O carnaval carioca, texto de Gilberto Amado

19 02 2012

Baile de Carnaval, c. 1930

Bigio Gerardenghi (Itália, 1876 -Brasil, 1957)

óleo sobre tela, 54 x 75 cm

Carnaval

Gilberto Amado

…………

É que os jornais e o povo estavam preocupados com uma questão grave; não a falta de água, que esta há de por fim jorrar da discussão dos competentes; não do famigerado caso do Conselho, não de outros casos mais ou menos contundentes, mas de uma questão em que se empenha o carioca com todas as forças de sua alma — o carnaval.

De fato, o carioca não podia pensar em outra coisa, ter entusiasmos ou entregar-se mesmo ao curso normal de suas impressões no momento angustioso em que lhe ameaçam extinguir a tradição  mais profunda da cidade, a mais original e querida de todas.

O carioca é um ser resignado que vive aos 36º de temperatura, que suporta a poeira da Light, que perde dez horas, pacientemente em qualquer repartição pública onde tem caído um requerimento, que vai ali ao correio da Avenida Central por uma carta e gasta três horas a esperar que Deus o ajude com um selo, que não há jeito de receber um telegrama com menos de doze horas de atraso; que de improviso pode ser bombardeado pelo João Cândido ou por outros, que é servido por criados, cocheiros, choferes que vêm diretamente da Galiza, que agüenta todas as carestias do regime protecionista, que vai ao Lírico neste verão, que não tem água suficiente enquanto as montanhas túmidas a ofertam, que vive contente com todos os governos, que não é anarquista, que respeita a sistematização das classes, que não tem “reivindicações” a fazer; o carioca é, enfim, o ser mais paciente, mais tolerante, mais resignado do mundo.

Carnaval, 2003

Juarez Machado (Brasil, 1941)

pastel sobre papel, 70 x 100 cm

Tudo ele sofre com a serenidade bíblica que Deus lhe deu; mas o carioca tem um ponto fraco, um Nogli me Tangere muito sensível. É o carnaval.  São estes três dias vadios, em que ele pode despicar-se das angústias do ano inteiro; em que pode embebedar-se sem que o aviltem de ébrio; e que pode desprumar-se da sua elegância postiça sem que Figueiredo Pimentel o reprimenda; em que pode saltar, gritar, gesticular, sem que o achem desgracioso e ridículo; em que pode amar a descoberta e dissimular no eufemismo nas bisnagas apalpadelas gostosas sem conseqüências policiais ou outras, e ainda é nesses dias que ele pode dizer, posto de que leve, com a valentia efêmera dos fracos, algumas verdades que todos sentem durante o ano, mas que ninguém tem a coragem de dizer.  Só no intervalo vadio desses dias ele pode manifestar a sua alma folgazã, e todo o seu fogo  meridional, que se concentra durante o ano, parece só nessas horas fugazes expandir-se.

O carnaval entre nós deixa de ser assim a festa pagã que o cristianismo não estragou de todo – em que resta alguma vivacidade e algumas alegrias dionisíacas – para ser mais do que tudo isto: uma tradição venerável, uma festividade adorada, um hábito da sociedade que yem a significação de um desafogo na existência árida do brasileiro, que vive sem comodidade, sem dinheiro, sem orgulho, sem heroísmo, sem coisa nenhuma.

Eu, de mim, sou insuspeito, porque não morro de amores por Colombina, tanto que uso fugir discretamente da cidade para a ver de longe ou para a não ver.

Mas a multidão pensa de outro modo, e ela tem mais direitos do que qualquer um de nós, pois que ela é que sofre mais e é ela que durante os meses do ano, penando, ansiando, fazendo sacrifícios, vai acumulando economias para o carnaval, para o fazer brilhante, como uma noiva que reúne com esforço todo cabedal para a festa do casamento. Pode até dizer-se que o carnaval é a festa nupcial da população do Rio, o período em que ela se casa com a Alegria, de que anda sempre divorciada com a sua fisionomia sorumbática, com a sua gravidade, oh! a hedionda mazorrice de povo cansado, que não tem capacidade nervosa para o prazer.

Porta-bandeira, s/d

Menase Vaidegorn ( 1927)

óleo sobre tela

E foram esses boatos de que iam proibir o carnaval – que a tanto importava o catolizá-lo – que deu preocupação e tão graves nuvens carregou no sobrolho do carioca.

Felizmente, esses boatos são mentirosos.  Nem o Presidente da República quis negar a subvenção anual do estado, que é uma norma e um dever até porque corresponde a um hábito da população que vive empobrecendo para enriquecer o estado, nem o Sr. Chefe de Polícia pretende, como tão levianamente se propalou, converter Pierrô à igreja e o constranger a trocar as suas vestes frívolas pelo balandrau respeitável e obrigá-lo ao uso de óculos pretos, barbas negras, e a andar pela rua lento, conselheiral, com o passo de um senador antigo.

O Sr. Chefe de Polícia, como bom católico, não gosta de malandrices, mas também não deseja mal a esse pobre Pierrô, coitadito, que é quase um anjo do Céu, um ingênuo com a sua face branca e a sua jovialidade infantil…

Felizmente, os desmentidos são claros, positivos.  Desfizeram-se os boatos.  O carnaval continuará pagão; aparecerão os préstitos fulgurantes e o carioca, rejubilado desde ontem e de hoje à noite no regozijo da certeza de que o deixarão em paz, aí estará pela rua a zabumbar, a zaragalhar, a pintar o diabo.

E tu, Pierrô, desanuvia a fronte, trincoleja os seus guizos, sarabandeia, que dessa vez ainda serás rei.


Em: A chave de Salomão e outros escritos, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1971, [Coleção Sagarana] – texto originalmente publicado em 1910 chamado de A aviação e o carnaval.  Esta é asegunda parte do ensaio mencionado.





Flor silvestre e a ilustração de Euclides L. Santos

14 02 2012

Dando continuidade ao tema de ilustradores de livros do século XX, hoje apresento as ilustrações de Euclides L. Santos.  Elas foram feitas para o livro Flor Silvestre de Nilo Bruzzi,  publicado no Rio de Janeiro, pela Editora Aurora em 1962.  Nilo Bruzzi (MG 1897- RJ 1978) foi um escritor capixaba, melhor conhecido por sua poesia, ainda que tenha uma extensa lista de publicações que incluem contos, palestras e romances.  A primeira edição de Flor Silvestre foi de 1953.  Deve ter tido uma boa aceitação já que nove anos mais tarde há a publicação da 2ª edição do livro.  As ilustrações têm todas as características de estilo da década de 1950.

A mesma ilustração da capa, aparece de novo, em preto e branco, antes da página de rosto.

Euclides Luís dos Santos nasceu em Mussaré, PE, em 1908.  Pintor, desenhista e caricaturista.  Veio para o Rio de Janeiro em 1930, juntamente com o desenhista e caricaturista Nestor Silva.   Logo publicou seus primeiros desenhos no Para Todos,   O Jornal e Diário da Noite, e realizou exposição com seu companheiro de viagem na Sociedade Brasileira de Belas Artes em 1931. No período de 1933 a 1955 colaborou como ilustrador nas páginas de A Noite, A Noite Ilustrada, Vamos ler! (onde ilustrou o romance Oliver Twist de Dickens), Carioca, O Cruzeiro, O Malho e Revista da Semana.  Herman Lima, que o focalizou na História da Caricatura no Brasil (1963), referiu-se à intensidade de seu trabalho no campo da ilustração.  Como pintor recebeu as medalhas de prata e de ouro e o prêmio de viagem ao estrangeiro no SNBA, do qual participou inclusive em 1964.  [Roberto Pontual, Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1969]

“Corina França foi a primeira.  Trouxe uma braçada de rosas brancas…”

É uma pena que a impressão das ilustrações coloridas do livro, não tenha sido partcularmente boa.  A edição toda foi em brochura, com papel de baixa qualidade, mas as ilustrações foram feitas em papel couché e têm uma folha de papel fino protegendo.  Ao todo são 10 capítulos e 11 ilustrações de texto coloridas e a capa.

“…passeios, picnics na Crèmerie…”

“Pegado a esse terreno começa o prédio de O Primeiro Barateiro…”

Pela maneira como as cores foram reproduzidas, acredito que os originais sejam aquarelas.  Quem será que tem esses originais?

“… dizia que o clima era ótimo…”

“Era uma flor volante, vestido cor-de-rosa pálido…”

“Fez dela uma grande dama. Sensacional mesmo.”

“Caminhamos rumo à avenida conversando.”

“Dei-lhe o envelope com o dinheiro, dizendo-lhe quem o mandava.”

“…e fechou-nos por dentro. Voltou à poltrona…”

“Risonha e linda entrou segura ao meu braço na igreja…”

“…tinha criado asas, voado, vencido distâncias e pousado sobre o banco do jardinzinho de Batuíra…”





Imagem de leitura — Virgílio Dias

7 02 2012

Universitária, 2011

Virgílio Dias ( Brasil, 1956)

óleo sobre tela, 60 x 60cm

www.galeriadomquixote.com.br

 

Virgílio Dias Filho nasceu no dia 8 de setembro de 1956 no Rio de Janeiro, onde mora.

 





Imagem de leitura — Oscar Pereira da Silva

13 01 2012

Leitura, 1937

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867 — 1939 )

óleo sobre tela

Oscar Pereira da Silva nasceu em São Fidelis, no estado do Rio de Janeito em 1867.  Foi pintor e professor. Ganhou em 1887, no último em que cursou a Academia Imperial das Belas Artes no Rio de Janeiro, o prêmio de viagem à Europa.  Ficou em Paris e 1889 a 1896. Lá prosseguiu seus estudos com Bonnat e Léon Gerôme.  Voltando ao Brasil fixou-se em São Paulo.  Conquistou no SPBA a grande medalha de ouro em 1933 e o segundo prêmio Prefeitura de São Paulo em 1936.  Faleceu em 1939 em São Paulo.





Canção, poema de Onestaldo de Pennafort

4 01 2012

Mulher e flores, s/d

Antonio Rocco ( Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 76 x 50 cm

Canção

Onestaldo de Pennafort

Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.


Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim

Ó meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?

Onestaldo de Pennafort Caldas (RJ-1902- 1987) jornalista, ensaísta, tradutor e funcionário público. Escreveu para diversos periódicos brasileiros, tais como Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho.  Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, em 1987.

Obras

Escombros Floridos, 1921, poesia

Perfume e outros poemas, 1924, poesia

Interior e outros poemas, 1927, poesia

Espelho d’ Água: Jogos da Noite, 1931, poesia

Nuvens da tarde, 1954, poesia

Um rei da valsa, 1958, música

O festim, a dança e a degolação, 1960, crítica literária

Romanceiro, 1981, poesia

Além de traduções do inglês e do francês.





Prima Belinha, de Ribeiro Couto: retrato de um Brasil inocente

17 10 2011

Mulher com turbante, 1930

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo

Este é um romance leve, encantador, que retrata um Brasil de surpreendente inocência.  Prima Belinha foi o primeiro romance de Ribeiro Couto, escrito “quase todo em 1926” —  como o autor explica na apresentação — mas só publicado em 1940, depois que o autor já havia se tornado membro da Academia Brasileira de Letras.

O romance segue a vida de um jovem mineiro que,  praticamente deixado à porta do altar por sua prima de quem se considerava noivo desde sempre, vem para o Rio de Janeiro.  Na capital do país ele encontra uma situação política diferente daquela a que estava acostumado em S. Antonio do Mutum, onde seu pai era chefe político.  Sem rumo, sem ambição definida, José Viegas, que não tinha aptidão para coisa alguma além do bem e quieto viver no interior do país,  não consegue, como esperava um bom emprego.  A influência política de seu pai, forte no interior, não tem a importância que ele ou o pai imaginavam.  Na falta de melhor oportunidade, Viegas permanece na capital.

A simplicidade do movimento político retratado reflete a inocência de José Viegas.  Recém-chegado à capital, o jovem, por vingança de amor, se envolve numa trama para derrubar o governo que desde o início o leitor desconfia não ter respaldo.  Fadada ao insucesso, a aventura do mineiro em terras cariocas lembra o despreparo político do cidadão comum, e a inocência da sociedade brasileira da década de 1920.

Ribeiro Couto

A deliciosa prosa do autor com um estilo leve, mas preciso, esconde habilmente qualquer crítica social.  Isso ele deixa ao leitor, que nos dias de hoje, acha difícil acreditar em um mundo tão inocente quanto o representado, quer em Minas quer no Rio de Janeiro.  Vamos e venhamos, fica difícil, nos dias de hoje, imaginar, um grupo de revolucionários encontrando-se nos fundos de uma padaria do subúrbio, aonde chegam através de prosaicas viagens de bonde.  Talvez, mesmo em 1926, quando o romance foi escrito, essa realidade parecesse propositadamente inocente.  Mas com os olhos da segunda década do século XXI ela parece imensamente anacrônica.  Seria surpreendente então dizer que Prima Belinha é uma boa leitura?  Não, não é surpresa.  A prosa de Ribeiro Couto encanta.

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Você encontra neste blog um poema de Ribeiro Couto:  INSÔNIA





Dia 12 de outubro — Dia das crianças e como elas brincam!

12 10 2011

Pulando carniça, 1957

Cândido Portinari (Brasil, SP 1903- RJ 1962)

óleo sobre madeira, 53 x 64cm

Para quem é criança e para quem tem crianças todo dia é dia das crianças! 
Vejam só todas as suas atividades.
Digam: não é sempre dia das crianças?

Menino com pião, 1996

Reynaldo Fonseca (Brasil,PE, 1925)

óleo sobre madeira, 46x 37 cm

Amarelinha, 1974

Aldemir Martins (Brasil,  CE, 1922- Argentina, Buenos Aires, 2006)

óleo, 35 x 70cm

Meninos empinando pipa, 1950

Djanira da Motta e Silva ( Brasil, SP 1914- RJ 1979)

óleo sobre tela

Roda de peteca, 1983

Heitor dos Prazeres (Brasil, RJ 1898-1966)

óleo sobre tela,  50 x 60cm

 Cama de gato, 1976

Gustavo Rosa (Brasil, SP, 1946)

acrílica sobre tela, 80 x 80cm

Barquinhos de papel

Márcio Pita (Brasil, 1958)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Roda, 1942

Milton da Costa (Brasil, RJ 1915-1988)

óleo sobre tela

Menina de tranças, 2008

Inha Bastos (Brasil, BA, 1949)

óleo sobre tela, 50 x 50 cm

Baixa temporada, 2010

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela,  90 x 120 cm

Cabra-cega, 1978

Otaciano Arantes (Brasil, RS, 1931)

óleo sobre tela, 22×33 cm

Menino no cavalo de pau, s/d

Mário Gruber (Brasil, SP 1927)

óleo sobre tela colada em eucatex,  25 x 115cm

Duas meninas no balanço, s/d

Orlando Teruz (Brasil, RJ, 1902-1984 )

aquarela sobre papel, 30 x 24 cm

Bolinha de gude, 1989

Mario Mariano ( Brasil, MG, contemporâneo )

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

Bolhas de sabão, s/d

Edina Sikora ( Brasil, SP, 1955)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

Brincadeiras de criança, s/d

Ricardo Ferrari ( Brasil, MG, 1951)

óleo sobre tela, 120 x 190 cm





12 de outubro — dia de N. Sra. Aparecida, padroeira do Brasil

12 10 2011

Nossa Senhora Aparecida, s/d

Djanira da Motta e Silva (Brasil 1914-1979)

óleo sobre tela,  73 x 54 cm





Quadrinha de São Francisco

4 10 2011

São Francisco, 1985

Antônio Maia ( Brasil, 1928)

acrílica sobre tela, 61 x 46 cm

São Francisco era bondoso,

espalhava caridade,

hoje é santo milagroso,

distribui felicidade.

(Margarida Ottoni)





São Francisco, poema de Eduarda Duvivier

4 10 2011

São Francisco de Assis, 1982

Jenner Augusto ( Brasil, 1924-2003)

óleo sobre tela,  62 x 37 cm

São Francisco

Eduarda Duvivier

Por que não disse às feras pra não serem bravas?

Por que não disse às feras pra ficarem mansas

Com os homens bons?

E que todos os pássaros mortos fossem para o céu

Para brincar com as crianças que fossem para lá?

Por que não ensinou as onças a ficarem amigas

Das cabritas e dos veadinhos?

Por que não arranjou para elas uma carne de

–  –  –  –  –   — –   –   – (deixa eu ver) de jacaré…

Não, S. Francisco, uma carne de frutas?

Em: Poesia brasileira para a infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968