Poema de Natal, Fernando Pessoa

21 12 2012

Aldemir Martins, natividade, ost,

Natividade

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela

Poema de Natal

Fernando Pessoa

Natal… Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

 –

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade !

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.

 –

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei !

 





Palavras para lembrar — Charles Simic

21 12 2012

Jose van Gool, Lesend Vrouw, 2000, 70x60, ost

Moça lendo, 2000

José van Gool (Bélgica, 1945 )

óleo sobre tela, 60 x 70 cm

“Um poema é um segredo dividido entre duas pessoas que nunca se encontraram”.

Charles Simic

 





O Natal em Curvelo – texto de Maria Helena Cardoso

19 12 2012

Natal, 1969

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976 )

óleo sobre tela

Coleção Particular

O Natal em Curvelo era simples e não havia o hábito das pessoas se presentearem, não sei se porque todos eram pobres. Rezava-se a Missa do Galo na matriz, e o que marcava aquele dia como de festa, era o número de comunhões a mais.

Em compensação, o presépio era um costume tradicional. Ninguém que se prezasse deixava de armar o seu: havia-os nas igrejas, nas moradias particulares, os famosos que arrastavam visitantes de fora e os modestos, armados no interior das casas mais humildes.

Nas proximidades do dia, acorriam dos arredores da cidade mulheres, algumas de longe, que traziam para vender, enfeites os mais variados: tocos de pau com parasitas em flor, frutos silvestres, musgo, pedaços de limo verdinho, arrancados das margens de riachos ou de barrancos úmidos e pedrinhas. Quem podia, comprava, e quem não podia, ia ao mato procurar, o que já constituía um aparte da festa. Eram caminhadas sob o sol ardente e à tardinha o regresso, carregados de gravatás, frutos do mato, de cheiro penetrante e agradável, barba-de-pau e seixinhos polidos.

Para enfeitar o lago, imprescindível em qualquer presépio que se prezasse, muito antes da data, plantavam-se em latas de manteiga vazias, arroz, que crescia verdinho e viçoso. As serras eram feitas com o maior apuro: sobre folhas de papel pardo de embrulho, bem encorpadas, passava-se grude de polvilho, espalhando em cima carvão bem moído, reduzido a pó, cinza de borralho e vidro colorido, triturado em pedacinhos no almofariz de bronze, que faziam cintilante a serra.  Quanto mais variadas as cores dos vidros empregados, mais mesas, de acordo com a imaginação de cada um: altas, mais baixas, formando grotas, despenhadeiros, grutas, e de espaço em espaço, barba-de-pau, que lhe dava um cunho de semelhança.

Depois vinha a colocação de vários figurantes: na gruta principal, a manjedoura onde descansava o Menino, N. Senhora e S. José ao lado, os animais tradicionais: o burro, o boi e os pastores.  Pela serra e pelos caminhos polvilhados de areia branca, tudo aquilo que se tinha colecionado durante o ano e, muitas vezes, durante anos.  Animais diversos, homens com cajados, pastores, ovelhas, peregrinos, monjolos, marrecos, leitõezinhos, lenhadores com seus machados, carros de bois, trens de ferro, tudo na mais pitoresca confusão. Era uma procissão de bichos os mais engraçados, camponeses, tocadores de sanfona, pássaros variados nos galhos das árvores das estradas e da serra, todos em demanda da manjedoura onde repousava o Menino sob a guarda de seus pais. Bem no alto, uma grande estrela de papel prateado cintilava, apontando o caminho para os reis magos, ainda em viagem, ao lado de casas coloridas espalhadas, algumas em verdadeiros despenhadeiros, completamente inacessíveis.  Ao redor do espelho, que fingia o lago, latas de arroz mais verde e lindo e patinhos brancos nadando: de celulóide, de louça, ou barro da Cacimbinha, conforme as posses do dono do presépio.  Misturado a tudo, sobre areia e folhas, mangas cheirosa, abacaxis maduros, gravatás e uvas pretas pendentes de belos cachos, que ainda conservavam frescas as suas folhas.

De 24 de dezembro a 6 de janeiro não se pensava senão na visita aos presépios da cidade.

Ia-se de casa em casa, à procura deles, desde os mais famosos, que tinham monjolos pequeninos movidos à água, oficina de carpintaria completa, com instrumentos se movendo, até os mais humildes como o nosso, que só possuía as figuras do estábulo, as serras que nós mesmos fazíamos, o lago rodeado de arroz plantado muito tempo antes, uns poucos bichinhos disformes, moldados por nossos dedos inábeis no barro cinza que trazíamos de Cacimbinha.

Para mim, porém, não havia nenhum mais belo, nenhum que o igualasse.  Passava o dia colocando nele flores e frutos que conseguia arranjar com uns e outros. Tempo feliz.

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70.

 

Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista.  Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu  no Rio de Janeiro em 1994.  Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia.  Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923.  [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]

Obras:

Por onde andou meu coração, memórias, 1967

Vida,vida, romance, 1973





Palavras para lembrar — Ernest Hemingway

17 12 2012

Roman Zaslonov

Dormindo

Roman Zaslonov (Belarússia, 1962)

óleo sobre tela,  122 x 122 cm

www.roman-zaslonov.com

“Todos os bons livros têm algo em comum – eles são mais verdadeiros do que se realmente tivessem acontecido”.

Ernest Hemingway





Palavras para lembrar — Joyce Carol Oates

9 12 2012

Alfredo Araujo Santoyo, (Colombia, contemporâneo) A leitora, desenho a carvão sobre papel, 35x27A leitora

Alfredo Araujo Santoyo (Colômbia, 1972)

desenho a carvão sobre papel, 35 x 27 cm

“Ler é a única maneira que temos de deslizar, involuntariamente, quase sem resistência, sob a pele de uma pessoa, usar a voz de um outro, entrar na alma de outrem”.

Joyce Carol Oates





Imagem de leitura — Louise Amélie Landre

7 12 2012

Louise Amelie Landre  (França, 1852 - )

Café da manhã da trabalhora, s/d

Louise Amélie Landre (França, 1852-?)

Oil on Canvas

Louise Amelie Landre nasceu em Paris em 1852.  Estudou no ateliê de Chaplin, depois com Barias e finalmente completou seus estudos em pintura com Hubert.  Sua carreira se iniciou no Salão de 1876.  Em 1885, foi nomeada como Associada aos artistas franceses. E continuou a expor os retratos e as paisagens pelos quais ficou conhecida, pelo mesno até 1918. Data de falecimento desconhecida.

 





Natal — poema de Sabino de Campos

5 12 2012

Sagrada Família

Il Pesarese, Simone Cantarini (Itália, 1612-1648)

óleo sobre tela, 72 x 55 cm

Museu do Prado, Madri

Natal

Sabino de Campos

Natal.  É noite silente.

Numa pobre manjedoura,

Maria, divinamente,

No venttre um Deus entesoura.

José murmura, almo e crente,

Uma prece.  Do Alto, loura

Réstia de luz, docemente,

A face calma lhe doura.

Para reger o destino

Do mundo, nasce o Menino

Entre glórias na amplidão.

Os galos cantam nos prados

E seus clarins reiterados

Ecoam na solidão!

(Versos da meninice)

Cachoeira, Ba

Em: Natureza, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti, 1960





Palavras para lembrar – Louisa May Alcott

5 12 2012

Felix Vallotton, (Suiça 1864-1925) Voltando do mar, 1924,ost, 81 x 100cm

Voltando do mar, 1924

Félix Vallotton (Suiça, 1865 – 1925)

óleo sobre tela,  80 x  100 cm

Musée d’Art et d’Histoire, Genebra, Suíça

“ Quero fazer algo esplêndido…

Algo heroico e maravilhoso que não será esquecido depois da minha morte…

Acho que escreverei livros”.

Louisa May Alcott





Palavras para lembrar — Ray Bradbury

3 12 2012

Underground
Debaixo da terra

Valerie Ganz (País de Gales, 1936)

gravura

Valerie Ganz

“A leitura está no centro de nossas vidas. A biblioteca é o nosso cérebro. Sem a biblioteca não temos civilização”.

Ray Bradbury





Imagem de leitura — Jonathan Linton

3 12 2012

Jonathan Linton

Reader, s/d

Jonathan Linton (EUA, contemporâneo)

www.jonathanlinton.com