“O monóculo do marquês de Forestelle era minúsculo, não tinha aro e, obrigando a uma crispação incessante e dolorosa o olho onde se incrustava como uma cartilagem supérflua cuja presença é inexplicável e a matéria rara, dava ao rosto do marquês uma delicadeza melancólica e fazia com que as mulheres o julgassem capaz de grandes penas de amor. Mas o do sr. de Saint-Candé, cercado de um gigantesco anel, como Saturno, era o centro de gravidade de um rosto que se ordenava a todo instante em relação a ele, cujo nariz fremente e rubro e o lábio carnudo e sarcástico procuravam, com os seus trejeitos, pôr-se à altura dos mutáveis reflexos de espírito com que fulgurava o disco de vidro, e era preferido aos mais belos olhares do mundo por mulheres esnobes e depravadas, a quem fazia sonhar com encantos artificiais e refinadas volúpias; enquanto, atrás do seu monóculo, o sr. de Palancy que, com a sua grossa cabeça de carpa, de olhos redondos, se deslocava lentamente no meio da festa, descerrando de instante a instante as mandíbulas como para procurar orientação, tinha o ar de apenas transportar consigo um fragmento acidental, e talvez puramente simbólico, do vidro do seu aquário, parte destinada a figurar o todo, que lembrou a Swann, grande admirador dos Vícios e das Virtudes de Giotto em Pádua, aquele Injusto ao lado do qual um ramo folhudo evoca as florestas onde se oculta o seu covil.
Em: No caminho de Swann, volume I da obra Em busca do tempo perdido, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana.
Retrato de John Harrison. conhecido por seu trabalho em cronômetros.
“Quando um homem se senta ao lado de uma mulher bonita por uma hora parece que passou um minuto. Mas se ele se sentar em cima de um fogão quente por um minuto parece que passou mais de uma hora. Isso é relatividade”
Há uns cinco anos, mais ou menos, fui convidada a participar de um grupo de leituras em conjunto. Eu nunca havia feito isso e curiosa, disse sim. Foi ótimo. O grupo, dirigido pela artista plástica, pianista e psicóloga Rose Nobre é composto de 6 a 8 pessoas. O número depende do livro escolhido. E todas as terças-feiras, à noite, nos encontramos para ler pela internet. Cada qual lê um pedaço em voz alta, mais ou menos por uma hora ou por um capítulo ou ainda, parando quando é possível fazer uma pausa.
O grupo já se encontrava antes da minha chegada. Comecei a jornada na parte final de O caminho do artista, Julia Cameron. Passamos para dois livros de Yuval Noah Harari, fomos aprender um tantinho de física com Marcelo Gleiser, passamos para história do Brasil com Jorge Caldeira, e voltamos à física, semana passada com o livro de Carlo Rovelli, A ordem do tempo.
Todos esses livros foram impressionantes no que entregaram, desde incentivo a criatividade, como expansão do conhecimento científico. As profissões representadas nesses oito leitores pertencem às artes ou psicologia, história e há também uma médica no grupo. Aos poucos vamos nos conhecendo. Cada qual contribui com seus dois centavos de conhecimento, nos minutos finais, em que conversamos sobre o que lemos. Não dura mais que hora e quinze. Bem investido esse tempo. Cobrimos obras que seriam difíceis de ler sós. Se você não pode estar lá nas terças-feiras, seu trabalho é ler até onde chegamos e se juntar aos leitores na próxima terça-feira.
Este não é um convite para participar. Não tenho autoridade para isso. Mas recomendo o formato. Se você tem amigos que gostariam de ler algo fora do que é familiar, essa é ótima maneira de se atualizar. Hoje em dia, por causa dessas leituras, vou com gosto para os documentários por exemplo, de física quântica no YouTube. Boa maneira de fazer uma atualização no conhecimento.