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Ilustração de Maurício de Sousa.
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Quando a noite vai embora,
a aurora vem, de mansinho,
despertando fauna e flora
na mata e no ribeirinho.
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(Marcos Medeiros)
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Ilustração de Maurício de Sousa.–
Quando a noite vai embora,
a aurora vem, de mansinho,
despertando fauna e flora
na mata e no ribeirinho.
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(Marcos Medeiros)
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Fotografia da Biblioteca Nacional da Escócia, ilustrando o artigo mencionado.–
Ando fascinada com as pesquisas sobre os hábitos de leitura do passado: é aí que a historiadora em mim se revela. Como todos sabem dedico boa parte do meu tempo na leitura de diários, notas, memórias, preferencialmente de pessoas comuns de tempos passados. A pesquisa sobe os hábitos das pessoas de gerações passadas recebeu grande impulso nos últimos 50 anos culminando recentemente, para o leitor não especialista, na coleção História da Vida Privada.
A descoberta dos hábitos e costumes do passado nos ajuda a entender a seleção natural através dos séculos que definem muitos dos paradigmas da sociedade atual. Nossa maneira de ser, de considerar o que é importante para o grupo social, vem sendo filtrado pelas gerações que nos precederam. Foram essas pessoas que desconhecemos, nossos antepassados remotos, que escolheram o que deveria ser considerado importante, essencial, em termos sociais, relogiosos, políticos. Com suas escolhas elas deixaram o lastro cultural no qual a nossa visão de nós mesmos se baseia.
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O fascinante estudo do que líamos no passado está em pleno andamento como mostrou Jennifer Howard, no artigo Secret Reading Lives, já mencionado no blog anteriormente. A lista de publicações e de referâncias sobre os hábitos de leitura de outros tempos, aumenta a cada dia e a Reading Experience Database — RED, mostra como a internet, na Inglaterra, um país que sempre teve interesse pela sua própria história, pode auxiliar no levantamento das riquezas do passado. O RED é uma fonte de material de primeira mão, de cartas, diários, livros de poesias favoritas, selecionadas por pessoas comuns, um hábito bastante popular durante o século XIX. O RED, poderia muito bem dar exemplo e incentivar iniciativas semelhantes, em países como o Brasil que tanto necessita de pesquisadores e de novas visões sobre uma história tão mal contada, empobrecida por mais de 500 anos, de descaso.
Um dos exemplos curiosos ilustrando o artigo na revista The Chronicle of Higher Education é a descoberta de que a leitura feita na linha de batalha, por soldados engajados na 1ª Guerra Mundial, diferente do que se preconizava, não era leitura de panfletos propagandísticos ou políticos, mas que a leitura mais procurada era a de jornais de suas cidades natais, prosaicas lembranças, escapistas, de uma vida mais mansa, romântica, idealizada. São detalhes como esses que podem nos oferecer uma ideia do que se passava no início do século XX; como a guerra foi conduzida e por quem; mas muito mais que isso: o comportamento de seres humanos em períodos de grande estresse. Pesquisa enriquecedora que levanta um espelho para o nosso comportamento emocional e para a herança deixada por esses que viveram cinco, seis gerações antes da nossa. Fascinante.
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Desconheço a autoria da ilustração, acredito que seja capa de um número de verão da revista americana Modern Priscilla, que deixou de existir por volta de 1930 depois de algumas décadas de existência. Já procurei mas ainda não achei a autoria, qualquer dica será bem-vinda.–
As nuvens já vão chegando,
voltam barcos, devagar;
as aves surgem flanando…
e você não vai voltar?…
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(Luiz Pereira de Faro)
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Leitora
Elaine G. Coffee ( EUA, 1941)
óleo sobre tela
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Hoje posto, uma pequeníssima passagem do livro Branca Bela de Geraldo França de Lima. Li esse livro na semana em que completei quatorze anos. E ele me marcou muito e para sempre. Adorei a personagem principal, que é uma jovem, com quem pude me identificar na época e compartilhei de seus questionamentos. Seu impacto foi tão grande que tive receio de reler esse volume, ainda que tenha lido quase toda a obra de Geraldo França de Lima. O receio era de que a magia que me influenciara, principalmente quanto ao papel feminino, pudesse ser desencantada durante uma segunda leitura. Mas isso não está acontecendo. À medida que leio Branca Bela, nessas férias de Natal e Ano Novo, tenho uma nova apreciação. Sinal de que o romance é mesmo muito bom e que a leitura de hoje, mais madura, ainda consegue tirar outros significados do texto. Fica aqui a recomendação:
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“Nem sempre são flores a livraria: há instantes em que o ambiente se torna empestado e tenho de meter-me dentro de mim mesma, para não ouvir o que, alto, de propósito, conversam. Explosões de sensualismo naqueles homens incapazes, que tentam afirmar-se pela palavra, pelos gestos… Embora eu me mantenha de cabeça baixa, sinto fixados em mim seus olhares insatisfeitos. O juiz é mestre, e se está na terra o coronel Anfilóquio, deliram… Às vezes fico arrepiada. E tais, os tipos que dirigem a sociedade, que falam em moral e que condenam!
Meu pai com suas manias cíclicas, com aquela irreverência, jamais proferiu uma palavra feia. Nem me lembro de o ter visto ser estar barbeado, camisa clarinha, de gravata, paletó abotoado, sapatos limpos e impecáveis os frisos da calça.
Falar mal dos outros é o assunto da livraria. O que dizem! Excetuados os negócios serão incapazes de uma palavra séria.
Acompanha-me, de Seu Artur, sacristão e pai de Nora, a impressão da infância: jeitos e trejeitos do demônio, língua impiedosa, o primeiro comentário sobre Luisita Veras veio dele.
Seu Antero é fantasma, fugindo à luz e ao sol, esqueleto em movimento: olhos morbidamente apagados, encravados nas órbitas.
Dr. Orestes é o menos mal-educado: desagradáveis as risadas regozijando-se com a desdita alheia. Por entre o intervalo de cada gargalhada, sentencia doutrinariamente:
— Mundo perdido! A licenciosidade, a promiscuidade!
— A causa é a mulher. Lugar dela é trancada em casa. Mas vive solta, tentando os homens – acrescenta Seu Artur porejando despeito.
— E você está certo, Artur, — concorda Seu Antero – a mulher é o mal. Ainda ontem vi uma, na rua, sem meia! Que se pode esperar de uma mulher sem meia!
Fervo e protesto por dentro: reduzir o conceito de mulher a um par de meias! Moral terá sexo?
Por que existem uma moral masculina e outra feminina?
Infelizmente a mulher permanece propriedade e sua conduta depende das concessões ou do tacanhismo do senhor”.
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Em: Branca Bela, Geraldo França de Lima, Rio de Janeiro, São José: 1974, 2ª edição, p.49
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Senhora à mesa com livro, 1916
Anton Faistaeur (Áustria, 1887 – 1930)
óleo sobre tela,
ColeçãoParticular em Saltzburg
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Jean-Paul Sartre
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Ilustração Maurício de Sousa.–
Vovó, teu nome é ternura,
canção de amor e amizade.
Quem te possui, que ventura!
Quem te perdeu, que saudade!
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(Nair Starling dos Santos Almeida)
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Os Reis Magos foram e são um dos mais belos temas encontrados nas artes plásticas. Na época da Renascença italiana foi frequentemente pintado como uma grande procissão em que os mecenas das artes eram representados como membros das caravanas acompanhando os magos. Já conversamos sobre os Reis Magos e os doze dias do Natal, aqui mesmo no blog, em 2009, na postagem titulada Hoje, Dia de Reis, o 12º dia de Natal.
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Foi na Espanha moderna que encontrei o maior número de representações dos Reis Magos na escultura artesanal, nas artes folclóricas, digamos assim. Cheguei a ter uma pequena coleção de Reis Magos, trazidos a cada vez que volto à Espanha.
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Cartão c. 1900.Muito associado, como deveria ser mesmo, às cenas da Natividade, a visita dos Reis toma características próprias de acordo com a região do mundo que a representa. Vejam abaixo que em alguns países europeus eles são frequentemente representados, nos cartões de Natal, como crianças. Não sei a razão, talvez peças de teatro religiosas, como autos?.
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Cartão de Natal, EUA, sem data.Hoje, pelo menos aqui no Brasil, perdemos muito da importância do Dia de Reis, pelo menos no nosso folclore. Está havendo há décadas uma mistura total das festividades que já não têm mais requisitos específicos para a data. O nosso nordeste, onde grande parte da tradição dos reisados [a palavra vem do Dia de Reis] ainda existe, já não limita suas cantigas e suas danças a essa data ou à essa época. Semelhantemente as festas juninas já não acontecem mais em junho, e sua celebrações podem ocorrer até agosto, enquanto as características roupas caipiras adquiriram, hoje, um ar carnavalesco, com muitas lantejoulas e paetês.
– è
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Este é o único cartão de Natal que tenho em que todos os personagens são representados por negros. É um cartão de Natal africano. Não acredito que seja raro, mas nas minhas imagens é fora do comum.
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Algumas vezes a Estrela de Natal toma a forma de uma cruz, como se fosse uma prefiguração do sacrifício do Recem-nascido.
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Na Europa do Norte há muitas representações dos Reis Magos como crianças, como neste cartão da Finlândia.
Cartão Checo, 1955.–
Só pelas linhas alongadas já dá para saber que estamos olhando para um cartão de Natal dos anos 60 do século XX.
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-Se
Seis de Janeiro, Dia de Reis foi sempre bastante comemorado na minha infância. Havia duas razões: o dia santo — acreditam que já foi feriado nacional? Pois, também era data de aniversário de um de meus tios. Enquanto minha avó morou conosco era celebrado com um grande almoço em família. E depois do almoço, passadas algumas horas comíamos então o Bolo de Reis. Já escrevi aqui no blog sobre esse bolo [Bolo de Reis ] que tinhas prendas dentro que previam o futuro.
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Cartão de Natal alemão.–
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Cartão de Max Nauta (Alemanha, 1896-1957)–
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Lois Mailou Jones ( EUA, 1905-1998)
óleo sobre tela
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Lois Mailou Jones nasceu Boston, Massachusetts, em 1905. Começou a pintar ainda criança, incentivada pela família que todos os verões a levava para a ilha Martha’s Vineyard, onde aprendeu a pintar com aquarelas o que se tornou seu meio favorito de pintura. Estudou na Escola de Arte do Museu de Boston. Na década de 1930, o trabalho de Louis Mailou Jones começou a refletir influências de tradições artísticas da África; e chegou a desenhar máscaras no estilo africano. Esse trabalho refletiu no quadro Les Fétiches de 1938, que mostra máscaras africanas em cinco estilos étnicos diferentes. Durante o ano de estadia na França produziu próximo a quarenta trabalhos entre paisagens e estudos figurativos, dando vazão a influencias africanas. Faleceu em 1998.
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Amuada, s/d
Belmiro de Almeida (Brasil, 1858-1935)
óleo sobre madeira, 33 x 41
Museu Mariano Procópio, MG
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“23 de junho [1939]
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Meu primeiro contato com Machado de Assis data do mês que passei com Mimi e Florzinha, quando Roberto, ainda em colo de ama, não fora entregue aos cuidados das tias. Depois de vários adiamentos, papai resolvera limpar a casa, fazer alguns retoques no telhado e no forro, reformar o banheiro — estava bastante maltratada.
Pintada a óleo, a óleo devia ser repintada, mas como cheiro de óleo envenena, durante a pintura não poderia continuar habitada. Houve uma distribuição de domicílios. Papai e mamãe foram para a casa de Ataliba, Mariquinhas carregou Emanuel para Magé, eu e Madalena ficamos na casa das primas, que era na Boca do Mato. A novidade foi excitante. Navegadores de primeira viagem, sentíamo-nos à deriva – e o casarão suburbano, com comida, hábitos, móveis, decoração, conversas e linguagem diferentes, com outra paisagem, outra luz, outro cheiro e calor, era um cosmos que se abria em mil e mil descobrimentos fascinantes.
Mimi era leitora inveterada e, de pouco dormir, chegava a romper madrugadas com livros na mão, livros dos quais, por não ignorar os meus pendores livrescos, contava-me depois os enredos com o mais lato seguimento e minudência. Se eu gostava, lia o livro, o que resultava em longas e posteriores conversações nas quais a boa prima não se dava conta, em absoluto, da nossa diferença de idade e com suma sisudez, manejando pincenê como uma batuta, aceitava ou rebatia os meus balbuciantes argumentos literários, o que de resto me envaidecia.
E foi assim que travei conhecimento com o mestre. Ela havia devorado Helena numa noite e no outro dia estava com a sensibilidade em polvorosa – é o melhor livro dele, dizia, e narrou-me todo o entrecho depois do almoço, na fresca e ensombrada varanda, que ladeava a casa em toda a sua longitude e que até o meio tinha uma tecedura de guaco, cujas virtudes expectorantes, sob a forma de chá ou de balas, eram amplamente recomendadas e exploradas.
Solicitei o romance, mas a verdade é que achei decepcionante, transmiti minha impressão, Mimi repisou o seu entusiasmo, e não pensei mais no autor.
Um ou dois anos mais tarde, passava eu para aquilo que no colégio se chamava o curso adiantado de português, isto é, o curso ao termo do qual era tirado o exame final dessa matéria. Para leitura e análise tínhamos uma grossa antologia de pífio papel, mas se houve livro que eu amasse, foi este. As amostras que trazia davam logo para gostar ou detestar. Foi nele que li “O Plesbicito”, de Artur de Azevedo, incorporando-o imediatamente à minha perene simpatia. Foi nele que amei Maupassant, por causa do “Adereço de esmeraldas”, amor que foi diminuindo como tempo até se mudar em desinteresse, desinteresse de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”, sim de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”. Foi nele que Schiller me arrepiou com o episódio da luva e Coppée me emocionou como os vícios daquele capitão reformado, a primeira ficção francesa em que eu encontrava uma referência ao Brasil. Foi nele também que li um trecho de Dickens, “O jantar de Toby”, jantar de tripas numa noite glacial, jantar de pobre, trazido pela filhinha, maravilhosa revelação, pois a alegria de Toby me impressionou tanto que eu quis sem demora conhecer o romance por inteiro. Foi nele que aprendi a detestar Garcia Redondo, Pedro Rabelo, Coelho Neto, Alcides Maia, Macedo e tantos outros. Foi nele que, afinal, encontrei o meu Machado. Vinha em pedaços como fatias de um grande bolo, grande e saboroso. Fui comendo deliciado: aquele admirável trecho do fanático por brigas de galo, o do pesadelo em que o diabo tira libras de um saco para por em outro, o episódio da ponta do nariz, a célebre volta aos tempos, cavalgada às avessas, imorredouro retrocesso, e, principalmente, o famoso jantar da família Brás Cubas, ágape a que iria assistir, coberto de vergonha, numerosos similares. E o que não pude acreditar mui prontamente foi que houvesse relação entre o padeiro desses nacos surpreendentes e o confeiteiro de Helena de tão chocha e açucarada memória. E atirei-me ao manjar inteiro, começando pelas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Daí para Quincas Borba, depois para Dom Casmurro, quando fiquei para toda a vida apaixonado por Capitu, paixão que só se igualaria com a provocada por Vidinha, a gargalhante mulatinha dos lundus. Quando cheguei aos contos – “Conto de escola”, “Uns braços”, “O diplomático”, “Uma senhora”, “Missa do galo”, “Capítulo de chapéus”, “Ideias de canário” – quando cheguei aos contos alumbramento de que Antônio Ramos compartilhava, senti que formavam um trilho ideal, caminho único encimado por uma estrela, estrela guiadora, bem diversa daquelas, indiferentes às lagrimas e aos risos, que o mal-aventurado Rubião pedia à bela Sofia que fitasse”.
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Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962
Ilustração de John Newton Howitt, para a capa da Revista Holland’s de maio de 1929.–
Eu fico pasmo, por certo,
vendo Deus, perfeito assim,
esquecer o cofre aberto
do perfume do jasmim…
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(Lacy José Raymundi)