
Paisagem, 1980
Moacir Andrade (Brasil, 1927 – 2016)
óleo sobre tela, 99 x 68 cm

Paisagem, 1980
Moacir Andrade (Brasil, 1927 – 2016)
óleo sobre tela, 99 x 68 cm

DA MINHA MESA DE TRABALHO – nesta semana: Lisianto híbrido, branco e lilás.
Toda minha vida adulta, enquanto morava nos EUA, dediquei-me aos direitos das mulheres. Estive em marchas, em Vigílias à Luz de Vela, abracei com centenas de outros manifestantes o prédio do Congresso. Fui membro da NOW — National Organization for Women, gritei nas ruas “Equal pay for equal work”. Levei marido, amigos, enteado, todos que eu conhecia, às marchas comigo, vestidos de branco, cor das sufragistas. Dei todo tipo de apoio que me era possível pelo direitos da mulher. Suei horrores na cozinha assando bolos para vender em bazares de levantar fundos para a causa e também servi de intérprete gratuitamente para a Planned Parenthood. Fiz o que estava às minhas mãos. Dedicada assim como centenas de outras mulheres que conheci e que ainda fizeram muito mais. Essa luta pela igualdade de direitos é a luta da minha geração, da geração pós Glória Steinem, pós queima de sutiãs, pós radicalismo. Nunca a deixei de lado mas confesso que, com o tempo, me acomodei.
Não pensei que ainda teríamos que voltar às ruas para defender os direitos da mulher, como aconteceu hoje em todas as grandes cidades americanas, no final da segunda década do século XXI. Para mim, essa luta tinha um gosto amanhecido, de coisa passada do ponto. Erro meu.
Agora mais do que nunca esse ativismo é necessário. Estou com a televisão ligada. Atenta ao movimento de resistência aos projetos do presidente Donald Trump. Se colocados em prática, seus planos serão um grande passo em retrocesso para toda a nação. Estou orgulhosa de ver milhares, possivelmente milhões de americanos, nas ruas, continuando essa luta, procurando justiça
—
LIVROS sobre a mesa: O Príncipe dos Canalhas, Loretta Chase; Tempo é dinheiro, Lionel Shriver; O museu do silêncio, Yoko Ogawa; Três cavalos, Erri de Luca.
Jardins de encantamento
Frank O. Salisbury (Inglaterra, 1874-1962)
óleo sobre tela
Adélia Prado
Paisagem carioca
Alan Carlson (Brasil, 1950)
óleo sobre tela, 46 x 61 cm
São Sebastião
Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896 – 1962)
óleo sobre madeira, 19 x 24 cm

Moça lendo
Konstantin Makovsky (Rússia, 1839 – 1915)
óleo sobre tela

Homem sentado, 2010
Carlos Álvarez de las Heras (Espanha, 1982)
Vaso com flores e frutas
Albano Vizotto Filho (Brasil, 1928-2002)
óleo sobre tela, 65 x 95 cm
Autoria desconhecida.Os dois elementos mencionados no título brasileiro do livro de Ruth Ozeki A Terra Inteira e o Céu Infinito formam um todo, uma unidade, um ser-tempo, pleno, indivisível. E foi justamente com o sentido de plenitude, de preenchimento emocional que acabei de ler um dos mais ricos livros de ficção (o quanto é ficção é debatível) dos últimos anos. Ao fechar a última página, ao ler os apêndices, me dei conta de querer reler o livro, assim que for possível, pela certeza de que mesmo na releitura ainda não terei digerido tudo o que foi abordado nessas quatrocentas e tantas páginas.
Esta é uma obra complexa demais para caber nos poucos parágrafos de uma resenha. Extremamente atual, de fácil leitura, o livro de Ruth Ozeki nos leva a considerar assuntos sérios que ponteiam o horizonte cotidiano de todos nós e que raramente paramos para considerar em maior detalhe. Temos através dessa história de duas mulheres: uma jovem adolescente e uma mulher madura, que se encontram através do tempo, noções de zen-budismo, física quântica, meio ambiente, tsunami, lixo oceânico, bullying, doença mental, suicídio, Segunda Guerra Mundial, relativismo da história, escolhas éticas e morais e um tanto de fantasia. Tudo isso numa obra que consegue manter unidade integral, única, aberta, consistente e estética.

Com essa variedade temática espera-se uma espécie de colcha de retalhos. Mas isso não acontece. Ruth Ozeki controla muito bem o texto e seu ritmo. Ainda que não produza uma obra de suspense, eu me vi virando página após página, magnetizada pelo desenrolar da quase não-trama. Que feito!
A história é contada por duas vozes distintas: Ruth, uma mulher madura que vive numa ilha no Canadá e encontra um diário de uma jovem japonesa jogado ao mar. Resolve lê-lo. E nós lemos junto. Assim conhecemos Naoko a jovem japonesa que viveu nos EUA e voltou com sua família para o Japão onde sofreu todo tipo de preconceito e bullying. Não era suficientemente japonesa. Aos poucos sabemos dos problemas familiares, de seu pai, de seu tio avô e conhecemos sua bisavó, um dos personagens mais interessantes do livro que nos dá lições e lições de vida.
Mesmo que repleto de situações difíceis descritas em detalhe, ou talvez justamente porque são descritas em detalhe, consegui seguir em frente testemunha dos sofrimentos dos personagens, seguir seus passos, entender suas maneiras de pensar, quer pessoais quer culturais, e sair ao final estimulada, esperançada.
Ruth OzekiEsta obra de ficção é repleta de informações factuais que se transformam diante dos nossos olhos em verdadeiras meditações. Dentre elas, quase imperceptível, está aquela do leitor criando sua obra na leitura do livro, como Proust, que tem um papel importante e interessante no livro, já havia notado [“todo leitor é leitor de si mesmo”]. Como acontece com Ruth ao ler o diário de Naoko. Há, de fato, tantas camadas de leitura entremeadas e possíveis que ao final do livro o desejo de reler é quase obrigatório. Com fortes personagens o leitor é levado pela mão a considerar postulados filosóficos diversos inclusive aqueles sobre o conceito de tempo, assim como considerações éticas em horas difíceis. Tudo isso num contexto contemporâneo que a pessoa comum não só entende mas sobre a qual é frequentemente convidada a opinar.
Há tempos não me encanto com uma obra de tal maneira. Foi a primeira leitura de 2017 do meu grupo de leitura e todos os leitores se encantaram. Recomendo com entusiasmo.
É Natal… que a luz que brilha
seja eterna em meus caminhos,
que brilhe também na trilha
dos que caminham sozinhos.
(Wilma de Carvalho Penna)