Parque Barigui, Curitiba, 1981
Celso Coppio (Brasil,1952)
óleo sobre eucatex, 40 x 50cm
Paula Brito
Amo-te… e de te amar não me arrependo,
Bem que seja este amor, amor perdido!
Oh! se nunca te houve conhecido,
No fogo, em que ardo, não vivera ardendo!
Vejo o que fazes, e estou nisso vendo
Rasgos de amor de um coração ferido!
Também amei, também tenho sofrido,
Amo também, também estou sofrendo!…
Não me queixo de ti, não, certamente;
O teu futuro, por teu mal, te obriga
Ao penoso martírio do presente!
Aqui tens a razão que a ti me liga:
“Se te sigo, me pedes que me ausente;
Se me ausento, me pedes que te siga!…”
Em: Poesias, Francisco de Paula Brito, Rio de Janeiro, 1863, edição digitalizada, Biblioteca Nacional.
PS: atualizei ao máximo a ortografia que já mudou muito nestes últimos 150 anos.
“No ônibus, Satoshi tentava esvaziar a mente para buscar o sono. Quando percebeu que não conseguiria dormir, retornou a poltrona para uma posição com menor inclinação, abriu uma fresta da cortina e passou quase todo o trajeto , de pouco mais de nove horas, observando o que era possível na madrugada de quase lua cheia. Com a cabeça reclinada no encosto da poltrona, via a paisagem noturna obliquamente. Os morros distantes eram manchas escuras, e deles se viam apenas os contornos delineados em função do firmamento clareado pela lua. As árvores mais próximas surgiam e desapareciam na velocidade controlada pelo pé do motorista. As imagens imediatas eram mais visíveis, mas a cada instante eram consumidas pelo movimento do ônibus e do tempo, enquanto a paisagem distante, teimava em suas retinas insistindo em ficar.” […]
Em: Ojiichan, Oscar Nakasato, São Paulo: Fósforo, 2024.
Flores, 2022
João Bernardi (Brasil, 1953)
aquarela sobre papel
Vaso com flores, 1990
Milan Horvat (Sérbia-Brasil, 1946)
óleo sobre tela, 73 x 50 cm
Guilherme de Almeida
Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.
Amei-te… E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada…
E és o primeiro sonho que sonhei.
Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!
Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação…
Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.
E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.
E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.
Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.
É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr…
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.
Em: Encantamento, Guilherme de Almeida, São Paulo, Editora Nacional:1952
Paisagem de Marechal Hermes,1999
Carlos Haraldo Sörensen (Brasil,1928 – 2008)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
Esse filme cujo cartaz coloquei acima, conhecido no Brasil como Um estranho casal, e os programas de televisão por ele gerados, com os personagens, Felix Unger e Oscar Madison [Tony Randall e Jack Klugman] e mais tarde na variante da série Frasier, estrelada por Kelsey Grammer (Dr. Frasier Crane. e seu irmão David Hyde Pierce, como Dr. Niles Frasier) foram as primeiras imagens que chegaram à minha mente quando soube que em 1946 os escritores e cronistas brasileiros, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos dividiram um apartamento à Rua Júlio de Castilhos, Posto 6, em Copacabana.
Reza a lenda que nos dias da semana os dois escritores e cronistas iam à cidade juntos. Será? Lá, se dedicavam à escrita, onde davam expediente na redação dos jornais para onde escreviam.