“Com Walter Scott, mais tarde, apaixonou-se pelas coisas históricas, sonhou com baús, sala de guardas e menestréis. Teria gostado de viver em alguma velha mansão, como aquelas castelãs de longo corpete, que, sob o trevo das ogivas, passavam os seus dias, com o cotovelo sobre a pedra e o queixo na mão, a olhar vir do fundo da campanha um cavaleiro de pluma branca que galopa num cavalo negro. Teve, naquele tempo, um culto por Maria Stuart, e venerações entusiastas em relação a mulheres ilustres ou infortunadas. Joana d’Arc, Heloísa, Agnès Sorel,15 a bela Ferronnière e Clémence Isaure, para ela, destacavam-se como cometas na imensidão tenebrosa da história, onde se sobressaíam ainda, aqui ou acolá, porém mais perdidos na sombra e sem nenhuma relação entre eles, são Luís e o seu carvalho, Bayard moribundo, algumas ferocidades de Luís XI, um pouco de São Bartolomeu, o penacho do Béarnais, e sempre a lembrança dos pratos pintados em que Luís XIV era louvado.”
Madame Bovary, Gustave Flaubert, Tradução de Mário Laranjeira: Penguin Classicos
Trompe l’œil de jornais e instrumentos de escrita sobre uma placa de madeira, 1698
Edwaert Collier (Holanda, 1642 – 1708)
óleo sobre tela, 60 x 48 cm
À venda na Sotheby’s em 2022
A expressão trompe l’oeil (do francês, ‘engana o olho’) é utilizada mundialmente para descrever pinturas que desafiam a percepção humana ao projetar objetos tridimensionais sobre superfícies planas. Essa técnica, perseguida por artistas ao longo das eras, encontra raízes profundas na Antiguidade, como demonstram os afrescos murais que adornavam as residências em Pompeia e Herculano.
No século XVII, a Holanda testemunhou um apogeu de colecionadores ávidos por esse ilusionismo pictórico. Entre os mestres do gênero, destaca-se Edwaert Collier (1642–1708), cujas telas continuam a fascinar o olhar contemporâneo. Especialista em composições que reúnem diários, gravuras, cartas, medalhas e lacres de cera, Collier elevou a natureza morta a um novo patamar, dialogando com a estética dos ‘gabinetes de curiosidades’ populares na época. Suas obras são, em essência, um registro meticuloso do efêmero.
A obra de Edwaert Collier está sempre à procura da beleza, mas ele também que desafiar nossos olhos nos fazendo duvidar do que vemos. Seja em um afresco romano ou em uma tela holandesa do século XVII, o trompe l’oeil continua a nos capturar pelo puro prazer da descoberta: aquele instante mágico em que percebemos que fomos gentilmente enganados pelo pincel.
Seguem alguns exemplos de sua obra.
Trompe l’œil, diversos instrumentos de escrita, pente, jornais, 1696
Edwaert Collier (Holanda, 1642 – 1708)
óleo sobre tela, 69 x 84 cm
Museu de Arte de Indianápolis
Trompe l’œil, diversos instrumentos de escrita, 1699
Edwaert Collier (Holanda, 1642 – 1708)
óleo sobre tela
Victoria & Albert Museum, Londres
Trompe l’œil, O cheiro, c. 1701-1708
Edwaert Collier (Holanda, 1642 – 1708)
óleo sobre tela, 52 x 63 cm
Museu de Belas Artes, Houston, TX
Nota: há outras versões dessa tela.
Trompe l’œil, com porta cartas e a gravura de uma mulher, e um discurso de 1704 no Parlamento, s/d
Edwaert Collier (Holanda, 1642 – 1708)
óleo sobre tela, 51 x 61 cm
Coleção Particular
Nota: há outras versões semelhantes a essa tela, pelo próprio pintor.
O enterro da sardinha retrata uma festa espanhola, bastante caótica, que simboliza o enterro dos excessos do passado e o início das tradicionais restrições de jejum da Quaresma.
Trata-se de uma procissão funerária, jocosa, para o enterro de um peixe. Goya retrata um grupo de pessoas mascaradas, numa procissão caótica, com os últimos foliões, que carregam uma bandeira escura, com a figura do Rei Momo, rindo.
Acredita-se que essa celebração tenha surgido em Madri, durante o século XVIII, quando a corte encomendou peixes para o período da Quaresma. Mas o caminho era longo e os peixes chegaram a Madri já estragados, com cheiro muito ruim, obrigando os responsáveis a enterrar toda carga putrefata, às margens do Rio Manzanares. Comemoram o enterro da sardinha também nas Ilhas Canárias e na Catalunha.
Quando eu era criança, no Rio de Janeiro, havia um bloco que fechava o Carnaval. Saía ao meio-dia, o bloco dos presos, ou seja de todos aqueles que haviam sido presos por má conduta durante os dias de folia, em geral um monte de pessoas bêbadas e responsáveis por pequenos delitos.
Mas a Quaresma também era diferente. Não cresci numa família religiosa. Católica, mas não muito praticante. Mesmo assim não se devia rir alto, não se devia ouvir música alta. Tínhamos que ter comportamento sisudo. Era muito difícil. Os santos nas igrejas eram todos cobertos com tecido roxo simbolizando a dor, o luto, a tristeza de todos os católicos, mas isso acabou com o Papa João XXIII. Lá em casa, podíamos tocar piano só com o pedal abafador, e qualquer música era baixinho, para respeitar e não constranger nossos vizinhos que levavam as restrições da Quaresma muito mais a sério. E o Rio de Janeiro, respeitava o silêncio. Não havia blocos na rua, depois da Terça-feira Gorda. Alegria voltava só no Sábado de Aleluia, quando muitos clubes tinham o Baile do Enterro dos Ossos, à noite.