Retrato de Eugene Chen, 1940
Georgette Chen (China, 1906 – 1993)
óleo sobre tela, 92 x 91 cm
Museu de Arte de Singapura
Retrato de Eugene Chen, 1940
Georgette Chen (China, 1906 – 1993)
óleo sobre tela, 92 x 91 cm
Museu de Arte de Singapura
Plantando uma árvore
Sir George Clausen, R.A., R.S.W. (GB, 1852-1944)
óleo sobre tela, 35 x 29 cm
“Há duas espécies de terra… Uma tem água embaixo, faz-se um buraco e aflora. É terra fácil.
A outra depende do céu. tem só aquela fonte. É magra, ladra, capaz de roubar água ao vento e à noite, e assim que consegue um pouco gasta-a logo toda em cores retidas no miolo das pedras e põe força de açúcares nos frutos e atira perfume de descarada. É terra de céu seco, prefiro-a.”
Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Barlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 35.
Vaso de flores do campo sobre a mesa, 2011
Mauro Bandeira de Mello ( Brasil, 1960)
técnica mista: óleo e acrílica sobre tela, 60 x 60 cm

Retrato de uma mulher
Boris Grigoriev (Rússia, 1886-1939)
óleo sobre tela
Pão de Açúcar visto de Santa Teresa, 1948
A. Durrogue (? -?)
óleo sobre madeira, 24 x 34 cm
Ivanhoé
Camille Engel (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
“O Prêmio Nobel a Kazuo Ishiguro destaca não apenas um romancista notável, cheio de recursos e muito lúcido, mas também uma consciência que está o tempo todo nos avisando, através da forma literária, de que há algo de muito perigoso se movimentando debaixo dos nossos olhos. Uma excelente escolha, que dá um pouco de fôlego em um tempo que parece sufocado por conservadorismos tacanhos e violentos. Ishiguro é o contrário disso: ele é excelente.”
Em: “Um pouco de fôlego num momento conservador“, Ricardo Lísias, O Globo, Segundo Caderno, página 2; 6 de outubro de 2017.
São Francisco, c. 1958
Alfredo Volpi (Itália/Brasil, 1896-1988)
têmpera sobre tela, 108 x 72 cm
Paisagem do cerrado e Cuiabá
Benedito Nunes (Brasil, 1956)
óleo sobre tela
Anel da Suméria em cloisonné*, c. 3.000 a. E. C.
Possivelmente um anel de casamento
Iraque
Louvre, Paris
*Cloisonné é uma técnica muito antiga de decoração de metais. Ela é usada até hoje. Nos séculos mais recentes faz uso de esmalte porcelanado. Nos séculos mais antigos fazia-se com inserção de pedras preciosas, vidro e outros materiais.
As virgens sábias, 1965
Paul Delvaux (Bélgica, 1897-1994)
óleo sobre tela, 280 x 180 cm
Tenho uma longa história com O conto da aia. Lá no final da década de 1980, quando ainda morava fora do Brasil, comprei esse livro em inglês. Tentei lê-lo uma vez e não consegui levar a leitura avante. Mudei-me para o Brasil em 2002 e o livro veio comigo, junto a toda a biblioteca da casa, somos dois dedicados às humanidades, coisa que colabora imensamente para acumulação de livros. Aqui tentei ler de novo, porque tinha amigos que insistiam que eu o fizesse. Duas tentativas. E não consegui levar a leitura adiante. Sete anos depois, saí de um apartamento grande para um menor e sacrifiquei parte dos livros. Lá foi ele, sem culpa. Eventualmente achei um exemplar, no sebo, em português e tentei de novo. Nada. Doei-o para o camelô de livros usados do meu bairro (moro próximo à PUC, aqui os camelôs vendem livros). Passaram-se os anos e meu grupo de leitura decide que este seria o livro na berlinda em outubro de 2017, já que há uma série na televisão baseada em seu enredo. Comprei em inglês no Kindle para que eu e meu marido pudéssemos ler e para que não ocupasse mais lugar nenhum na minha moradia. Finalmente, sob coerção, fui do início ao fim. E para a discussão de grupo, peguei emprestado um exemplar em português e passei horas tentando achar as frases que mais me impressionaram para podermos todos achar no texto durante a discussão. Resultado: li. Achei que é um livro importante de ler. Acredito que toda mulher deva lê-lo. Vou recomendar às minhas sobrinhas que o façam. Mas confesso não tive prazer nenhum em degustá-lo. Margaret Atwood que me perdoe.
Ainda estou sob o impacto da leitura. E muito próxima do texto para realmente poder analisá-lo. É a obra mais misoginista que encontrei até hoje. É de arrepiar uma leitora. Mas talvez as citações possam falar por si mesmas. Um livro como esse já foi chamado de ficção científica. Hoje é mais comum falarmos de ficção distópica. Ou seja, ficção cuja trama, situada em um futuro não muito longínquo, mostra uma realidade repleta de privações, com futuro desesperador e opressivo. Trata-se da história da República de Gilead dominada por uma seita religiosa radical. Nessa sociedade mulheres têm duas únicas funções: procriar e ser de uso para homens. As mulheres também não aprendem a ler. Na verdade o conhecimento é privilégio de poucos: “Não existem mais revistas, não existem mais filmes …” [34]. As que não conseguem engravidar são consideradas dissidentes e levadas à morte. A orelha do livro registra que essa é a realidade no século XXI. Essa visão sombria, com conotações apocalípticas é sufocante e permeia toda a obra, transformando-a numa gigantesca aventura asfixiante. Barbaridades diversas são cometidas através do tempo. Já na primeira página a autora estabelece sutilmente o clima de ansiedade: “Lembro-me daquele anseio, por alguma coisa que estava sempre a ponto de acontecer e que nunca era a mesma…” [11].

Há horas em que esse mundo parece particularmente medieval, talvez pela crudeza dos eventos, talvez pelas limitações impostas aos habitantes de Gilead. Essa referência à Idade Média também é sugerida por Margaret Atwood nas entrelinhas. Nesta sociedade das massas comandadas como robôs há poucafé ou expectativa de uma vida melhor. As pessoas não têm a sensação de poder: “Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.” [73] Nesta imagem, há, por exemplo, uma direta referência às ilustrações de manuscritos medievais, onde nas margens encontramos desenhos engraçados, animais diversos, pessoas nas tarefas mundanas, frades e cavaleiros enroscados em videiras floridas. Nas margens tudo era válido. Há muito simbolismo na narrativa algo que também remete aos textos medievais herméticos. Além disso, os nomes de mulheres Offred, Offglen, [Of Fred; Of Glen] são semelhantes a denominações medievais em que o “dono” daquela pessoa é mencionado no nome de batismo, fato até hoje reminiscente em nomes nórdicos e russos: Adamson, Stephenson [filho de Adam, filho de Stephen] ou Kimmeldottir [filha de Kimmel] por exemplo. Mais uma maneira sutil de acabar com a individualidade feminina.
A tensão emocional aparece quando há lembranças da vida anterior, e sonhos de como poderia ser diferente. Se todos estivessem robotizados, nada aconteceria. Mas é agonizante para o leitor, se colocar, como se coloca nessa narrativa em primeira pessoa, no lugar de quem tem flashes de memória de um mundo mais digno. “Eu gostaria que esta história fosse diferente. Gostaria que fosse mais civilizada. Gostaria que me mostrasse sob uma luz melhor, se não mais feliz, pelo menos mais ativa, menos hesitante, menos distraída por trivialidades. Gostaria que tivesse mais forma.Gostaria que fosse sobre o amor, ou sobre súbitas tomadas de consciência importantes para a vida da gente, ou mesmo sobre pores-do-sol, passarinhos, temporais e neve.” [317] Que tristeza! Que agonia!
Margaret Atwood
O conto da aia é uma história de terror, muito pior do que qualquer livro de Stephen King. Muito mais misterioso e estranho do que os contos de Edgar Allan Poe. Há uma parte de mim que acredita que só uma mulher poderia ter escrito esse mundo aterrorizante da política de reprodução. É um livro cruel. O desespero dessas mulheres que procuram entender o mundo em que vivem é grande: “Inalo o cheiro do sabão, o cheiro desinfetante, e fico parada no banheiro branco, ouvindo os sons distantes de água correndo, de descargas de vasos sanitários sendo puxadas. De uma maneira estranha sinto-me confortada, em casa. Há algo tranquilizador com relação a vasos sanitários. Pelo menos as funções corporais permanecem democráticas. Todo mundo caga,…” [301]
Se gostei da leitura? Não. Ela escreve bem? Sim, muito bem. É um livro que deve ser lido? Sim. Você o recomendaria? Para todas as mulheres.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.