Decorado com a pintura de um jovem de capacete com plumas, no reverso uma jovem em perfil em três quartos para o lado direito com vestido azul de gola alta. Ambos rodeados por cartuchos trançados em verde e amarelos sobre fundo azul com volutas de flores e folhagem entre aros. Há desgaste no rosto e pescoço da jovem.
“Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.”
Medalhão circular com borda decorada no padrão escamas de peixe, quadrados vermelho e verde e desenhos florais alternando com padrão treliça com fundo cor de pêssego. No centro um unicórnio laranja, sobre fundo verde com árvores azuis e nuvens cor de laranja,
Biografias de intelectuais famosos, pensadores, podem facilmente se tornar narrativas que se perdem nas explicações teóricas sobre as contribuições dos retratados. Essas podem desinteressar o leitor comum, nem sempre motivado para aulas teóricas na leitura de entretenimento. Ou, na tentativa de agradar a maior público esses livros podem pecar também ao passarem por cima de teoria representativa da contribuição dos biografados no intuito do texto ser melhor digerido pelo público não especializado. Esse não é o caso de O segredo de Espinosa, de José Rodrigues dos Santos [Planeta: 2023]. Esse é um livro muito bem escrito, cobrindo a vida do filósofo Baruch Espinosa, nascido na Holanda, judeu marrano de origem portuguesa. que trata por meio de diálogos, uma boa parte dos posicionamentos de Espinoza, fazendo-os acessíveis ao leitor sem entediá-lo.
Essas ponderações são ainda mais pertinentes quando se trata de uma obra que traz ao leitor o papel da religião no dia a dia, assim como na vida do Estado. Espinosa foi um dos grandes defensores da separação entre Igreja e Estado. Levando a racionalidade de Descartes a nível não imaginado anteriormente. Considerado o filósofo que abre a era da modernidade nos estudos filosóficos, ele está hoje entre os filósofos mais influentes do mundo atual. Toda essa importância poderia tornar O segredo de Espinosa difícil de ler, difícil de interpretar, mas José Rodrigues dos Santos fez um excelente trabalho cobrindo desde a infância de Espinosa até seus últimos dias.
Além de ser fiel aos argumentos de Baruch Espinosa, José Rodrigues dos Santos presenteia o leitor com deliciosas vinhetas da vida na Holanda do século XVII, historicamente confirmadas, assim como eloquentes cenas da política local, da população em revolta. Não se recusa tampouco a delinear com precisão as questões religiosas e culturais complexas da época.
“Ao longo da Breestraat viam-se as lojas e os armazéns a exibirem os produtos mais variados; muitos provenientes de empresas neerlandesas como a Companhia das Índias Orientais e a Companhia das Índias Ocidentais, outros de empresas portuguesas como a Carreira das Índias e a Companhia Geral do Comércio do Brasil, outros ainda de navios oriundos de Veneza, de Antuérpia, de Hamburgo ou de outros pontos, incluindo saques efetuados por corsários marroquinos. As prateleiras enchiam-se assim de porcelanas de Cantão e de Nuremberg, tapetes de Esmirna, tulipas de Constantinopla, sedas de Bombaim e de Lyon, pimenta das Molucas, sal de Setúbal, linho branco de Haarlem, lã de Málaga, faiança de Delft, sumagre do Porto, açúcar do Recife, madeira de Bjørgvin, tabaco de Curaçau, marfim de Mina, azeite de Faro. Havia ali de tudo e de toda a parte, como se o bairro português de Amsterdã fosse o bazar dos bazares, o mercado do mundo.“
José Rodrigues dos Santos
Esse é um romance histórico, uma biografia cuidadosamente construída, que explora a maneira como Espinosa desenvolveu levou adiante as ideias de Descartes. A obra afirma a retidão de seu caráter, expõe a maneira como as publicações se espalhavam no século XVII, e trabalha a narrativa de tal forma que o leitor não deseja parar de ler. Foi um presente conhecer esse autor português. Irei procurar outras de suas obras. Recomendo sem qualquer restrição, foi para minha lista de favoritos.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Uma velha livraria, ilustração de Guido Borelli (Itália, 1952).
Meu pai me apresentou às delícias de explorar um sebo. Lembrei-me disso, hoje, quando organizando novas prateleiras colocadas neste fim de semana, me encontrei com um livro muito antigo que ele comprou para mim, quando comecei a estudar francês aos dez anos de idade. Num final de tarde, vindo do trabalho, papai me entregou um pacotinho, não muito grande, bem embrulhado em papel pardo, com barbante de algodão de dois fios, verde e branco que se enroscavam um no outro. Muito bem feito, com as rebarbas de papel dobradas em ângulos nas laterais e depois viradas para reforçar as aberturas, o pacote, embalado sem luxo, tinha um pequeno laço no centro, revelando o cuidado do vendedor com a compra. Era um livro. Um livro muito diferente de todos que eu conhecera até então. Antigo. A capa dura, com dorso em tecido vermelho, tinha ao centro a gravura de uma mulher sentada, tal qual deusa da antiguidade, talvez Minerva, ladeada por duas crianças: um menino e uma menina. Em típica estética do início do século XX, a capa também descreve, de uma só vez, em palavras, todo o conteúdo do livro: Curso seguido pela Escola de Paris, inscrito nas listas dos departamentos (estados na França), adotado em todos os países de língua francesa. 800 exercícios 380 ditados e redações, 240 gravuras, publicado pela Librairie Larousse, Paris [1911]. Há outra frase descritiva, mas o tempo já apagou muitos dos caracteres. Era a Grammairede Claude Augé, volume relativo ao curso mediano. Em seu interior havia, pontuando os exercícios de leitura, gramática e demais pontos de ensino, deliciosas gravuras, quadradinhas, não passando de dois centímetros e meio cada, que ilustravam a lição e me deram muitas vezes asas para imaginação. Fui uma criança e adolescente sonhadora e, sentada à mesa da sala de jantar, fazia os meus exercícios, vagarosamente, sempre com auxílio de um de meus pais. Mas era comum eles, de repente, pararem as explicações, chamando minha atenção para o texto, para o presente, para o que fazíamos, porque aquelas gravurinhas nos cantos, nas bordas das páginas me levavam a outros mundos. Provavelmente, frustrados com meu progresso em casa, aos doze anos entrei para a Aliança Francesa, e por anos seguidos estudei lá, até mesmo depois de casada, quando morei em São Paulo. Porque comecei muito cedo no aprendizado do francês acredito que a familiaridade com a língua tenha me ajudado bastante, de maneira totalmente inesperada, em ocasiões que ficam para serem contadas de outra vez.
Na minha família, naquela época, a língua francesa era a língua estrangeira a se conhecer. Não é que não dessem valor ao inglês. Fui aluna, por poucos anos, da Cultura Inglesa, porque meus pais achavam importante eu ter um mínimo de conhecimento de inglês. Mas eu já era adolescente cheia de rebeldia, largando o inglês assim que pude. A ironia do destino foi que justamente na Cultura Inglesa, do Jardim Botânico, vim a conversar pela primeira vez com o adolescente, que eu já conhecia de vista, porque voltávamos da escola no mesmo transporte público, que mais tarde, poucos anos depois, se tornou meu marido. Nessa época eu ainda não sabia que o destino iria me trazer a obrigação do inglês. O francês continuou como a língua estrangeira mais importante. Quem poderia imaginar que casada, eu iria morar nos Estados Unidos e voltar de lá mais de três décadas depois? Esses certamente não eram os planos quando comecei a aprender francês com minha mãe, em casa. Meu avô materno havia passado algum longo tempo, na Suíça, a trabalho, voltando algumas vezes mais tarde na década de 1950. Sua primeira e longa estadia foi após a Segunda Guerra Mundial. Vovô era um intelectual, advogado, professor e mais tarde, na década de cinquenta tornou-se escritor com uma coluna sindicalizada nos jornais, que aparecia em diversas publicações por todo Brasil. Ele era fluente em francês. Seu diário, de que sou a guardiã, tem observações interessantes sobre diversas épocas de sua vida. Alguma coisa que ele preferia deixar velada, escrevia em francês. Francês era sua língua de escape, ainda que eu não saiba exatamente quando a aprendeu. Por causa de sua estadia na Suíça, tínhamos lá em casa muitos livros com belas fotos daquele país, e eu, uma coleção de bonecas dos diversos cantões suíços.
Esse não foi o único livro de sebo que papai me trouxe de presente. Muitos outros fizeram parte da minha vida de estudante e certamente da minha vida de leitora. A Grammairede Augé, foi o início de um relacionamento feliz com livros antigos. Um de meus primos, que era afilhado de papai, uma vez me disse que papai sempre lhe dava presentes de aniversário para crianças um pouquinho mais velhas. Ele gostava, mas tinha que se esforçar para apreciá-los. O mesmo acontecia comigo. Tenho certeza de que meu francês aos dez anos não deveria ser do nível para essa gramática, segundo volume de uma série de quatro, do ensino para nativos da França. Mas nem papai, nem mamãe se preocuparam com isso. Aulas particulares de mamãe começaram quase imediatamente após o livro de Claude Augé chegar lá em casa. Foram aulas pequenas, sem grandes exigências, mas hoje, abrindo aqui e ali, vendo minhas anotações, em pedacinhos de papel marcando lugares específicos no livro, me surpreendi com o material que cobrimos.
Procurei por essa gramática na Estante Virtual, site de venda de livros de segunda mão. A gramática ainda existe à venda e há também outros livros novos e antigos esperando por compradores. Depois de uma hora vagando virtualmente pelos sebos do país, comprei alguns livros que irão alegrar minhas leituras este ano. Mesmo assim, ainda prefiro entrar nas poucas lojas de livros usados que conheço aqui na cidade, respirar o ar dos livros antigos, um misto de tabaco, mofo, papel velho e poeira que certamente não são bons para alergias, mas a gente dá um jeito. E gosto de desfrutar do silêncio. Adoro o silêncio que livros trazem a qualquer lugar. Gosto também de sair, depois de ter manuseado uma centena de volumes, com uma sacola com dois, três, cinco livros que eu não sabia, ao entrar, que precisava ler; que só de abri-los se tornam indispensáveis para mim. Hoje, eles vêm para casa em sacos plásticos, quando não em sacola do supermercado reutilizada. Perdemos o encanto de um pacote bem feito, de papel pardo, provavelmente puxado de um rolo grosso preso no tampo do balcão. Papel milimetricamente dobrado e redobrado; pacote finalizado com barbante de algodão, cujo fio desce de um rolo colocado no teto. Aqueles eram livros garbosamente vestidos e respeitados pela importância que poderiam ter em nossas vidas.