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Segredinhos, ilustração de Eloise Wilkin.
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Quer chova, quer brilhe o sol,
comentam-na os mexericos.
Não importa ao rouxinol
o pio dos tico-ticos!…
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(Sudra Vana)
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Segredinhos, ilustração de Eloise Wilkin.–
Quer chova, quer brilhe o sol,
comentam-na os mexericos.
Não importa ao rouxinol
o pio dos tico-ticos!…
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(Sudra Vana)
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As irmãs, 1839
Margaret Sarah Carpenter (Inglaterra, 1793-1872)
óleo sobre madeira, 30 x 36 cm
Victoria & Albert Museum, Londres
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Margaret Sarah Carpenter nasceu em Salisbury em 1793. Começou a aprender a pintar com um mesttre local que primeiro lhe ensinou a arte do desenho. Seus primeiros estudos em pintura foram cópias dos quadros no Castelo de Longford, de Lord Radnor. Depois de receber um premio por u ma de suas cópias, sua carreira começou a se movimentar. Foi para Londres em 1814 e logo se estabeleceu como uma retratista de fama. Morreu em Londres, em 1872, no dia do seu aniversário.
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“Da janela da sala, avalio a beleza da lagoa Rodrigo de Freitas, cuja estética depende da capacidade de cada qual misturar princípios, gostos, esquemas, de abrir-se para a voluptuosidade das ofertas que nos cercam. Assim, o espelho da água denuncia em que estágio estou. Se amadureci com lisura, elegância, para ser quem sou, se ainda há tempo pra me corrigir.
Mais adiante observo o morro Dois Irmãos, de aparência irreal ao se iluminar. À direita, no topo da montanha, o Cristo, de braços abertos, critica o ufanismo nacional. Ele contempla os excessos e se cala. Da casa, em linha reta, quase no rés do chão os clubes náuticos e as pistas verdes do Jockey Clube.
Despertei cedo e pus-me a escrever com a esperança de ser tocada pela graça. Para o trabalho que ora desenvolvo, qualquer hora e local servem. Só as palavras, com seus símbolos, me pautam. A escrita brota, então, das máscaras que peço emprestadas a quem não sei, com o intuito de me apresentar em público. A escrita, contudo, à minha revelia, anota o inconfessável, a matéria da cama e dos salões. Mas como ludibriar sem a verdade da criação? Se a ficção apresenta, no seu nascedouro, uma verdade feita de falsa coerência?
Sigo para o mercado, atraída pelo supérfluo. Congratulo-me com o bairro e os seres que perambulam pelas ruas. Sei conquanto a vida não me perpetue, insisto em ser trânsfuga, andarilha, falar o português. O que mais pedir ao Brasil?
Ao final da tarde, o crepúsculo da lagoa reafirma que a arte reconcilia os seres, aquece-os. O ano está prestes a acabar, há que prestar contas, fazer votos, pedir trégua aos desafetos, aos que se odeiam tanto que só o assassinato lhes abrandaria o coração. Solicitar, sobretudo, mesa farta para os humilhados, febre para os indiferentes, clemência amorosa.
Jogo as cartas sobre a mesa aguardando que o ás de ouros me indique o porvir”.
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Em: Livro das Horas, Nélida Piñon, Rio de Janeiro, Record: 2012, pp 129-130
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George Monanuli (Georgia, contemporâneo)
70 x 90 cm
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Massimo Vignelli
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Nem escrito, nem falado,
porém fácil de entender,
é o silêncio do recado
que um olhar sabe dizer.
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(Sebas Sundfeld)
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Albert-Jan Cool (Holanda, 1947)
aquarela
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Albert-Jan Cool nasceu em Oegstgeest na Holanda em 1947. Pintor figurativo. Prefere cenas alegres , coloridas e brilhantes. Pinta tanto com tintas acrílicas quanto com aquarelas. Começou seus estudos na sua cidade natal, fazendo depois o curso de Belas Artes em Haia à noite enquanto trabalhava durante o dia como ilustrador arqueológico, o que o permitiu de viajar pelo Oriente Médio além da Holanda através de sítios arqueológicos. Trabalhou também como autônomo nas ilustrações de livros e revistas. Já publicou diversos livros de instrução sobre pintura entre eles o livro A Costa, que explora os segredos da pintura em aquarela com motivos de praia, que já foi reeditado e traduzido para outras línguas.
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Cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro.–
Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada à José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se ia erguer o atual hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840. Em 1851, o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz – um dia, Pedro, irás para o Caju – quer dizer – um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se as terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis. Em 1858, desmembra-se o terreno que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira do Carmo. Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitada pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios, fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. O aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais da Limpeza Pública, o dos madeireiros e a ponta de terra onde desembarcavam os macabeus de Jurujuba – perante a grada de honra das palmeiras cruzando suas folhas como espadas verdes no silêncio do funeral anônimo. O mar foi para longe e os pobres mortos deixaram de ser devorados pelos necrófagos talássicos, os siris e os guaiamuns. Passaram a ser pasto dos de terra, os tatus e as baratas. Aí! ser entregue às baratas…
Entramos no cemitério como quem penetra as imensidades. Não as urbanas, como as perspectivas dos três poderes, na Brasília; as dos Campo Eísios em Paris; do Zocalo, no México; da praça de São Pedro, e da Via da Conciliação em Roma. Mais do que isto. Mais que as próprias imensidades do pampa, do deserto, da estepe. Eram as imensidades sem fundo do tempo fugitivo e eterno, do espaço verificável e infinito. Transpondo seu pórtico de pedra eu tive a percepção invasora (e para sempre entranhada e durável) de um impacto silencioso e formidando. Alguma coisa se passou ali, se passou em mim, invisível, como que incometida e destituída de flagrante ação. Um súbito vazio, rarefação do elemento essencial a que eu bati guelras de ansioso peixe. Na imensa ausência eu só captava os círculos concêntricos da palavra oásis, da palavra oásis, da palavra oásis, se desprendendo da sineta que repicava para o defunto que chegava e para o enterro com que fomos de cambulhada. A entrada principal do campo-santo era uma larga avenida que a cobiça da Santa Casa foi estreitanto de tanto vender os palmos de terra onde capelas ricas e modernas cobrem a vista dos túmulos dos primeiros tempos. Logo à esquerda os do Visconde e do Barão do Rio Branco. O deste, apenas um cubo de alvenaria caiada a espera que a Nação construa o monumento do construtor de suas fronteiras. Logo depois a moça abraçada a uma coluna (cujo mármore se derrete como um torrão de açúcar, da sepultura de Águeda Francisca Durão. O belo monumento de letras apagadas de José Clemente Pereira. À direita, o de José d’Araújo Coelho com sua pirâmide e sua cabeça de esqueleto. O da que foi Ana Maria Ribeiro de Araújo Sousa com a armaria da Morte: em campo de nada a caveira triunfante sobre tíbias postas em aspa. As de Luísa Rosa Avendano Pereira e do médico Roberto Jorge Haddock Lobo. No fim das duas quadras iniciais o Cruzeiro de granito, todo dourado do tempo e azinhavrado dos musgos, abre seus braços de árvore de pedra, de moinho de pedra – sobre o infinito luminoso do seu despencado em cima da baixada carioca e da baixada fluminense. Nos degraus destes cruzeiros de cemitérios é que senta o Grão-Porco na meia noite das sextas-feiras de novilúnio. Senta e espera os destemidos que entram para solicitar ouro, poder e amor. Quem chega ao Porco e pede, já ganhou porque tem preenchida a condição — que é atravessar até ali sem desviar a cabeça, sem olhar para os lados, por mais que os defuntos saídos do chão da terra chamem com psius pelo nome, xinguem, vaem, cutuquem e puxem pela roupa. Ai! de quem olha para os lados, hesita, treme e para. Cai logo morto e cai fedendo de podre e de borrado. Já quando ele vence, logo os cadáveres voltam para as covas que se fecham e estralejando as lajes e um vento largo e rude varre o cheiro da carniça, limpa a face da lua nova. O Porco imundo vira num príncipe prateado e todo airoso. Abraça o postulante e os dois saem juntos (porque o Vinícius, lá fora gritou que já é sábado!) – saem juntos, para nunca mais se separarem. Nem nós de cá desta vida, nem nós de lá de depois da morte….
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Em Balão Cativo: memórias/ vol2, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio: 1973, pp: 40-42
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Numa colcha de retalhos
costurei nossas lembranças
e alinhavei os atalhos
com a linha da esperança.
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(Alice Cristina Velho Brandão)
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Vaso com oleandro e livros, 1888
Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)
óleo sobre tela 60 x 73 cm
Metropolitan Museum, Nova York
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Afonso Louzada
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Talvez marcando o poema, em livro antigo,
encontrei uma flor já ressequida.
Velha história de amor… penso comigo,
pondo-me a ler a página esquecida.
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Quem à flor nesse livro deu abrigo,
quem sabe? procurou tê-la escondida –
do amor sentindo o grande abraço amigo,
para a própria saudade comovida.
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E o que ficou daquele amor profundo?
Talvez agora, já não resta nada
De tudo que era sonho e que era vida.
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Sob o silêncio lúgubre do mundo,
Apenas essa flor abandonada –
marcando a velha página esquecida.
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Em: Sonetos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição aumentada.
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Forno de pão [Hamburgo Velho], 1956
Ernesto Scheffel (Brasil, 1927)
óleo sobre tela, 297 x 138 cm
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Daniel Pennac