que vinham no bolso, aos enormes, que ficavam no chão e eram acionados com o pé. Havia os revólveres — seringas que imitavam a forma da arma — cano metálico e o cabo de borracha que se apertava, apontando quem se queria molhar. Os limões de todos os tamanhos e de todas as cores que eram preparados com semanas  de antecedência e em enorme quantidade. Continham água de cheiro, água pura, água colorida, mas os que caíam da sacada do Barão vinham cheios de água suja, de tinta, de mijo podre. Desciam ao mesmo tempo que as cusparadas das moças.  Além dos relógios, dos revólveres, dos limões, eram mobilizadas todas as seringas de clister e improvisados seringões com gomos de bambu. Todos os pontos estratégicos da casa eram ocupados com jarras, baldes, latas e bacias para esperar os atacantes. Porque havia os assaltos de porta a porta.  Éramos investidos pelos Pinto de Moura e depois do combate, já encharcados, confraternizávamos, para atacar a casa dos Gonçalves.  Logo depois já era um grupo maior que avançava sobre as fortalezas fronteiras dos Couto e Silva e do tio Chiquinhorta, onde nos esperavam valorosamente o Antonico e o Mário Horta. Meu pai comandava a refrega protegido nas dobras de um vasto macfarlane, cujas asas davam-lhe gestos de pássaro gigante. Acabava tudo numa inundação de vinho-do-porto, para rebater e cortar o frio. À noite meu Pai penava com asma…”

Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 261-62.