Ilustração Maurício de Sousa.
Peras, cálice, jarro e vaso de cerâmica, 1933
Oswaldo Teixeira (Brasil, 1904-1975)
óleo sobre tela, 40 x 53 cm
Capa da Revista Para Todos,26 de fevereiro de 1927
J. Carlos (Brasil, 1884-1950)
“Água não era só de chuva e de enchente. Mais abundante era a dos entrudos. Carnaval. Passavam uns escassos mascarados, dominós de voz fina, diabinhos com que o Benjamim Rezende se divertia arrancando o rabos, quebrando os chifres. O Paulo Figueiredo, encantando minha avó com seu Pierrot recamado de lantejoulas. Os primeiros lança-perfumes — Vlan e o Rodo. Mas o bom mesmo era o entrudo. Havia instrumentos aperfeiçoados para jogar água, como os relógios, assim chamados porque esses recipientes imitavam a forma de um relógio fechado, com dois tampo metálicos flexíveis que, quando apertados, deixavam air um delicado esguicho de água perfumada. Havia de todos os tamanhos, desde os pequeninos, que vinham no bolso, aos enormes, que ficavam no chão e eram acionados com o pé. Havia os revólveres — seringas que imitavam a forma da arma — cano metálico e o cabo de borracha que se apertava, apontando quem se queria molhar. Os limões de todos os tamanhos e de todas as cores que eram preparados com semanas de antecedência e em enorme quantidade. Continham água de cheiro, água pura, água colorida, mas os que caíam da sacada do Barão vinham cheios de água suja, de tinta, de mijo podre. Desciam ao mesmo tempo que as cusparadas das moças. Além dos relógios, dos revólveres, dos limões, eram mobilizadas todas as seringas de clister e improvisados seringões com gomos de bambu. Todos os pontos estratégicos da casa eram ocupados com jarras, baldes, latas e bacias para esperar os atacantes. Porque havia os assaltos de porta a porta. Éramos investidos pelos Pinto de Moura e depois do combate, já encharcados, confraternizávamos, para atacar a casa dos Gonçalves. Logo depois já era um grupo maior que avançava sobre as fortalezas fronteiras dos Couto e Silva e do tio Chiquinhorta, onde nos esperavam valorosamente o Antonico e o Mário Horta. Meu pai comandava a refrega protegido nas dobras de um vasto macfarlane, cujas asas davam-lhe gestos de pássaro gigante. Acabava tudo numa inundação de vinho-do-porto, para rebater e cortar o frio. À noite meu Pai penava com asma…”
Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 261-62.
Êta mulher jogo duro!
Por mais que eu implore e tente,
não me garante o futuro…
Só quer saber de … presente!
(João Costa)
Kay Crain (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 30 x 23 cm
Vasily Kandinsky (Rússia/França, 1866-1944)
óleo sobre tela, 95 x 138 cm
Museu do Estado Russo, São Petersburgo
Quem gosta de Kandinsky — um dos pais da pintura abstrata — ou quem não gosta de suas telas. Quem é indiferente ou quem nunca ouviu falar desse pintor. Ninguém deve perder a oportunidade de visitar a exposição Kandinsky: tudo começa num ponto, que abriu esta semana no CCBB [Centro Cultural do Banco do Brasil] do Rio de Janeiro. A exposição que veio de Brasília, sai do Rio de Janeiro no final de março, em direção a Belo Horizonte, para depois ir para São Paulo.
Dizer que essa exposição é extraordinária não é um exagero. Se você tem interesse em saber mais sobre a arte moderna, sobre a evolução das correntes da arte moderna dê a si mesmo um presente: reserve de duas a três horas de um dia, e siga esta exposição de início ao fim. Vá com sapatos confortáveis. Traga um xale ou um casaco leve. Por contraste com a temperatura ambiente no Rio de Janeiro pode-se sentir frio no museu. Não reclame da temperatura baixa, ela preserva as telas para futuras gerações. Em nome de seus descendentes, proteja-se do frio e se delicie com uma aula minuciosa, interessante, compreensiva, cobrindo muitos aspectos das raízes do trabalho de Kandinsky e com isso das raízes da arte moderna do século XX.
Não perca! Uma das mais importantes exposições que eu já vi não só no Rio de Janeiro, mas em outros lugares do mundo. São obras de Kandinsky e muitos de seus compatriotas que não estão facilmente acessíveis nem mesmo nos museus na Europa ocidental. Há muitas de artistas de grande calibre cujo trabalho nos é menos familiar. A maioria delas veio da Rússia e outras de coleções europeias. Obras que jamais foram vistas nas Américas. Há filmes, slides e interatividade. Há também a imersão na obra, uma exposição em 3D. Visite esta parte por ultimo — na Rotunda — para melhor apreciar a obra. Mas há sobretudo nessa exposição um contexto para a obra do pintor que pode ser digerido em diversos níveis. É um privilégio ter a oportunidade de visitar essa exposição.
O Carnaval está chegando e com ele muitos dias de férias. Esqueça por um momento a folia e encha os olhos e preencha as lacunas da sua educação artística com essa exposição.
O CCBB está de parabéns. Na minha opinião esta exposição supera a de M. C. Escher que também foi de primeira categoria.
Kandinsky: Tudo Começa Num Ponto
Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro – Rua Primeiro de Março, 66, Centro – Rio de Janeiro/ RJ
(21) 3808.2100
De 28 de janeiro a 30 de março 2015
ENTRADA FRANCA
Como bem lembrou um de nossos leitores: O CCBB do Rio de Janeiro fecha às terças-feiras!
Emeric Essex Vidal (Inglaterra, 1791-1861)
aquarela sobre papel, 17 x 25 cm
Museu Imperial de Petrópolis