O vendedor de cocadas, texto de Marques Rebelo

7 05 2013

artigos.imagens.A0110.I00173 O vendedor de cocada

Darcy Cruz (Brasil, 1931)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Ibac

9 de fevereiro [1941]

Cavalete ao ombro, grande baú pintado no cocuruto da cabeça pixaim, com uma folha de laranjeira contra os lábios, o doceiro emitia esperadíssimos sons anunciando-se à freguesia. Cocada brancas e pretas, quindins, bons-bocados, papos-de-anjo, pastéis de nata, bolinhos de cará, beijus, balas de ovo, de leite de coco, de guaco – ótimas para a tosse! Um universo de açúcar.

Era velho o preto, chamava mamãe de Iaiá, tinha sempre uma bala de quebra para Cristinha. Sua hora era pelo meio do dia, quando o sol ia a pino. Três vezes passava o padeiro empurrando a barulhenta carrocinha aprovisonadora. Deixava-se entregue à vigilância de um moleque e lá ia, peludo e bigodudo, de casa em casa, a cesta coberta com um pano braço que já fora saco de farinha. Pão francês, pão alemão, pão italiano (um pouco massudo), pão-de-provença, de milho, de forma, de ovo, pão trançado, pão-cacete e periquitos – a três por um tostão, obrigatórios nas merendas escolares – e roscas de barão, rosquinhas de manteiga, caramujos, tarecos, cavacos, joelhinhos, bolachas de água e sal. Tudo quente, cheiroso, estalando – a vida abundante, solícita, módica, vida provinciana para sempre extinta”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





Quadrinha para ser feliz

6 05 2013

porquinho ajuda, disney Um dos três porquinhos, ilustração Walt Disney.

Se desejas ser feliz,

seja qual for tua crença,

pratica o bem todo dia

sem esperar recompensa.

(Carlos Torres de Faria)





A lista de leitura recomendada para minha mãe

6 05 2013

O charme da juventude, c. 1935. papelão, pastel, 58 x47,  E. BobovnikofF (França, )

O charme da juventude, c. 1935

E. Bobovnikoff (França, 1898-1945)

pastel sobre papelão, 58 x 47 cm

Tive a felicidade de ser neta de um homem de visão, que exigiu que suas três filhas, nascidas no final da segunda década do século XX, fizessem curso superior.  Meu avô, um advogado nascido em Mato Grosso, mas formado no Rio de Janeiro, adotou a posição bastante liberal e visonária na época, não deixando que nenhuma de suas três filhas pensassem em casar antes do curso superior completo.  As meninas que tinham menos de 4 anos de diferença entre si, formaram-se todas em Letras. Duas em Neo-latinas, a outra em Anglo-germânicas, assim eram divididos os estudos em meados do século XX, quando se graduaram.  Formaram-se todas pelo Instituto Lafayette, aqui no Rio de Janeiro.

Esta semana, que não está sendo muito fácil para mim, emocionalmente, tenho passado em revista um saco plástico em que mamãe guardou isso ou aquilo. Papelada sem nenhum valor, exceto para ela: uma poesia de meu avô publicada; um jornalzinho de escola, onde meu pai, aos nove anos, publicou uma redação intitulada A Catástrofe, [ainda escrita com ph  — Catastrophe] quando frequentava o curso primário; três desenhos para tapeçarias que ela havia projetado — queria ter sido uma artista plástica, mas meu avô não recomendou.  Enfim, isso e aquilo, que se não fosse a filha a salvaguardar, já teria ido para o lixo há tempos, decisão que a maioria das famílias brasileiras já teria tomado.  Mas tenho um grande  amor ao papel, e passei em revista páginas e recortes de jornal.  Por mais que estas lembranças sejam boas, trazem sempre uma nostalgia enorme.  E tenho que dar umas pausas.  Minha  mãe morreu há cinco anos e ainda é difícil de vez em quando lidar com certas coisas…  Numa retomada, eis que me deparo com uma página de um caderno de notas de mamãe, com a lista de obras para leitura.  Uma lista de leitura!  Dos tempos de faculdade de mamãe! …  Presente do céu!  Vou deixar aqui seu registro, principalmente porque há uma curiosa nota ao final.  Minha mãe se formou em 1946. A todos que se interessam por história, por historiografia da educação aqui vai:

Lista de leitura, recomendada, pelo professor de literatuura geral e comparada Albert Guérard, da Universidade de Stanford.

Leitura dos livros mais decisivos no mundo.

1. a Bíblia

2. as obras de Rousseau

3. O Capital de Marx, com prefácio de Adam Smith

4. O Príncipe, de Machhiavelli

5. A Origem das Espécies, de Darwin

6. Novum organum, de Bacon

7. A República, e Diálogos, de Platão

8. Utopia, de Thomas More

9. Ensaios de Montaigne

10. Ensaio sobre o entendimento humano, Locke

11. Ideias sobre a História do Mundo de Hender com prefácio de Vico

12. The Principle of Population, Thomas Malthus

13. Lógica, de Hegel

14. Toda obra de Nietzsche

NOTA: Professor Guérard ainda em dúvida quanto a obra de Kant e de Freud.

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Notinha a lápis.  “Papai, nem todas essas obras estão em português.  Mas não faz mal“.

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O quanto minha mãe leu?  Não sei. O Príncipe, certamente. Platão também.  Os ensaios de Montaigne sei que leu, tenho suas notas a respeito.  Leu mais de uma vez. No original. É possível que tenha lido a obra de Rousseau, porque sempre leu muito em francês.  E depois de casar com um cientista, é provável que tenha pelo menos passado os olhos em Darwin e Malthus.  Achei muito interessante a dúvida do Professor de Stanford sobre as obras de Kant e de Freud.  Outros tempos, outras prioridades.





Procura-se um equilibrista, poesia de Roseana Murray

5 05 2013

JOSÉ ANTONIO DA SILVA (1909 - 1996)A malabarista, 1993,ost, 30 x 40

A malabarista, 1993

José Antônio da Silva ( Brasil, 1909-1996)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm

Procura-se um equilibrista

que saiba caminhar na linha

que divide a noite do dia

que saiba carregar nas mãos

um fino pote cheio de fantasia

que saiba escalar nuvens arredias

que saiba construir ilhas de poesia

na vida simples de todo o dia.

Em: Classificados Poéticos, Roseana Murray, Belo Horizonte, Migulim:1998 — 17ª edição.





Imagem de leitura — John Dawson Watson

4 05 2013

JOHN DAWSON WATSON (1832-1892), a jovem preceptora, 1885, aquarela e guach, 19 x 24 cm col part

Jovem preceptora, 1885

John Dawson Watson (Inglaterra, 1832-1892)

aquarela e guache, 19 x 14 cm

Coleção Particular

John Dawson Watson nasceu em 1832. Estudou na Manchester School of Design e na Royal Academy. Estabeleceu-se  em Londres em 1860, onde  trabalhou como ilustrador e aquarelista seguindo os passos de seu cunhado e de Myles Birket Foster, um amigo também artista. Contribuiu para revistas tais  como Good Words e London Society.  Foi também o ator de uma esplêndida edição de O Peregrino para o editor George Routledge em 1861 além de contribuir com desenhos e ilustrações para a antologia English Sacred Poetry em 1862. Em 1877, uma retrospectiva de sua obra foi organizada em Manchester. Viveu em Conway em North Wales, e lá morreu em 1892.





Preconceitos e a Wikipedia

3 05 2013

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A New York Review of Books de domingo passado trouxe um artigo de James Gleick  [Wikipedia’s Women Problem] sobre o sistemático desaparecimento dos nomes femininos das listas de escritores americanos, na Wikipedia.  Melhor explicando: alguém, ou mais de uma pessoa, estava editando a Wikipedia, retirando cuidadosamente  os nomes de mulheres das listas de escritores americanos em geral e passando esses mesmos nomes para uma lista específica de ‘Escritoras Americanas Mulheres’. Ou seja, as escritoras do sexo feminino não seriam encontradas na lista titulada ‘Escritores Americanos’, mas unicamente na lista ‘Escritoras Mulheres Americanas’, como se uma nota em separado, como se houvesse dois pesos e duas medidas.  Haveria então um “teto de vidro” ou uma separação de qualidade nas listas encontradas na Wikipedia? Aparentemente sim. Houve é claro uma grande reação a respeito do assunto.

Esse incidente traz ao debate  a questão se em algumas áreas ainda se faz necessária a separação das conquistas femininas daquelas feitas por homens. A discriminação contra o sexo feminino se fez por quase toda a história da humanidade. O estudo em separado das conquistas femininas foi essencial para descobrirmos valores esquecidos, para dar às mulheres exemplos dignos de serem seguidos, nas carreiras profissionais que escolhem.  A introdução da mulher educada no mercado de trabalho, característica do século XX, quando a mulher ganhou também o controle da natalidade, abriu uma enormidade de questões relacionadas à identidade e a auto-estima para mais da metade da população mundial.  Essas novas circunstâncias que trouxeram poder de controle para cada mulher sobre como gostaria de construir sua vida,  fizeram necessária uma total reconsideração da história e reavalições direcionadas exclusivamente às mulheres.

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Foi justamente por causa desses estudos femininos que pudemos descobrir pintoras como Artemisia Gentileschi e Lavínia Fontana; escritoras como Charlotte Perkins Gilman e  Kate Chopin [ é interessante lembrar que ainda no século XIX, mulheres de talento se sentiam na obrigação de se esconder sob cognomes masculinos para poderem ser publicadas, como aconteceu com George Sand ( Amandine Aurore Lucile Dupin) e George Elliot — (Mary Ann Evans)]. Por que seria importante descobrirmos esses valores?  Porque as novas gerações,  de mulheres, essas  que tomam conta de suas próprias vidas, como qualquer outro ser humano, precisam de exemplos em que se mirar, de sentir que fazem parte de um todo, de uma comunidade, de uma continuidade.  Deixar obscuro o passado de pessoas exatamente como elas seria roubá-las de um contexto histórico universal.

Mas recentemente, quando foi anunciada a lista dos livros finalistas para o prêmio Woman Prize for Fiction [ex-Orange Prize]  a restrição, a ênfase no gênero dos escritores concorrentes, me pareceu anacrônica.  Seria ainda necessária tal segmentação na literatura?  Parecia, na minha opinião, que já estávamos alguns passos além dessa questão.  Dei uma olhadela rápida nos premiados dos últimos 25 anos  do Man Booker Prize e encontrei 9 prêmios para escritoras, sendo que desde 2000 as mulheres ganharam  4 vezes (Hilary Mantel levando o prêmio duas vezes).  O resultado é  pobre.  Sim, ainda precisamos dar estímulo às mulheres.  Porque somos mais da metade da população mundial.  Se considerarmos todos os autores finalistas para o mesmo prêmio as estatísticas mudam. Um pouco.  As mulheres ainda não chegam a ser metade dos autores finalistas. A cada ano são seis autores finalistas. De 2000 para 2012 então tivemos 72 nomeações, das quais só 24 autoras diferentes sendo que quatro delas Hilary Mantel (2), Sarah Waters (3) Ali Smith (2) e Margaret Atwood (2) foram nomeadas mais de uma vez.  Mas estamos progredindo.

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É um erro comum vermos a Wikipedia como autoridade máxima do saber, atribuir a ela a mesma correção de dados que assumimos haver numa Enciclopédia Britânica ou num Larousse.  Não é.  É diferente.  É um conquista, sem dúvida.  Se eu não acreditasse nela, não seria uma contribuinte ocasional para o seu conteúdo.  Gosto de saber que ela democratiza o conhecimento, fato importante para países como o Brasil em que a educação formal é precária mesmo nos grandes centros urbanos.  Ela democratiza porque a educação, o conhecimento, é uma barreira à ascensão social. Mas aconselho a todos que a consultem de verificar por outros meios a veracidade dos fatos lá listados, pois há erros.  Não poucos.  Alguns significantes. E há também preconceitos.

Por exemplo, a Wikipedia em português com entradas no Brasil tem um viés de esquerda na escolha de verbetes comum nos meios universitários locais.  Basta, por exemplo, vermos o verbete sobre Fidel Castro onde apesar de uma substancial página com diversas informações, em nenhum local, em absolutamente nenhum parágrafo, descreve-se o sistema de governo implantado em Cuba e não se faz referência à falta de eleições no país.  E se clicamos no link Anticastrismo, vemos pérolas tais como “Segundo os anticastristas, Castro converteu Cuba numa ditadura, onde as liberdades fundamentais são negadas (inclusive o direito de associação e expressão).”  Yoani Sánchez, a blogueira que nos visitou recentemente, cubana, moradora da ilha, educada pelo regime Castrista teria grande dificuldade em reconciliar o verbete sobre Fidel Castro com o que sabe ser a realidade de seu país;  assim como a dúvida gerada na descrição do anticastrismo da falta de liberdade de expressão em Cuba, inferindo a existência de um preconceito, essa mesma blogueira teria dificuldade em aceitar tendo tido sua liberdade posta em risco, mais de uma vez, justamente por tentar exercer esse direito.

Assim, usar as informações da Wikipedia deve ser feito com cautela.  Como no resto do mundo digital, fica o aviso: todo cuidado é pouco. Examine, procure outras fontes.





Minuto de sabedoria — Jacques-Bénigne Bossuet

3 05 2013

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Sem título

Chad Weston Barksdale ( EUA, 1972)

“A felicidade humana é composta por tantas peças que algo está sempre em falta.”

ncd01384Jacques-Bénigne Bossuet (França, 1627-1704)





Quadrinha para o Dia das Mães

2 05 2013

mãe e filho, raffaela blanc

Ilustração Raffaela Blanc.

Mãe — não existe outro nome

mais doce, meigo e gentil;

no entanto, posso escrevê-lo

só com três letras e um til.

(Walter Nieble de Freitas)





Palavras para lembrar — Carlo Dossi

1 05 2013

Pierre Oyens

Beleza italiana vendo livro no ateliê, 1886

Pieter Oyens (Holanda, 1842-1894)

óleo sobre tela, 101 x 77 cm

“Nunca escrevo meu nome nos livros que compro até depois de lê-los, porque só então posso chamá-los de meus.

Carlo Dossi





O boi do Melchior, texto de Viriato Corrêa

1 05 2013

Zacharias Wagener

Cidade Maurícia em Pernambuco, c. 1640

Zacharias Wagener (Holanda, 1614-1668)

Aquarela sobre papel, fonte para a:

Prancha 107 do Thierbuch

Kupferstich-Kabinet  em Dresden

O boi do Melchior

O boi do Melchior Álvares foi, naqueles primeiros tempos do governo de Nassau, um dos  seres mais célebres de Pernambuco.

Talvez nunca tivesse havido no mundo um boi mais manso, mais dócil, mais vagabundo e mais garoto.

Por onde o dono andava, andava ele também. Se o Melchior entrava em uma casa, lá ficava o boi à porta, à espera, como um cachorrinho.

As crianças amavam-no, as moças davam-lhe guloseimas à janela. Um mimo! Se alguém lhe pronunciava o nome, lá ia o bicho muito contente a seguir quem lhe fazia agrados.

O boi do Melchior devia ter nascido boi por engano; havia na sua maneira de ser os traços característicos de um legítimo rafeiro.

E foi realmente um escândalo no Recife e na cidade de Maurícia quando a notícia rebentou. Anunciava-se que , na noite da inauguração da ponte que Nassau concluía, ligando Maurícia ao Recife, haveria um número do programa absolutamente sensacional – o boi do Melchior voaria das janelas de um sobrado para outro sobrado fronteiro.

Tereza Costa Rego, Boi voadorBoi voador, 1992

Tereza Costa Rêgo (Brasil, 1929)

acrílica sobre madeira, 440 x 160 cm

A gente de Pernambuco conhecia o bovino afamado como uma figura amável e boêmia. Mas todo mundo o tinha como boi; ninguém podia acreditar que, de uma hora para outra, tivesse ele adquirido virtudes de andar pelos ares como os pássaros. Seria algum milagre, algum truque ou logro?

O  príncipe Maurício de Nassau foi realmente o homem mais extraordinário que pisou no Brasil.

Com aquela imensa cultura que se pode dizer superior à época, aquela penetração de espírito que nenhum homem público teve ainda, com uma lucidez acima do tempo, o gosto pelas artes e por tudo o que era idéia avançada, nascera evidentemente para reformador de povos.

Ao chegar a Pernambuco para cuidar dos negócios da Companhia das Índias Ocidentais, ferviam os ódios dos brasileiros contra os holandeses. Os partidos traziam ainda as armas nas mãos.  Nassau teve a felicidade de compreender o momento. E compreendeu-o colocando os interesses populares acima dos interesses da empresa mercantil a que servia.

Em pouco tempo Pernambuco era seu até o fundo do coração.

Alma de artista, fibra de homem de estado, fidalgo até o âmago da alma, a sua ação em Pernambuco foi a mais generosa e rutilante.  A terra dos heróis do arraial de Bom Jesus deu a impressão de que a tocara a varinha de uma fada. Tudo se fazia como nas mágicas e nos contos azuis.

Era uma febre de crescer. Nos areais e nos pântanos da ilha de Antonio Vaz o bom gosto do príncipe erguera, como por encanto, a suntuosidade do palácio das Torres. Em pouco tempo, a ilhota até então imprestável, cresceu e brilhou como a mais linda cidade holandesa do Brasil.

Desde os tempos de Petrônio que sempre foi prova de inteligência dar festas ao povo. Nassau era homem de uma suprema agudeza de espírito.  O parque magnífico do palácio das Torres vivia aberto ao público em festas fulgurantes. Dentro daquele pomar cheiroso em que se erguiam mais de setecentos coqueiros, com um laranjal trescalante, romãzeiras e flores, aves vistosas, regatas e esguichos de água, o povo esquece de que estava sendo explorado por uma companhia mercantil, para lembrar-se apenas de que tinha a governá-lo a alma generosa de um grande artista.

andre-cunha-LENDA DO BOI VOADOR

Maurício de Nassau e a lenda do boi voador, s/d

André Cunha (Brasil, 1972)

Erguido o palácio das Torres, florescendo da noite para o dia a cidade de Maurícia, era necessário uma ponte que ligasse o Recife à nova cidade. O transporte por meio de canoas era um sinal de atraso.

A ponte é orçada em 240.000 florins. O engenheiro mete mãos à obra mas só três pilares consegue erguer. Antes de chegar ao maio do caminho desanima. Parece-lhe inexeqüível a ponte pela imensa largura do braço de mar que separa as duas cidades. Para Nassau não há impossíveis. A engenharia fizera-se justamente para vencer dificuldades. E, ele próprio toma conta dos trabalhos. Em dois meses a armadura da ponte estende-se e avança unindo a velha cidade à nova.

Pernambuco inteiro preparava-se para a grande festa da inauguração. O Brasil flamengo estava em paz. A habilidade do príncipe tinha feito o milagre de congraçar os dominados  e os dominadores. Os mais altos vultos da resistência pernambucana viviam já no Recife em contato e uma boa amizade com os membros do Conselho Administrativo. No palácio das Torres, Nassau recebia à sua mesa, os mais heróicos defensores do arraial de Bom Jesus. Já o bom bendizia a ocupação holandesa na figura fidalga e gentil do príncipe.

Nassau queria dar à festa um cunho de intensa popularidade. A sua maior preocupação em Pernambuco foi ser bem querido do povo.

Aquele anúncio de que o boi do Melchior iria voar era justamente para interessar o grande publico.

E interessou. O recife encheu-se da gente dos arredores e dos engenhos longínquos.

Seria possível um boi voar?! O boi do Melchior era um boi diferente dos outros bois e quem sabia lá se o demônio do bicho não tinha a habilidade das aves?

A festa da inauguração da ponte que ligava a cidade nova `velha tivera o brilho que sempre caracterizara as festas de Nassau.

Tanta gente passou de uma margem à outra que, só naquela tarde, a ponte rendeu 1.800 florins ao preço de dois soldos – ida e volta, por cabeça.

Bruno Matos, Boi voador, 2010, xilogravuraBoi voador, 2010

Bruno Matos (Brasil, contemporâneo)

Xilogravura, 15 x 20 cm

Bruno Matos

À beira da  praia ergueram-se palanques para as damas e gente grada; músicas tocavam em coretos; sob toldos multicores distribuíam-se refrescos e guloseimas. O Capiberibe fulgia, refletindo as luminárias.

O vôo do boi do Melchior era o último número do programa.

Às dez horas da noite sentia-se o rumor da ansiedade do povo.

— O boi, o boi!!

E o boi não aparecia.

Eram quase onze horas quando se ouviu na multidão um longo clamor.  Era o Melchior que aparecia seguindo o bovino manso.

A onda popular deslocou-se fervilhando.

O Melchior parou à porta de um sobrado. A multidão acompanhou-o. Era dali que o boi ia voar.

O povo acotovelava-se. O Melchior entrou. O animal, a um sinal do dono, entrou também. A porta fechou-se.

Lá em cima, na janela do sobrado o Melchior surgiu olhando para o alto, como que a sondar os ares em que o seu boi ia voar.

E sumiu-se.

Embaixo a multidão silenciosa esperava premida.

Passam-se muitos minutos. Nas varandas do sobrado não aparece mais ninguém.

O povo inquieta-se.

— O boi! o boi !!

O Melchior tornou a vir à janela, espalmando a mão direita para baixo. Que esperassem, era um instante!

Momentos depois o chavelhos de um boi surdiram na janela e depois do chavelhos o pescoço e depois do pescoço o resto.  Toda a gente reconheceu:… era o bovino do Melchior. E o diabo do bicho foi subindo, subindo e caminhando devagarinho no ar, como se tivesse voando na direção do sobrado fronteiro.

A multidão, de olhos erguidos, silenciara num estatelamento.

Mas de súbito, uma gargalhada estalou. Uma outra e outra, num segundo toda a rua e toda a gente era um gargalheiro desabalado.

Todos tinham compreendido o truque. O boi voador o do Melchior. Era um boi empalhado, admiravelmente feito, imitando na cor e no tamanho do boi garoto e boêmio. Voava, mas preso por arames invisíveis à noite.

E foi uma pândega. Não houve um desgosto naquela noite. Nassau teve o prazer de ter dado uma festa tão ao sabor do povo, o povo a alegria de a ter gozado, o Melchior a ventura de passar à história com o seu boi.

Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa,  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956