“Voa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro… Vontade… para que esse pudor de certas palavras?… vontade de amar, simplesmente.”
Em: Canções seguido de Sapato florido e A rua dos cataventos. Mário Quintana, Alfaguara:n 2012
Fazer resenha de alguns parágrafos sobre o livro O jovemde Annie Ernaux, com tradução de Marília Garcia [Fósforo: 2022] é mostrar que apesar de poucas páginas — um conto? — há pelo menos algo de mais sólido a ser observado sobre essa leitura. Estou aos poucos cobrindo a obra de Annie Ernaux, volume por volume. Não porque ela tenha sido recipiente do Nobel de Literatura 2022. Não tenho o hábito de ler toda a obra de quem ganha o Nobel. Mas sua prosa é de grande sensibilidade e a forma de autobiografia ficcionalizada,– sempre considero que qualquer biografia é ficção –, tem me atraído nos últimos tempos, também pela interação de história com memória.
A linha narrativa deste minúsculo volume é simples: uma mulher de uma certa idade, tem um parceiro amoroso muito mais jovem do que ela. O rapaz tem idade para ser seu filho. Nas últimas décadas esse parece ser um acontecimento mais comum, menos escondido. Vemos na mídia, com alguma frequência, senhoras envolvidas amorosamente com rapazes jovens. Tinha impressão de que essa desigualdade de idades, com o perfil desse casal, fosse corriqueiro na França, mas, pelo visto, na época de Annie Ernaux, esse não era o caso.
O que me surpreendeu nessa história foi perceber que a mulher, pelo menos nesse caso, acaba com atitudes e posicionamentos que vemos na descrição de homens mais velhos que mantêm relacionamentos com mulheres que, pela idade, poderiam ser suas filhas. Não sei porque, eu achava que seria diferente: estava errada. Nesse conto, a mulher (Annie) se sente superior ao rapaz e fada madrinha, dando ao jovem acompanhante oportunidade de viagens por diferentes cidades europeias, estadias e refeições em lugares luxuosos, ao mesmo tempo observando para si mesma e muitas vezes de maneira crítica,, gestos e maneirismos que lhe desagradam. Ao mesmo tempo, sua exposição à penúria da vida do estudante, e aos métodos que ele usa para combater a falta de dinheiro, trazem para a narradora memórias de sua própria juventude. Mas não há afeto. É um estranho passeio sem emoção pela juventude da própria autora.
Annie Ernaux
A conclusão sobre o comportamento da mulher nessa memória fica a cargo do leitor. Apesar de ser uma parte independente das outras obras de Annie Ernaux dessa volumosa autobiografia, acho um gesto de marketing fazer essa publicação em separado. Talvez traga o benefício de apresentar a autora a um publico maior, que não queira investir tempo na leitura. Mas suas outras obras, publicadas pela mesma editora podem muito bem preencher essas demandas, pois são livros de rápida leitura e poucas páginas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Sou neta, por lado de pai, de joalheiro. Meu avô, que não cheguei a conhecer, tinha uma joalheria na rua dos Ourives, centro do Rio de Janeiro. A joalheria fechou; foi desapropriada para a abertura da Avenida Presidente Vargas. Pouco tempo depois meu avô morreu. Papai dizia que foi por desgosto. Ele perdera a razão de ser. Havia comprado a ourivesaria em 1910, ano em que se casou. Por algum tempo, depois que faleceu, não sei quanto tempo, meu pai e seu irmão (únicos filhos do casal) administraram o estoque da joalheria, que eles chamavam de loja. Era uma joalheria à moda antiga, onde se comprava também esculturas de bronze e marfim, grandes espelhos franceses bisotados, relógios de bronze, muitos itens Art Nouveau, alguns Art Déco, ou de períodos anteriores, objetos decorativos de luxo.
Algumas dessas peças vieram parar nas nossas casas. Cresci com elas, aqui e ali, decorando um canto da sala. em cima de um aparador: uma ou outra escultura em bronze, um ou outro relógio fora do comum; lembro-me de um relógio de bolso para cegos, por exemplo. Papai, o eterno professor, sempre nos ensinava: a diferença entre bronze e petit-bronze, os nomes das pedras semi preciosas e suas colorações, as marcas na prata, o que é banho de prata; o que era cristal da Boêmia, e assim por diante. A gente ouvia com meia atenção como qualquer criança ou adolescente, mas alguma coisa sempre fica. Acredito que esta foi uma bela semente para minha preferência por obras de arte, por perceber, nos dias de hoje, instintivamente objetos de qualidade. E há, também, a influência de minha mãe que, apesar de professora de línguas neo latinas, se dedicava à pintura. Seu sonho tinha sido ser pintora, mas o pai não achou boa ideia. Mais tarde, chegou a fazer curso de Belas Artes no Parque Lage na década de 1970. Eu, no entanto, sou uma negação para pintura ou desenho.
Na Universidade de Maryland, para me formar em história da arte, fui obrigada a fazer dois anos de desenho e pintura, o objetivo era sabermos o processo das diversas facetas da arte. No último semestre, o projeto na cadeira de desenho foi: 12 ilustrações de um livro de nossa escolha. Escolhi Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marques que, àquela altura, eu já lera três vezes: em português (aqui no Brasil), espanhol e inglês nos EUA. Quando recebi a nota final do curso, meu professor de desenho, chamou-me de lado e disse: Ladyce, você está se formando em História da Arte, não é mesmo?, concordei; ele, então, continuou: ótimo, você ganha, então, a nota máxima, pelo esforço. Mas nunca espere ganhar a vida como artista plástica. Prometi a ele não entrar naquele engodo e ficamos os dois satisfeitos. Mas essa inabilidade nunca me impediu de apreciar e me tornar conhecedora da arte. O interesse por objetos belos, por qualidade, não esmoreceu e eventualmente abri minha própria galeria-antiquário, enquanto morava nos EUA, especializado em mobiliário de fazenda, americano, do século XVIII e XIX e arte contemporânea, uma combinação esdrúxula que teve sucesso.
Presidente Donald Trump e sua esposa Melania no baile inaugural de seu segundo termo na presidência dos EUA, e joia de Paloma Picasso, à venda em leilão, na Casa de leilões Bonhams, em 2008.
Boa memória visual é um dos requisitos para o historiador da arte. É uma habilidade desenvolvida. Não precisa ser nata, como bem demonstra Malcolm Gladwell no livro Blink: depois de exposto a dez mil horas a um assunto, você sabe instintivamente, da qualidade daquilo que analisa, sem imediatamente saber a razão. Sobre objetos de arte, quer queira ou não, você desenvolve maneiras de reconhecer qualidade, temas ou a mão de um artista. Tudo vai depender dos seus interesses e dedicação.
Levei dois dias para achar, na internet, a joia feita por Paloma Picasso que se assemelha ao desenho da fita preta no vestido da atual primeira dama dos Estados Unidos. Não sou especialista em moda. Mas achei o vestido belíssimo. Ainda que algo na memória me dissesse, já vi esse design em algo de moda. Paulatinamente fui aprimorando a memória e finalmente cheguei à joia de Paloma Picasso.
Um dos primeiros cursos particulares que dei, aqui no Rio de Janeiro, depois de voltar dos EUA, quando meu marido se aposentou, foi para dois casais brasileiros, que iam à Nova York, pela segunda vez e queriam se certificar do que era imprescindível ver naquela cidade: que museus visitar, que obras arquitetônicas não deixar de ver. Lá pelas tantas, as duas senhoras do grupo me perguntaram sobre a joalheria Tiffany & Co. Tinham memórias românticas do encantador filme com Audrey Hepburn, Breafast at Tiffany´s de 1961, baseado na novela de mesmo nome, publicada em 1958 de Truman Capote. No Brasil, o filme foi titulado Bonequinha de luxo.
Um dos aspectos mais interessantes da história da arte é que sempre se acaba falando da história cultural de um país ou de uma época. Preparei aula extra para elas, com detalhes sobre o histórico da companhia desde sua fundação em 1837, mostrando joias dos catálogos, do passado ao presente. Entre elas estava o broche retratado acima, conhecido como Scribble [Rabisco], de 1983, desenhado por Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, nascida na França em 1949. O broche, manufaturado pela Tiffany, tornou-se emblemático dos anos 80 do século passado e da própria joalheria. Em ouro, 18 quilates, podia ser vendido separadamente ou como parte de conjunto com pendente e anel.
Se o costureiro Hervé Pierre [Hervé Pierre Braillard] designer francês, naturalizado americano, se inspirou na joia de Paloma Picasso, não tenho ideia. É possível. De acordo com blogs e escritores da moda, atuais, os anos 80 do século passado andam servindo de inspiração para estilistas. Visitando o Instagram de sua companhia, encontrei o sketch do vestido de Melania Trump assim como o rabisco de seu próprio punho que o inspirou.
Se for o caso, as linhas sinuosas do design do vestido de Melania Trump, já estavam com ele há algum tempo. Pelo menos uma variante do mesmo padrão apareceu no vestido de noite que ele projetou para o Liberty Ball, parte das festas de inauguração do governo Trump em 2017, como podemos ver na fotografia abaixo.
Presidente Donald Trump e sua esposa Melania no Liberty Ball inaugurando o primeiro termo na presidência dos EUA, em 2017.
Como o título dessa crônica revela, uma coisa puxa a outra. Memórias vêm e vão, muitas vezes inconscientes da origem de nossas ideias criativas. Elas aparecem aqui e ali, pontuando nossa vida, ressurgindo quando menos esperamos, às vezes vindas dos mais inacreditáveis recantos para nos lembrar daquilo que passamos e fomos capazes de reter ao longo dos anos.
Ilustração de livro francês. Provavelmente da década de 1960. Desconheço a autoria.
A mocinha aí em cima, me lembrou meus anos de adolescente. Estudava numa escrivaninha como essa. Não tinha gavetas laterais. Havia uma gaveta grande e rasa para lápis, réguas, clipes, material de papelaria. Embaixo havia um armário de duas portas, com uma grande prateleira, onde eu guardava meus livros, minhas revistas, tudo que era só meu e não da família. A tampa fechada, era um alívio, dizia: “não precisa mais fazer dever de casa”. Essa jovem da ilustração parece estar escrevendo em seu diário. Manter um diário foi sempre uma tarefa que não consegui realizar. Comecei muitos. Mas sem sucesso. A vida sempre foi muito cheia de aventuras, brincadeiras. Era muito ocupada e tudo parecia tão menos interessante quando era posto no papel, tão mais reduzido de excitação que não valia a pena relatar o dia a dia. Mas a jovem adulta voltou aos cadernos. Não aos diários. Cadernos de citações, frases de livros, poemas.
No YouTube no início de cada ano aparecem dezenas de vídeos ensinando as vantagens de se manter um diário para o equilíbrio emocional, para boas decisões. Ou a importância para o pintor, artista plástico, de carregar consigo um caderno de sketches. Para leitores e escritores há as cadernetas de bolso para que se anote uma ideia, observação feita na rua, no jardim, na praia, algo que possa ser colocado como detalhe na sua escrita. Não tenho nenhum deles. Este ano, pela primeira vez, coloquei na bolsa um pequenino caderno para isso, mas vou precisar me lembrar de que tenho essa ferramenta. Como nunca usei, talvez precise me esforçar para lembrar de que tenho essa coisa na bolsa.
O que faço, é uma adaptação do que é conhecido como Commonplace Book. Não, não é o típico Commonplace Book, objeto vindo de um hábito criado na Renascença, na Itália, das pessoas guardarem citações, ditados, ideias do que fazer, ideias do que escrever, ideias próprias e uma variedade de anotações. O meu Commonplace Book é de coisas que vou lendo, que não são citações que encontrei em livros. Essas eu tenho em cadernos separados e já escrevi sobre eles aqui no blog, no dia 23 de outubro de 2022, sob o título: O acaso sempre ensina. Meu livro de anotações é de coisas que aparecem no meu caminho, ou alguma coisa que preciso verificar para um nota de rodapé ou para um detalhe que venha a ser interessante – não importante, mas interessante – para o futuro. Não há ordem. Não há assunto específico. São coisas que acho que ainda voltarei a consultar, apesar de não saber exatamente porque.
Todos eles são feitos exatamente como esse acima nas fotos, que é i caderno de 2022. Divido um pedaço da página, nos cantos, onde só coloco títulos ou ilustrações sobre o texto. Sou uma pessoa que pensa por imagens. Minha memória imagética é mais desenvolvida do que a memória de textos. Por exemplo, não sei uma única de minhas poesias de cor. Apesar de ter publicado um livro de poesias, ter diversas outras poesias publicadas em antologias e estar tratando de meu próximo livro de poemas. Mas preciso ler meus textos, porque não consigo me lembrar deles de cor. Contudo, consigo resgatar conhecimento ou onde encontrar algo que procuro, por causa das “figurinhas” que imprimo e colo no caderno. Cada louco com sua mania, essa é uma das minhas.
Lembrei-me de colocar essa postagem aqui, porque estou fazendo minhas primeiras anotações no Commonplace Bookdeste ano. Numero todas as páginas. Guardo algumas páginas no final para um índice, E assim muita informação secundária e interessante não só é guardada como faz parte de um processo a que tenho fácil acesso.
Não é o verdadeiro Commonplace Book. Os puristas não gostarão de ver esse nome aplicado a esses cadernos. Mas é para mim.
E vocês? Com ajudam sua memória? Como guardam informações que um dia poderão vir a utilizar?