Leitora, c. 1900
Irving Ramsay Wiles (EUA, 1861-1948)
óleo sobre tela, 26 X 18 cm
“Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa, destruído, um coração que chora.”
Provérbio hindu
Leitora, c. 1900
Irving Ramsay Wiles (EUA, 1861-1948)
óleo sobre tela, 26 X 18 cm
Provérbio hindu
Frevo II
[Olinda, Carnaval]
Sandro Maciel (Brasil, 1965 )
acrílica sobre tela, 90 x 70 cm
Mandando nosso carinho
Lucy Almey Bird (Inglaterra, 1973)
acrílica sobre tela colada em cartão
Frutas do Conde, 1983
Armando Vianna (Brasil, 1897-1992)
óleo sobre tela, 24 X 33 cm
Fruta do Conde [Pinha]
Rose Fernandes (Brasil, 1972)
óleo sobre tela, 70 x 140 cm
Moça lendo, 1911
William Chadwick (EUA, 1879-1952)
óleo sobre tela
Eugène Delacroix
Parque do Ibirapuera, 1991
Mary Yamanaka (Brasil, 1952)
óleo sobre tela, 33 x 46 cm
São Paulo, 1921
Agustín Salinas y Teruel (Espanha 1861- 1915)
óleo sobre madeira, 14 x 24 cm
Moema, 1944
Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)
óleo sobre tela, 53 x 68 cm
Obelisco do Ibirapuera
Carlos Eduardo Zornoff (Brasil, 1959)
óleo sobre tela 70 x 140 cm
Radial Leste, 2013
Élon Brasil (Brasil, 1959)
óleo sobre tela, 100 x 130 cm
O jardim de inverno, 1883
Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)
óleo sobre tela, 63 x 80 cm
Coleção Particular
Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro. Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós. Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar. Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou. Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário.
Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa. Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe. Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos. Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela. Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída. Fui comprada, sim eu tinha preço!
Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba. Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.
Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares. Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos 20. Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço. Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô. Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal. Outros cristais encontravam-se na cristaleira.
A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40, com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo. Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.
O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro. Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas. Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte. O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr.
O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos. O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis. Havia duas mesas pequenas. A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória. Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos. Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX.
Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única. Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato. No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová.
Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas. Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus. Foi uma boa tarde de domingo. Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.
Leitora, 1950
Joan Mayor (França, 1890-1970)
óleo sobre tela
Uma das minhas decisões para o novo ano: ler alguns livros que já havia comprado e que por qualquer razão foram colocados para depois e para depois e assim por diante. Bela surpresa me esperava. Zen na Arte da Escrita, de Ray Bradbury, autor do conhecido clássico do século XX, Fahrenheit 451 e também das Crônicas marcianas, é uma bela coleção de onze ensaios sobre a escrita. Nesse pequeno livro de 160 páginas, publicado em 2020, pela Biblioteca Azul, aqui no Rio de Janeiro, com tradução de Petê Rissatti, o leitor tem a oportunidade de conhecer o processo da escrita de Bradbury, sua simplicidade, seus pequenos truques para chegar a um texto vendável, sua sensibilidade e comprometimento com a profissão a que se dedicara.
Não é um guia, um manual para a escrita. Mas testemunhando o que ele fez, seu processo de escolha e preocupação com temas e principalmente com sua habilidade de deixar-se levar pelo processo criativo, sem saber ao certo como chegar ao ponto desejado é fascinante e estranhamente sedutor para todos nós que nos dedicamos à comunicação de nossas histórias.
O entusiasmo do autor, a alegria de escrever são pontos constantes nesses capítulos independentes. Vemos também o quanto o exercício da curiosidade é condição imprescindível para uma boa história. Mas além disso, deu-me vontade de ler mais de seu trabalho. Ficou muito famoso pelos dois livros citados acima, mas sua produção é enorme, de contos, novelas, romances e até mesmo poesia. Foi um tiro certeiro cobrir esse livro no início do ano. Recomendo a leitura, não só por aqueles que escrevem, mas também por quem tenha curiosidade de abrir uma janela sobre o processo criativo de um dos mais produtivos escritores do século XX.
Meu livro está rabiscadíssimo com passagens sublinhadas, anotações nas margens e desde o início da semana passada já me coloquei com caneta e papel na mão tentando imitar alguns de seus métodos para desenvolvimento da prosa. Serei boa aluna? Veremos. Mas se não conseguir, não será por falta de um excelente mestre.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
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