Da janela vê-se o Corcovado…

16 01 2026

Arcos da Lapa, 1965

Tadashi Kaminagai Tadashi (Japão-França, 1899-1982)

óleo sobre tela, 39 x 59 cm





Da minha mesa de trabalho…

15 01 2026

 

Reorganizar o escritório não é fácil.  E nem é só organizar livros.  Em geral organizamos de quebra,  papelada, gavetas da escrivaninha, dos armários, dos móveis à nossa volta. Minha cortina, ainda não chegou.  Espero há um mês.  Trabalhar com o computador virado para o janelão requer o uso de um boné, cuja aba quebra a luz entrando.  O caos ainda não foi domado.

Tenho três gavetas com fotos da família. Não só da minha geração.  Tenho fotos de meus bisavós, sei quem são, seus nomes, de onde eram.  Meus pais tiveram cuidado de nos informar sobre isso.  Acabei com as fotos, porque minha mãe morou comigo nos últimos anos de vida.  Herdei a documentação iconográfica da família.  E ontem consegui uma companhia que irá multiplicar as fotos, para que cada sobrinho tenha fotos de todos com seus rótulos, quem é quem, onde estavam, de onde vieram. Esse será parte do meu legado.

Esse tempo todo, selecionando fotos, organizando a família por lado de mãe e pai, trouxe reflexões que provavelmente aparecerão em escritos futuros, mesmo que de forma oblíqua. Com essa tradição familiar,  eu me lembrei do choque que ainda tenho, toda vez que vou a uma feira de coisas antigas, como na Praça Quinze de Novembro aqui no Rio de Janeiro, ou na Praça Santos Dumont e vejo dezenas de fotos, abandonadas por famílias que se desfizeram dos bens de algum familiar já falecido. Não ligar para fotos de antepassados que não conhecemos, é comum.  Não é  fenômeno brasileiro.  O mesmo acontece no exterior, no mercado das pulgas parisiense, na feira de usados da Praça das Armas em Madri, nas feiras americanas, nos leilões de espólios nos EUA. É comportamento mundial.  A minha régua é que não é a mesma. Talvez seja a historiadora em mim.

 

Esta família, pai, mãe e filhos, não conheci.  Mas o senhor é um antepassado.  Foto de 1912.  

 

Eu pouco sabia sobre essa foto. Hoje sei exatamente quem são, onde moraram, quando morreram. O senhor, eu sabia quem era. Mas a esposa dele, a informação que tinha era: “a irmã do Eusébio”.  Quem era Eusébio?  Como se chamava sua irmã? Fui atrás das respostas.  Hoje sei o nome de todos e sua saga. Preenchi alguns espaços em branco e com imaginação completei outros. Sei, por exemplo, que os três filhos, aí na foto, morreram jovens.  Todos três de gripe espanhola, em anos diferentes. Morreram em Liège, na Bélgica.  Esses dados, foram registrados num livro de preces, notas nas margens, numa caligrafia fininha, letrada.  Há a listagem da temperatura das febres de cada paciente, e a data de sua morte. Triste.  Devem ter sofrido muito. Os pais voltaram para o Brasil depois da tragédia, uma década após se mudarem para a Europa.  Ele, que havia sido imigrante português, morreu no Brasil em 1944. 

Ando perdida nesse passado que não conheci, mas que de alguma maneira é meu. Um momento ímpar, de pausa e reflexão.  Nada mal para um início de ano. 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2026.

 

 

 





Marinheiro, poema de Ladyce West

14 01 2026

eastman_judge6jun25

Capa da Revista Judge, de junho de 1925, com ilustração de Ruth Eastman.
Marinheiro

Ladyce West

Sou marinheiro de muitos mares,
De vários pares, de poucos lares,
De rumo impreciso,
De longos caminhos.
Redemoinhos…
Sou marinheiro de muitas águas
E poucas mágoas.
Destino traçado
Nas sombras das vagas
Em promessas pagas
No fluxo do amor

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

(Poesia escolhida e publicada no Desafio da Poesia de 2014, e esquecida na gaveta até hoje. Rs…)

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Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

14 01 2026

Natureza morta, 1953

Iberê Camargo (Brasil,1914-1994)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

 

 

Natureza morta

Lucy Citti Ferreira (Brasil, 1911-2008)

óleo sobre tela,  55 x 46 cm.





Todo mundo lê!

13 01 2026
Ilustração Hans De Beer (Holanda, 1957).




Limbo, poema de Mara Senna

13 01 2026

Natureza morta com pães, 1969

Johannes Hendrick Eversen (Holanda, 1906-1995)

óleo sobre tela, 41 x 61 cm

 

 

Limbo

 

Mara Senna

 

 

Pão dormido vira pedra.

Amor também.

Se achas que não,

explica-me, então.

Deve haver algum lugar

para onde vão

as histórias de amor

sem continuação.

 

 

Em: Ensaios da tarde.  Ribeirão Preto, SP: Editora Coruja, 2012. 





Terceira leitura completa em 2026

12 01 2026

 

 

Nunca julgue um livro por sua capa.  Quantas vezes já ouvimos isso? Mas algo nesse livro de Alberto Manguel, nessa capa, me dizia, isso vai ser uma leitura vagarosa e chata.  Talvez tenha sido o tamanho do volume: nem livro de bolso, nem tamanho normal.  Talvez tenha sido a encadernação.  Não sei.  É fato que andou rolando por aqui já há um tempinho, passando de uma prateleira a outra. Mas que posso fazer? Impliquei com ele.  

Reorganizar livros na biblioteca, me levou a abraçar mais seriamente livros que ainda se encontram em capas plásticas: comprados e sem ler.  São muitos.  Minha desculpa é que organizo dois grupos de leitura, isso significa no mínimo duas leituras diferentes a cada mês, participo de um grupo, que não organizo (ainda bem!) que tem leituras mais leves.  Com todos esses compromissos durante o ano, é quase certo que não tenho tempo para ler  tudo que gostaria. Compro os livros que imagino querer ler, e eles pelo menos ficam rolando por aqui, à minha espera. Tenho até duplicatas de alguns, que havia esquecido que já comprara. Encontrei uns nessa organização. Foram doados. Novinhos em suas capinhas plásticas.  Mas fiquei determinada a acabar com uma pequena pilha e como tenho passado horas esperando profissionais da casa, ando lendo muito. 

Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões, de Alberto Manguel, tradução de Jorio Dauster, Cia das Letras, 2021 me conquistou.  Que delícia! São 184 páginas de prazer, para quem gosta de livros, para quem lê.  Alberto Manguel escreve sobre leitura, livros, emoções na leitura, bibliotecas, tudo que lhe toca à medida que empacota os mais de 30.000 livros para se mudar da França para Nova York. Ao longo de suas digressões aprendi muito, fiz listas de livros que precisava reler e me encantei com o que não sabia sobre outros livros que nunca li e que subitamente foram colocados na lista de leituras imprescindíveis.   Manguel relaciona as mais díspares leituras com facilidade e encantamento, trazendo para o leitor novas maneiras de pensar livros e ideias.  Esse é um livro para os que gostam de ler, e  que  se veem como leitores para o resto da vida.  Para eles, para mim, é um livro imperdível. 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Imagem de leitura: Joan Mayor

12 01 2026

Leitora, 1950

Joan Mayor (França, 1890-1970)

óleo sobre tela

 





O Siroco, texto de Jenny Erpenbeck

11 01 2026

O Siroco, 1909

Jan Ciaglinski (Polônia, 1858-1912)

óleo sobre tela, 29 x 37 cm

Museu Nacional da Cracóvia

 

 

 

“Richard então se lembra de que, passeando entre videiras com um colega vienense por ocasião de um simpósio no sul da Áustria, o colega de repente se deteve, inspirou profundamente o ar e perguntou-lhe se também ele estava sentindo o cheiro: o siroco vem da África, disse, atravessa os Alpes e, às vezes, chega mesmo a trazer consigo areia do deserto. E, de fato, nas folhas das videiras podia-se ver uma fina camada de poeira avermelhada vinda da África. Richard passou o dedo por uma das folhas e notou como aquele pequeno gesto de súbito deslocava seu ângulo de visão e seu senso de medida.”

Em: Eu vou, tu vais, ele vai, Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli, Cia das Letras: 2024

 

 

Duas notas:

1 – Esse talvez tenha sido o livro que li em 2025 que mais me impactou. Certamente estaria entre os três primeiros do ano passado, no início do ano.  Recomendo.  Esse meu final de ano foi tão conturbado, e ainda não está normal, que nem a lista dos melhores do ano eu fiz.  Que vergonha!

 

2 – Conheci o Siroco no ano em que morei na Norte da África acompanhando meu marido professor convidado pela Universidade de Oran.  É realmente um fenômeno sem igual.  O céu se torna avermelhado com o colorido do sol se pondo.  É a nuvem de areia do deserto que passa muito acima da terra, em direção à Europa.  Deixa, de fato, uma finíssima camada de pó (não é areia) avermelhado ao longo do caminho que faz em direção norte. 





Em casa: James Tissot

11 01 2026

À beira-mar, 1878

James Tissot (França, 1836–1902)

óleo sobre tela, 112 x 85 cm 

Museu de Arte de Cleveland