Didier Delamonica (França, 1950)
“Nunca lemos só um livro. Nós nos lemos através dos livros, seja para nos descobrirmos, seja para nos controlarmos.”
Romain Rolland
Didier Delamonica (França, 1950)
Romain Rolland
Ilustração anônima.
“Lohmark ficara acordada na última noite. Devia ser antes das quatro da manhã. Ainda estava tudo escuro. Uma corrente de ar acariciou seu rosto.Uma vez. Outra vez. O pulso de repente a cento e oitenta. Palpitação. Uma borboleta grande? Uma mariposa-beija-flor, mas, na verdade, era tarde demais para uma dessas. Então, paz. Talvez tivesse pousado. Talvez também não estivesse mais lá. Ela precisou tatear por um tempo até alcançar o interruptor da luminária no criado-mudo. Quando finalmente clareou, o bicho lançou-se me pânico pelo quarto. Voava em grandes círculos. Oitos imaginários, três palmos abaixo do teto. Revoada de trem fantasma. Um morcego! Um jovem morcego-anão que se perdera. O sistema de radar falhou, seu sentido de orientação infalível o deixou na mão. A bocarra estava aberta, ele gritava. Mas não se ouvia o grito.
Talvez sua inteligência bastasse para que ele voasse pela janela entreaberta e reconhecesse que ali não era um buraco em um celeiro, nem uma fenda de árvore ou uma abertura num muro de alguma central de energia, mas não para encontrar novamente a da janela e assim a saída. Deveria ter vindo de uma colônia-berçário que agora, no fim do verão, se dissolveu. Cada animal estava por conta própria. Em busca de um novo lar.
Lohmark apagou a luz e foi em silêncio para o porão. Por segurança, puxou o cobertor sobre a cabeça. Bom que Wolfgang tinha um sono tão profundo. Teria se apavorado com a visão. Um fantasma em sua ronda noturna. Ela ainda ouviu os roncos quando parou diante da estante com os potes a vácuo.
Então, foi tudo muito rápido. Provavelmente o animal sentiu que ela era sua salvação. Escapuliu algumas vezes, mas, quando ela quis cobrir seu pequeno corpo com o vidro, se rendeu por puro medo. Por um instante ele se debateu, em seguida dobrou as asas e a encarou. Parecia morto. Empalhado. Muito frágil: marrom com pelo grossos de rato. A membrana fina das asas. Articulações vermelhas salientes. As garras pretas dos polegares alongadas. A cabeça achatada. Um focinho brilhante, úmido. Dentes mínimos vampirescos. A boca aterrorizada de um recém-nascido. Olhos parados de medo. Tanto medo. Pareciam mais aparentados com seres humanos do que com camundongos. O mesmo conjunto de ossos: antebraço, rádio, cúbito e carpos. Nas orelhas afuniladas, a mesma cartilagem. Além disso, órgãos sexuais anatomicamente idênticos. Um par de tetas no peito. O pênis pendia. Um ou dois filhotes ao ano. E nasciam quase totalmente pelados.
Por um instante, ela ainda pensou se poderia usar o morcego em aula. Apresentar à nova classe uma típica espécie sinantrópica. O menor de todos os mamíferos. Mas ela quis se livrar o mais rápido possível da criatura. Abriu a janela. E, então, o vidro. Bem devagar, o animal esgueirou-se para fora, primeiro caiu, então se endireitou, estendeu as asas e desapareceu na escuridão, para algum lugar na direção da garagem. Rapidamente, ela fechou a janela e voltou a se deitar. Apenas quando começou a clarear foi que finalmente adormeceu.”
Em: O pescoço da girafa, de Judith Schalansky, tradução de Petê Rissatti, Rio de Janeiro, Alfaguara:2016, pp: 55-59.
Um brinde ao nosso 13º aniversário!
Ontem, o grupo de leitura Papalivros completou seu 13º aniversário. São 13 anos de leituras, uma por mês. Sem nenhuma falta. 156 livros lidos. Somos 20. Hoje só mulheres, mas já tivemos homens nos encontros. Eles saem, acho que não aguentam o falatório…. Ainda estão conosco membros do início do grupo. É um prazer conversar sobre o que lemos e forjar amizades. A página do grupo aqui no blog mostra a lista de todos os livros lidos até hoje. O grupo se sente orgulhoso e com razão de se manter por tantos anos. Obrigada a todas as participantes: Albertina, Ana Maria, Camille, Chaia, Beth, Fabiana, Frassinete, Gilda, Gisela, Inez, Ladyce, Léa, Luba, Lucia, Lucinha, Magali, Maria Eugenia, Melissa, Monica e Rosi. O sucesso é do conjunto, é do grupo. Vamos em frente, grande festa programada para os 15 anos!
Eliseu Visconti (Itália/Brasil, 1866-1944)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Gonçalves Crespo
Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouca a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.
Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto do tropeiro.
Atrás das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.
Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.
1869
Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro, p. 114.
Retrato de N. V. Sapozhnikova, 1915
Nicolai Fechin (Rússia, 1881-1955)
óleo sobre tela
Museu de Arte, Tatarstan, Kazan
Um monge, uma rainha, um tesouro
Iluminura em manuscrito
Harley MS 4399, f. 22r
Meu nome não é comum. É um nome inglês, usado principalmente no final do século XIX e início do século XX. Não é uma invenção de minha mãe como muitos imaginam. Talvez por ter sido agraciada com um nome fora do comum, sempre prestei atenção a nomes. O povo brasileiro é muito criativo quando se trata de prenomes para seus filhos. Uma vez encontrei uma família em que todos os onze filhos tinham nomes que começavam com a letra Z. Na falta, pegaram nomes comuns e substituíram algumas consoantes por Z. Assim havia uma Zandra (Sandra) e uma Zezina (Regina).
Desde que fui seduzida pela história medieval coleciono nomes de mulheres. Porque aos nossos ouvidos, os nomes das princesas e rainhas medievais soam muitas vezes tão esdrúxulos quanto os nomes da família com Z.
Conheço quem procura nomes para filhinhos ou netinhos aproveito então para postar alguns nomes medievais para consideração:
Aalis, Abril, Adalgisa, Adelaide, Adelinda, Adeline, Adeltrude, Ágata, Agnes, Alda, Aldara, Aldith, Aldreda, Alice, Aline, Alix, Amanda, Anabela, Antia, Arabela, Armena, Astrili, Aurora, Ava, Avelina
Bailessa, Basilea, Basina, Baudelia, Beata, Beatriz, Begga, Belinda, Berta, Bertilla, Blanche, Bodélia, Bogdana, Bonita, Branca, Brites, Brunilda
Cândida, Cassandra, Catalina, Cecília, Celestina, Célia, Clara, Clarice, Clemência, Columba, Constância, Cristina, Cristiana
Denise, Dionísia, Dominica, Dragoslava, Dubravka, Dulce, Dulcina
Edith, Eleonora, Elizabeth, Emília, Emma, Esmeralda, Etheldreda, Ermengarda, Eugênia, Evelina, Everilda
Fabíola, Fada, Fastrada, Felícia, Filipa, Fina, Flor, Floridia
Gadea, Garsea, Gelvira, Genoveva, Gerberga, Gertrudes, Gervinda, Gisela, Golda, Gundred
Helena, Heloísa, Herminone, Herrad, Hilária, Hilda, Hildegarde, Hiltrude
Ida, Idônea, Igulina, Inês, Isa, Isabel, Isolda
Jimena, Joana, Jocosa, Juliana, Julieta
Laura, Laurenza, Leandra, Leonor, Letícia, Letula, Lia, Linora, Liutgarde, Lívia, Lorena, Luella, Luanda, Luba, Lúcia, Ludmila
Madelgarda, Mafalda, Maiorina, Maria, Marion, Martina, Mécia, Mencia, Margaret, Margarida, Marsília, Martina, Matilda, Matilde, Melia, Miane, Milina, Militsa, Miloslava, Mira, Mirabela, Miroslava, Molle, Mor, Moyli, Muriel.
Nancy (diminutivo de Annis), Nerys, Nina, Norma
Odília, Olívia, Osvalda,
Prudência, Petrônia, Petronilla, Primavera,
Rada, Radoslava, Raísa, Raquel, Regina, Rohese, Rohesita, Rosa, Rosalba, Rosalie, Rosalina, Rosamunde, Rosetta, Rosina, Roxane
Sabela, Sabina, Safira, Sancha, Sarah, Sence, Serafina, Sibil, Slava, Slavitsa, Sol, Stanislava, Stella, Suévia, Sunnifa, Sunniva, Suzana
Tânia, Tatiana, Teodora, Teodrada, Teofânia,Teresa, Tianna, Timothea, Tota
Urraca, Úrsula, Utta, Uxía (variação de Eugênia)
Vanda, Velma,Vilante, Violeta, Vitória, Vivili, Vrimia
Wulfrida
Xantho
Zafara, Zanna, Zenith, Zuzana
Considerando que muitas centenas de anos se passaram, é incrível o número de nomes medievais, dos anos 500 a 1400, que ainda sobrevivem.
Desconheço a autoria dessa ilustração.
Cleómenes Campos
Amigo, faze o bem: esse prazer dispensa
a maior recompensa:
— Aqueles frutos saborosos
que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar,
custaram com certeza, os trabalhos penosos
de alguém que já sabia
que nunca em sua vida, os colheria…
Mas nem por isso os deixou de plantar.
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 87.
Joana Beaufort, Rainha da Escócia, esposa do Rei Tiago I, Foremont Armorial, 1562.
Frequentemente em aula, meus alunos se surpreendem com o grande número de herdeiros de tronos e de rainhas que morrem em idade que hoje consideraríamos jovem. A rainha aí acima ilustrada Joana Beaufort (1404-1445) não sofreu desse mal tendo morrido aos 41 anos. Sobreviveu o primeiro marido Rei James I (1394-1437), e ainda casou outra vez com James Stewart, o Cavaleiro Negro de Lorn (1399-1451). Sorte dela. Conseguiu dar a luz a muitos filhos que sobreviveram! Deixou portanto uma longa descendência que se espalhou e multiplicou pela Europa: Jaime II da Escócia (1430-1460), Margaret Stewart, princesa de França (1424-1445), John Stewart, Primeiro Duque de Atholl (1440-1512), James Stewart, Primeiro Duque de Buchan (1442-1499), Joana Stewart, Condessa de Morton (1428-1486), Eleonora da Escócia (1433-1480), Anabella da Escócia (1436-1509), Mary Stewart, Condessa de Buchan (1428-1465), Isabel da Escócia (1426-1499), Andrew Stuart, Bispo de Morray (?- 1501). John, James e Andrew Stewart foram filhos do segundo casamento. Tal feito era incomum, mesmo no início do século XV, como é o caso.
Quando voltamos os olhos para a Alta Idade Média, a realidade é outra. Tomemos o caso da Rainha Hildegarde, esposa de Carlos Magno (742 (?) – 814), que casou com ele em 771. Vinha de uma influente família da Alemannia. Sua união a Carlos Magno durou 12 anos, nos quais ela deu a luz a nove filhos, antes da idade de 25 anos, quando morreu. Quando seu primeiro filho nasceu, ela mal havia completado 14 anos. Só três herdeiros homens ficaram desse casamento de Carlos Magno que imediatamente se casou com Fastrada, filha de um conde francês. A mortalidade infantil era tão grande nessa época que reis procuravam assegurar filhos homens legítimos que pudessem herdar o trono. Carlos Magno se desapontou com a união a Fastrada que em onze anos lhe deu só duas filhas mulheres, portanto nenhum herdeiro para o trono. Ela morreu em 794, aos 29 anos.
Carlos Magno não era um homem insaciável. Mas para assegurar herdeiros ao trono, acabou se casando cinco vezes. Suas esposas foram Himiltrude, Desiderata, Hildegarda de Vinzgouw, Fastrada, Luitegarda da Alemanha. E muitos filhos. Filhos legítimos, com Himiltrude: Pepino (v.770-811); com Hildegarda: Carlos (v.772-811), Adelaide (?-774), Rotrude (v.775-810), Pepino de Itália (777-810), Luís I, o Piedoso (778-840), Lotário (778-779), Berta (v.779-823), Gisela (781-ap.814), Hildegarda (782-783). Com Fastrada: Teodrada (v.785-v.853), Hiltrude (ou Rotrude, Rothilde) (v. 787-?). E filhos ilegítimos com concubinas: com Madelgarda: Rotilde (790-852), com Gervinda: Adeltruda, com Regina: Drogo (801-855) e Hugo (v.802-844) e com Adelinda: Thierry (807-ap.818).
A procura por herdeiros homens foi uma constante na história. Não prover qualquer reino com um legítimo herdeiro foi sempre culpa da mulher, muitas vezes desconsiderada por sua inabilidade de salvar as alianças políticas, colocada de lado, divorciada legalmente ou não, abandonada, assassinada. Levou muito tempo para a mulher ser considerada uma pessoa além de provedora de filhos homens.
Ainda temos vestígios desses problemas. Uma das preferências por filhos homens das mais conhecidas é a que levou a China a ter, hoje, uma superpopulação de cidadãos do sexo masculino. O governo chinês, para conter o crescimento populacional no século XX, proibiu famílias de terem mais de um filho (essa regra acaba de ser mudada em 2016, para dois filhos). Com isso bebês do sexo feminino sofreram infanticídio nas mãos dos próprios pais que procurariam mais tarde por um filho homem.
Com esse conhecimento é praticamente impossível que não se apoie o feminismo. Eu sou feminista. E você?

Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
Sem querer mover os lábios,
cada livro é um professor.
(A. A. de Assis)