Saudade…Perfume triste
de uma flor que não se vê.
Culto que ainda persiste
num crente que já não crê.
(Menotti Del Picchia)
Saudade…Perfume triste
de uma flor que não se vê.
Culto que ainda persiste
num crente que já não crê.
(Menotti Del Picchia)
Fazendinha na Floresta da Tijuca, RJ
Fernando Correa e Castro (Brasil, 1933)
óleo sobre tela, 41 X 50 cm
Le quai des brumes
Francine van Hove (França, 1942)
óleo sobre tela
Fazer resenha de alguns parágrafos sobre o livro O jovem de Annie Ernaux, com tradução de Marília Garcia [Fósforo: 2022] é mostrar que apesar de poucas páginas — um conto? — há pelo menos algo de mais sólido a ser observado sobre essa leitura. Estou aos poucos cobrindo a obra de Annie Ernaux, volume por volume. Não porque ela tenha sido recipiente do Nobel de Literatura 2022. Não tenho o hábito de ler toda a obra de quem ganha o Nobel. Mas sua prosa é de grande sensibilidade e a forma de autobiografia ficcionalizada,– sempre considero que qualquer biografia é ficção –, tem me atraído nos últimos tempos, também pela interação de história com memória.
A linha narrativa deste minúsculo volume é simples: uma mulher de uma certa idade, tem um parceiro amoroso muito mais jovem do que ela. O rapaz tem idade para ser seu filho. Nas últimas décadas esse parece ser um acontecimento mais comum, menos escondido. Vemos na mídia, com alguma frequência, senhoras envolvidas amorosamente com rapazes jovens. Tinha impressão de que essa desigualdade de idades, com o perfil desse casal, fosse corriqueiro na França, mas, pelo visto, na época de Annie Ernaux, esse não era o caso.
O que me surpreendeu nessa história foi perceber que a mulher, pelo menos nesse caso, acaba com atitudes e posicionamentos que vemos na descrição de homens mais velhos que mantêm relacionamentos com mulheres que, pela idade, poderiam ser suas filhas. Não sei porque, eu achava que seria diferente: estava errada. Nesse conto, a mulher (Annie) se sente superior ao rapaz e fada madrinha, dando ao jovem acompanhante oportunidade de viagens por diferentes cidades europeias, estadias e refeições em lugares luxuosos, ao mesmo tempo observando para si mesma e muitas vezes de maneira crítica,, gestos e maneirismos que lhe desagradam. Ao mesmo tempo, sua exposição à penúria da vida do estudante, e aos métodos que ele usa para combater a falta de dinheiro, trazem para a narradora memórias de sua própria juventude. Mas não há afeto. É um estranho passeio sem emoção pela juventude da própria autora.
A conclusão sobre o comportamento da mulher nessa memória fica a cargo do leitor. Apesar de ser uma parte independente das outras obras de Annie Ernaux dessa volumosa autobiografia, acho um gesto de marketing fazer essa publicação em separado. Talvez traga o benefício de apresentar a autora a um publico maior, que não queira investir tempo na leitura. Mas suas outras obras, publicadas pela mesma editora podem muito bem preencher essas demandas, pois são livros de rápida leitura e poucas páginas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Mulher na Janela e peras sobre a mesa, 1996
Adilson Santos, (Brasil, 944)
óleo sobre tela, 70 X 51 cm

Cesta de Frutas, 2006
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925-2019)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Operários, 1933
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)
Óleo sobre tela, 150 x 205 cm
Acervo do Palácio do Governo do Estado de São Paulo
João Xavier de Matos
Pobre ou rico, vassalo ou soberano,
Iguais são todos, todos são parentes;
Todos nasceram ramos descendentes
Do trono antigo do primeiro humano.
Saiba, quem de seus títulos ufano
Toma por qualidade os acidentes,
Que duas gerações há só dif’rentes
Virtude e vício: tudo mais é engano.
Por mais que afete a vã genealogia
Introduzir nas veias a natureza
De melhor sangue, do que Adão teria:
Não fará desmentindo a natureza
Que seja sem virtude a fidalguia
Mais que um triste fantasma da grandeza.
(1789)
João Xavier de Matos (Portugal, c. 1730-1789)
Paisagem com Casario e Ponte em Minas Gerais, 1978
Inimá de Paula ( Brasil,1918-1999)
óleo sobre tela, 65 X 81 cm
Paisagem
Carlos Sorensen (Brasil,1928 – 2008)
óleo sobre tela, 52 x 82 cm
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Um dia ainda vou escrever sobre paisagens e as brasileiras em particular. Hoje temos dois pintores brasileiros expressionistas. Sou parcial a todo o expressionismo, desde Henri de Matisse até os que trabalham nos dias de hoje. Tenho que me policiar para não colocar sempre obras expressionistas no blog, porque esse não é o objetivo deste espaço.
Temos aqui duas obras com o mesmo assunto: vegetação densa, rio e casas. Pequenas cidades. Vilarejos. Ambas as telas trazem ao espectador variadas emoções. Apesar de quase caótica, a cena da tela de Inimá de Paula nos traz equilíbrio pelo uso abundante das tonalidades de azul e verde, cores calmas, ainda que intensas em seu volume. Enquanto a tela de Carlos Sörensen com grande variedade de cores explosivas, concentradas no leque dos tons avermelhados, encontra equilíbrio nas ‘quase monótonas’ horizontais. Vejam que elas também são linhas rebeldes que quase não querem ser horizontais. Mas, cortando a tela em fatias visuais elas baixam a excitação visual de todos os vermelhos, laranjas, lilás e demais cores que excitam o nosso olhar.
Temos grandes expressionistas no país. Vale a pena procurá-los.