São Paulo, 472 anos!

25 01 2026

Parque do Ibirapuera, 1991

Mary Yamanaka (Brasil, 1952)

óleo sobre tela,  33 x 46 cm

 

 

São Paulo, 1921

Agustín Salinas y Teruel (Espanha 1861- 1915)

óleo sobre madeira, 14 x 24 cm

 

 

Moema, 1944

Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)

óleo sobre tela,  53 x 68 cm

 

 

Obelisco do Ibirapuera

Carlos Eduardo Zornoff (Brasil, 1959)

óleo sobre tela 70 x 140 cm

 

 

Radial Leste, 2013

Élon Brasil (Brasil, 1959)

óleo sobre tela, 100 x 130 cm

 

 





Jardim de inverno, uma memória…

18 01 2026

O jardim de inverno, 1883

Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)

óleo sobre tela, 63 x 80 cm

Coleção Particular

 

 

Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro.  Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós.  Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar.  Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou.  Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das  brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário. 

Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa.  Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe.  Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos.  Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela.  Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída.  Fui comprada, sim eu tinha preço!

Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba.  Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.

Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares.  Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos  20.  Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço.  Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô.   Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal.  Outros cristais encontravam-se na cristaleira. 

Móvel contador em estilo Manuelino.

 

A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40,  com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo.  Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.  

O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro.  Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas.  Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte.  O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr. 

O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos.  O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis.  Havia duas mesas pequenas.  A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória.  Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos.  Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX. 

Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única.  Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato.  No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová. 

Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas.  Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus.  Foi uma boa tarde de domingo.  Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.





Imagem de leitura: Joan Mayor

12 01 2026

Leitora, 1950

Joan Mayor (França, 1890-1970)

óleo sobre tela

 





Segunda leitura completa de 2026

8 01 2026

 


Uma das minhas decisões para o novo ano: ler alguns livros que já havia comprado e que por qualquer razão foram colocados para depois e para depois e assim por diante.  Bela surpresa me esperava.  Zen na Arte da Escrita, de Ray Bradbury, autor do conhecido clássico do século XX, Fahrenheit 451 e também das Crônicas marcianas, é uma bela coleção de onze ensaios sobre a escrita.  Nesse pequeno livro de 160 páginas, publicado em 2020, pela Biblioteca Azul, aqui no Rio de Janeiro, com tradução de Petê Rissatti, o leitor tem a oportunidade de conhecer o processo da escrita de Bradbury, sua simplicidade, seus pequenos truques para chegar a um texto vendável, sua sensibilidade e comprometimento com a profissão a que se dedicara. 

Não é um guia, um manual para a escrita. Mas testemunhando o que ele fez, seu processo de escolha e preocupação com temas e principalmente com sua habilidade de deixar-se levar pelo processo criativo, sem saber ao certo como chegar ao ponto desejado é fascinante e estranhamente sedutor para todos nós que nos dedicamos à comunicação de nossas histórias.

O entusiasmo do autor, a alegria de escrever são pontos constantes nesses capítulos independentes.  Vemos também o quanto o exercício da curiosidade é condição imprescindível para uma boa história. Mas além disso, deu-me vontade de ler mais de seu trabalho. Ficou muito famoso pelos dois livros citados acima, mas sua produção é enorme, de contos, novelas, romances e até mesmo poesia.  Foi um tiro certeiro cobrir esse livro no início do ano.  Recomendo a leitura, não só por aqueles que escrevem, mas também por quem tenha curiosidade de abrir uma janela sobre o processo criativo de um dos mais produtivos escritores do século XX. 

Meu livro está rabiscadíssimo com passagens sublinhadas, anotações nas margens e desde o início da semana passada já me coloquei com caneta e papel na mão tentando imitar alguns de seus métodos para desenvolvimento da prosa.  Serei boa aluna?  Veremos.  Mas se não conseguir, não será por falta de um excelente mestre. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Um engano, texto de Marcel Proust

7 01 2026

Cena de rua em Paris, 1885

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre madeira, 39 x 27 cm

Metropolitan, NY

 

 

“É muito possível, porque nunca na minha vida encontrei moças tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia separar-me apesar dos mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois da minha primeira viagem a Balbec, ia eu de carro com um amigo de meu pai quando vi uma mulher andando muito depressa na escuridão da noite; ocorreu-me que seria tolice perder por uma questão de cortesia a minha parte de felicidade na única vida que sem dúvida existe; desci sem desculpa alguma e lancei-me em busca da desconhecida; perdi-a num cruzamento de ruas, dei com ela no seguinte, e afinal, sem fôlego, me vi cara a cara com a velha sra. Verdurin, da qual eu sempre fugia, e que me disse, muito contente e admirada: “Que amabilidade a sua, correr para vir cumprimentar-me!”

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





Para o 1º dia do ano: uma letra especial de Nelson Motta!

1 01 2026

Marinha, 1946

Yvonne Visconti Cavalleiro (Brasil, 1901-1965)

óleo sobre tela, 34 x 50 cm

 

 

Como uma onda (Zen-surfismo)

 

Canção de Lulu Santos ‧ 1983

Letra de Nelson Motta

 

 

Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas

Como um mar

Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo

Não adianta fugir

Nem mentir

Pra si mesmo agora

Há tanta vida lá fora

Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no

Nada do que foi será

(De novo do jeito que já foi um dia)

(Tudo passa, tudo sempre passará)

Tudo que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo

(Não adianta fugir

Nem mentir

Pra si mesmo agora

Há tanta vida lá fora

Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar)

-*-*-*-

 

 

Por uma dessas circunstâncias da web essa música apareceu para mim diversas vezes nos últimos dias.  Achei apropriada para o começo de um novo ano.  É uma música filosófica.  Perfeita para pensarmos sobre a passagem do tempo e memória. E nesses dias aprendi algo que não sabia.  Foi numa postagem no Instagram de Fabricio Mazocco (@enigmasdorock), que soube que Nelson Motta havia se inspirado em dois livros: A arte cavalheiresca do arqueiro Zen, de Eugen Herrigel e Buda, de Jorge Luis Borges.  Mais ainda, que ele usou um verso de Vinícius de Moraes, A vida vem em ondas como o mar, como uma homenagem ao poeta, que havia acabado de falecer, e que retirou do poema O Dia da Criação. Só boas referências tinham que suscitar a belíssima letra dessa canção.

 

 

O Dia da Criação 

 

Vinícius de Moraes

 

O dia da CriaçãoQue tem como epígrafe as palavras da BíbliaMacho e fêmea, os criouSegundo Gênese, versículo 27
 
Hoje é sábado, amanhã é domingoA vida vem em ondas, como o marOs bondes andam em cima dos trilhosE nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar
 
Hoje é sábado, amanhã é domingoNão há nada como o tempo para passarFoi muita bondade de nosso Senhor Jesus CristoMas por via das dúvidas, livrai-nos, meu Deus, de todo mal
 
Hoje é sábado, amanhã é domingoAmanhã não gosta de ver ninguém bemHoje é que é o dia do presente
 
O dia é sábado
Impossível fugir a essa dura realidadeNeste momento todos os bares estão repletos de homens vaziosTodos os namorados estão de mãos entrelaçadasTodos os maridos estão funcionando regularmenteTodas as mulheres estão atentas
 
Porque hoje é sábado
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábadoHá um divórcio e um violamento
(Porque hoje é sábado)
Há um homem rico que se mata(Porque hoje é sábado)Há um incesto e uma regata(Porque hoje é sábado)
Há um espetáculo de gala(Porque hoje é sábado)E há uma mulher que apanha e cala(Porque hoje é sábado)
Há um renovar-se de esperanças(Porque hoje é sábado)E há uma profunda discordância(Porque hoje é sábado)
Há um sedutor que tomba morto(Porque hoje é sábado)E há um grande espírito de porco(Porque hoje é sábado)
Há uma mulher que vira homem(Porque hoje é sábado)E há criancinhas que não comem(Porque hoje é sábado)
Há um piquenique de políticos(Porque hoje é sábado)E há um grande acréscimo de sífilis(Porque hoje é sábado)
Há um ariano e uma mulata(Porque hoje é sábado)E há um tensão inusitada(Porque hoje é sábado)
Há adolescências seminuas(Porque hoje é sábado)E há um vampiro pelas ruas(Porque hoje é sábado)
Há um grande aumento no consumo(Porque hoje é sábado)E há um noivo louco de ciúmes(Porque hoje é sábado)
Há um garden-party na cadeia(Porque hoje é sábado)E há uma impassível lua cheia(Porque hoje é sábado)
Há damas de todas as classes(Porque hoje é sábado)Umas difíceis, outras fáceis(Porque hoje é sábado)
Há um beber e um dar sem conta(Porque hoje é sábado)Há uma infeliz que vai de tonta(Porque hoje é sábado)
Há um padre passeando à paisana(Porque hoje é sábado)E há um frenesi de dar banana(Porque hoje é sábado)
Há a sensação angustiante(Porque hoje é sábado)De uma mulher dentro de um homem(Porque hoje é sábado)
Há a comemoração fantástica(Porque hoje é sábado)Da primeira cirurgia plástica(Porque hoje é sábado)
E dando os trâmites por findos(Porque hoje é sábado)Há a perspectiva do domingoPorque hoje é sábado (sábado!)




O inesperado sempre acontece…

17 12 2025
Madame Mim não quer bagunça, ilustração Walt Disney.

 

 

Este fim de ano está mais caótico do que eu poderia imaginar.  A essa altura vocês já devem ter notado alguma irregularidade nas minha postagens. Sim, elas não estão normais, nem tão regulares.  Mas dentro em breve devem voltar a um ritmo mais ou menos normal. Seria um absurdo eu listar tudo o que deu errado.  Ninguém acreditaria.  Mas aos poucos, dia a dia, estou conseguindo vencer essa nuvem de pequenas e grandes frustrações, a maioria das quais ninguém é realmente culpado. Eu disse maioria das quais. 

Na segunda metade de outubro comecei a dar uma repaginada aqui em casa.  Mandei pintar alguns cantos, reorganizei móveis, troquei de fontes de luz e me entusiasmei, porque tive confirmado um almoço que darei para amigas escritoras, agora no final de semana, dia 20, aqui em casa;

Como estava tudo indo de vento em popa, eu me entusiasmei e decidi, com aquela famosa expressão que meus amigos portugueses adoram, bem eu decidi que:  já agora, iria também fazer o mesmo no meu escritório.  Poderia pintar de novas cores as paredes, remanejar alguns móveis, organizar estantes, selecionar livros.  E me joguei de corpo e alma ao trabalho.  Nesse meio tempo meus objetos decidiram me dizer que precisavam de assistência: perdi o som no meu computador. todas as minhas lives tiveram que ser via telefone… HORRÍVEL!  O ventilador de teto da sala parou e dias depois caiu antes mesmo do novo ventilador chegar.  E assim, uma sucessão de pequenos acidentes se perfilou no meu dia a dia.  

Nesse meio tempo o apartamento acima do meu, que estava em reforma desde agosto, estava a ponto de ser habitado.  E…  os pedreiros fecharam as paredes escondendo, sem querer, um vazamento substancial. O que na minha vida já andava caótico, de repente em coisa de quatro dias passou de água no chão de um banheiro, para um balde d’água cheio a cada quarenta e cinco minutos, em um dos banheiros, com água vinda do teto.  Todos os três foram afetados, porque afinal todos pertencem à mesma coluna.  Mas o hall interior também teve água descendo pelos spots.  Não era problema da coluna.  Era dentro da parede novinha do apartamento de cima.  Levamos alguns dias para descobrir e desde 12 de novembro até dia 15 de dezembro algumas coisas aconteceram enquanto esperávamos as paredes secarem: mofo, mofo e mofo e massa dos tetos caindo, tetos rebaixados esburacados, portas empenadas. E consegui desenvolver uma tremenda alergia.  Um desastre muito maior do que se pode imaginar.  Tem sido difícil.  Objetos elétricos não funcionam. Novas tomadas precisaram ser colocadas. E hoje finalmente a pintura começou.  Vão terminar tudo sexta-feira, véspera do meu almoço.  O que vou servir?  Ainda não sei.  Mas contratei duas pessoas que começam a me ajudar a partir de amanhã.  Só os livros de volta nas estantes é que precisam ser recolocados só por mim.  Mas essas duas pessoas, profissionais de limpeza e organização irão tomar as rédeas da casa.  Porque, francamente. estou exausta. 

As bruxas se esqueceram de voltar para casa depois do dia 31 de outubro.  Mas o  bem sempre vence… elas estão armando suas vassouras para decolar.  Voltarei a postar regularmente.  Só não posso prometer quando.  Mas estou por aqui.  Viva. Sobrevivente.  Ainda nos falamos antes dos feriados.   





Morte de Fernando Pessoa, nota de Miguel Torga

3 12 2025

Procissão funerária 

Markenzy Julius Cesar (Haiti-EUA, 1974)

óleo sobre tela, 76 x 101 cm

 

“Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.”

 

Miguel Torga, Diário, vol.I





Flores para um sábado perfeito!

29 11 2025

Rosas do jardim

Raquel Taraborelli (Brasil, 1957-2020)

óleo sobre tela

 

 

 

Falos e flores, 1986

Adir Sodré de Souza (Brasil, 1962-2020)

acrílica sobre tela





Uma surpresa em Belo Horizonte

10 11 2025

 

 

 

Visitei na semana passada a cidade de Belo Horizonte, que não conhecia, apesar de já ter passado por ela a caminho de outros lugares em Minas Gerais: Ouro Preto, Grutas de Maquiné, outras cidades históricas. Fui para um encontro de amigas que se conheceram há dezenove anos, através de livros e leituras. Nosso elo de união foram sempre os livros, as leituras, o que cada uma achou, o que cada uma recomendava. Ao longo dos anos aprendemos mais sobre nós mesmas.   Nós nos encontramos em na capital de Minas Gerais.  Éramos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, de Pernambuco e do Maranhão.  Que delícia rever amigas  de longa data, apesar de nos comunicarmos diariamente através do grupo no WhatsApp.

Para mim, o ponto alto da viagem,  além dos papos intermináveis com amigas chegadas, foi a ida à Pampulha, ver esse local que se tornou Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2016. O lugar estava cheio de turistas e eles provavelmente não perceberiam se me olhassem que havia ali uma pessoa profundamente emocionada com o que via.

 

 

 

O que me emocionou foram a leveza da arquitetura de Oscar Niemeyer —  a delicadeza  de formas é inigualável; a perfeita combinação de azulejos, um aceno possivelmente à tradição portuguesa com o desenho simples e gracioso dos traços de Cândido Portinari e a singeleza dos baixos relevos em bronze de Alfredo Ceschiatti. É um verdadeiro monumento ao que de melhor se produzia no Brasil.  As formas onduladas levaram-me a associar, instintivamente, a construção à música de excelência de Heitor Villa-Lobos que estava nessa época no processo de compor suas Bacchianas (1930-1945).  Todos os quatro artistas são o ponto alto do que produzíamos na época. Uma verdadeira sinfonia de formas.  Um deleite.