Ashley lendo, 2008
Milé Murtanovski (Canadá, 1971)
aquarela sobre papel, 56 x 76 cm
“Livrarias e papelarias deveriam estar juntas, pois qual é a graça de ler sem o sonho de escrever?”
Contardo Calligaris
Ashley lendo, 2008
Milé Murtanovski (Canadá, 1971)
aquarela sobre papel, 56 x 76 cm
Contardo Calligaris
Um filósofo de peso
é desta sentença o autor:
o beijo é fósforo aceso
na palha seca do amor.
(Bastos Tigre, 1882-1957)
Processo da cor, 2022
Roberto D’Albuquerque (Brasil, 1990)
óleo sobre tela, 30 x 20 cm
Natureza morta, 2007
Luís Cláudio Morgilli (Brasil, 1955)
óleo sobre papel, 18 x 29 cm
Moça lendo
Hirezaki Eiho (Japão,1881-1968)
Monzaemon Chikamatsu (1653-1724)
Na rotunda
Francine van Hove (França, 1942)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
XXVII
Tite de Lemos
Nem tomes por virtude o que é defeito,
floreios de poetas amestrados,
nem tenhas por humano o que é perfeito,
coisa de heróis e deuses aplicados.
Deve ser que não levo muito jeito
ou quando pense certo faça errado
e ande torto julgando andar direito,
sujeito cego atrás do objeto amado.
Persigo a brevidade de um instante
que toda eternidade contivesse:
nisso me acho e nisso estou perdido
com desvelo tão quieto e tão constante
que vivê-lo, mais nada, me envaidece
e até nem cuido ser correspondido.
Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63
Paisagem de Ouro Branco, MG
Oldack de Freitas, (Brasil – Segunda metade do Século XX)
óleo sobre tela, 45 X 60 cm
Dia de leitura, 2008
Linda Apple (EUA, 1946)
óleo sobre tela, 15 x 15 cm
“É por isso que os livros não vão desaparecer. É impossível. É o único momento em que entramos verdadeiramente na mente de um estranho, e fazendo isso encontramos o que há de comum na nossa humanidade. Então, o livro não pertence só ao escritor, pertence ao leitor também, e juntos fazemos o que ele é.”
Paul Auster
Tradução livre: Ladyce West
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Penelope escrevendo para Ulisses, c. 1500
Página com iluminura da obra de Ovídio: Heroides versão em francês
Biblioteca Nacional da França
No livro O leitor comum de Virgínia Woolf, no primeiro ensaio, Os Pastons e Chaucer, somos apresentados a um detalhado e simpático retrato de uma senhora: Margaret Paston(c. 1420-1484). Virginia Woolf traz aos nossos olhos, a personalidade que detectou através das cartas para membros da família Primeiro me lembrei do marcante diário e memórias, The memoirs of Glückel of Hameln, (1646- 1724) [não encontrei em português] que, começado em 1690, foram escritas trezentos anos depois das cartas de Margaret Paston. Surpreende o quão pouco mudou naqueles séculos todos o papel da mulher, suas preocupações em manter a família e os bens da família protegidos. Esse era de fato um dos papeis da mulher, esposa de comerciante ou da pequena nobreza ou dos senhores de terras.
Apesar de leitora assídua sobre idade média, sempre me assombro com o que aprendo sobre a vida dessas mulheres no passado. Letradas, se comunicavam com membros da família regularmente, por cartas, nos dando assim uma maneira de imaginarmos suas vidas com maior precisão. Mas mais delicioso ainda é ver como Virgínia Woolf constrói um retrato tridimensional dessa mulher que conheceu só através de suas cartas. Para escritores de ficção não só a descrição de Margaret Paston assim como a do Castelo Caistor em Norfolk. Além, é claro, de nos ensinar como observar a obra de Chaucer. Aqui fica um pedacinho do ensaio de Woolf, para servir de acepipe literário.
“As longuíssimas cartas que escreveu tão laboriosamente, com sua letra clara e apertada, para o marido, que estava (como sempre) ausente, não mencionavam a si mesma. Os carneiros tinham destruído o feno. Os homens de Heyden e Tuddenham estavam ausente. Um dique se rompera e um boi foi roubado. Precisavam com urgência de melaço, e ela necessitava muito de tecidos para um vestido.
Mas a Sra. Paston jamais falava de si mesma.
Portanto os pequenos Pastons viam a mãe redigir ou ditar cartas longuíssimas, uma página após a outra, uma hora após a outra; porém interromper um pai ou mãe que escreve tão laboriosamente sobre questões de tamanha importância devia ser um pecado. A tagarelice dos filhos, a sabedoria do quarto de dormir das crianças, ou do seu quarto de estudos não tinham lugar naquelas comunicações elaboradas. Em sua maioria, suas cartas são as cartas de um meirinho honesto para seu chefe, explicando , pedindo conselhos, dando notícias, fazendo relatos. Houvera roubos e carnificina; dificuldades em conseguir o pagamento dos aluguéis; Richard Calle mal conseguira amealhar um dinheiro de nada; e, entre uma coisa e outra, Margaret não tivera tempo de realizar, como deveria, o inventário dos bens que seu marido solicitara. . A velha Agnes, inspecionando à distância um tanto duramente, os afazeres do filho, deve muito bem tê-lo aconselhado a planejar esse inventário, para que tenhais menos o que fazer no mundo,; vosso pai já disse: Onde há poucos afazeres, há muito descanso. O mundo não passa de uma estrada, cheia de infortúnio; e, ao partirmos dela, nada levaremos conosco a não ser nossas boas ações e malfeitos.“
Essa passagem ressalta mais uma vez, como a concepção generalizada de que as mulheres na idade média não tinham responsabilidades é errônea. Eram elas as responsáveis pela manutenção, pela adição e preservação dos bens familiares, pelo bem-estar dos filhos e do todos aqueles que se encontravam sob sua guarda, nas terras, nas mansões, nos castelos.
Citação: O leitor comum, Virgínia Woolf, tradução de Marcelo Pen e Ana Carolina Mesquita, Tordesilhas: 2023, p. 34-35
Nota: Cartas de Paston [The Paston Letters] é um do maiores arquivos de correspondência na Inglaterra do século XV. Volume composto de correspondência particular, (por volta de mil cartas) e documentos tais como petições, contratos de aluguel, testamentos, que cobrem três gerações sobre a vida pessoa de uma família na época. Na Biblioteca Britânica em Londres.
Casario
Yolanda Mohaly (Romênia-Brasil, 1909-1978)
óleo sobre tela, 46 x 61 cm
Casario
Rodolfo Weigl (Brasil, 1907-1987)
óleo sobre tela, 33 x 41cm
Paisagem com casario
Inos Corradin (Itália-Brasil, 1929)
óleo sobre tela, 60 x 50 cm