Trova do outono

21 03 2019

 

 

 

 

f2d8d97ee0d76cb800459768ac09a7a7Desconheço a autoria dessa bela ilustração, capa da revista House Beautiful, de Outubro de 1929.

 

 

Querendo colher no outono,

semeei na primavera…

Tu deixaste no abandono

um jardim à tua espera…

 

(Marília Fairbanks Maciel)

 

 





O escritor no museu: Charles Dickens

18 03 2019

 

 

 

Portrait_of_Charles_John_Huffman_Dickens

Charles Dickens, 1843

Margaret Gillies (Inglaterra, 1803-1887)

Aquarela e guache sobre marfim

 





Murakami sobre narrativas

17 03 2019

 

 

 

 

Henri Paull Mottez, LeituraJovem lendo

Henri-Paul Mottez (Inglaterra, 1855 – 1937)

óleo sobre tela,  33 x 41 cm

 

 

“O romancista narra uma história. E narrar uma história é, em outras palavras, tomar a iniciativa de adentrar no inconsciente. É descer para as trevas do interior da mente. Quanto maior for a história que o escritor quiser contar, mais fundo ele precisará descer. Da mesma forma que, quanto mais alto for o prédio a ser construído, maior terá que ser sua fundação subterrânea. Quanto mais densa for a narrativa, mais pesada e mais espessa serão as trevas subterrâneas”.

 

Em: Romancista como vocação, Haruki Murakami, tradução: Eunice Suenaga, Alfaguara: 2017, p.100.





Que insônia, poesia de Corina [Coryna] Ferreira Rebuá

16 03 2019

 

 

 

faa0ec6253aa1d9268dbccd55d5af63cLuz da manhã

James H. Crank (EUA, ?)

óleo sobre tela, 91 x 66 cm

 

 

Que insônia

 

Coryna Ferreira Rebuá

 

Como faz frio neste quarto agora!

A chuva bate em cheio na vidraça

E o relógio da igreja, de hora em hora,

Soa. Há passos na rua… E a ronda passa…

 

Não consigo dormir. Como demora

Essa vigília que me torna lassa!

Se abro um livro, não leio. E lá fora

Chove.  Há passos na rua… E a ronda passa…

 

Dormes? Não creio. Eu sei que estás velando,

Porque eu pressinto que, de quando em quando,

Vem o teu corpo fluídico e me enlaça.

 

O relógio da igreja está batendo.

São quatro horas. Que insônia! Está chovendo.

Ouço passos na rua… E a ronda passa.

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 318

 

 

Bibliografia:

Felicidade, 1930

Alma Sedenta, 1932

Vida, 1940

Meu Romance de Amor, 1942

 

 

 





Trova da cigana

13 03 2019

 

 

 

71C2QzjDwUL (2)Ilustração de Mucha.

 

 

Em amor eu sou cigana,

não divido com ninguém…

E sendo, dele, tirana,

sou dele escrava também…

 
(Aída Rodrigues Frango)

 

 

 

 





Cyrano de Bergerac, o verdadeiro – celebrando os 400 anos de nascimento!

9 03 2019

 

 

8-1-1898 Lillustration,Benoît-Constant Coquelin (Coquelin aîné), en Cyrano de Bergerac, à la première de la pièce du même nom, d' Edmond Rostand, le 27 décembre 1897 au théâtre de la Porte-Saint-Martin..Benoît-Constant Coquelin, como Cyrano de Bergerac na estreia  da peça do mesmo nome, de Edmond Rostand, no dia 27 de dezembro de 1897, no teatro Porte-Saint-Martin. Como apareceu na Revista L’Illustration de 8 de janeiro de 1898.

 

 

Quem não se apaixonou pelo drama de Cyrano de Bergerac contado por Edmond de Rostand em sua peça teatral do final do século XIX?  No entanto, poucos sabem que houve um verdadeiro Cyrano, escritor, francês, nascido em Paris em 6 de março de 1619 [data de batismo, data de nascimento incerta].  Chamava-se Savinien de Cyrano e adicionou Bergerac depois que seu pai herdou de sua mãe a propriedade em Bergerac, local próximo a Rambouillet na Dordonha, às margens do rio Yvette, em 1616.

Sabe-se pouco de sua vida, morreu aos 36 anos, ferimentos, razão incerta.  Veio de  família com conhecimento, com aprendizado e alguma posição social, já que seu pai tinha o título de Senhor de Mauvières e Bergerac.  Mesmo pelos padrões da época, a biblioteca de seu pai, Abel de Cyrano, advogado no Parlamento em Paris, seria considerada pequena (126 livros) , mas a diversidade das obras listadas no inventário após a morte de Abel, sugere um pai curioso pelo estudo de línguas e literatura da antiguidade, com interesse em diversos assuntos, inclusive o protestantismo.  Bom lembrar que no século XVII, ainda que já houvesse muitos livros publicados, eles eram caros e não estavam ao alcance de qualquer pessoa.  A biblioteca de Abel tinha obras jurídicas, de língua e literaturas antigas; obras dos grandes humanistas da Renascença (Erasmo, Rabelais) e alguns livros que mostravam interesse pelas ciências. Há conhecidos trabalhos protestantes de François de la Noue, George Buchanan,  Pierre de La Ramée, Pierre Hamon e Philippe Duplessis-Mornay.  Essas obras sugerem que na sua juventude o pai de Savinien esteve rodeado por huguenotes.  Mas também estão lá duas Bíblias, um Novo Testamento e um livro de orações a São Basílio em grego. Assim é possível assumir que Sevinien tenha tido uma boa e sólida instrução em casa.

 

 

cyrano Etienne Jehandier DesrochersCyrano de Bergerac

Étienne-Jehandier Desrochers (1668 – 1741)

Gravura, de quadro a óleo

 

A família sai de Paris para Bergerac por volta de 1620, quando Savinien era bebê.  Sua educação portanto foi dada pelo ensino paroquial. Não se sabe exatamente quando ele chega a Paris para prosseguir com os estudos.  Permanece na casa de conhecidos de seus pais, talvez até na casa de seu tio Samuel de Cyrano, mas não se sabe ao certo que escola frequentou: se o Collège de Beauvais ou o Collège de Lisieux.  Em 1636, quando Savinien está com quinze-dezesseis anos,  seu pai vende a propriedade em Bergerac e retorna a Paris. Por volta de 1639, Savinien se enlista na Guarde, onde serve nas campanhas de 1639 e 1640.  Membro da pequena nobreza, Savinien ficou conhecido por sua habilidade com a espada e por gabar-se disso. Acredita-se que deixou a carreira militar para voltar a Paris dedicar-se à produção literária.

 

Savinien_de_Cyrano_de_BergeracRetrato de Cyrano, desenhado e gravado por artista anônimo, baseado em obra de Zacharie Heince, 1654.

 

 

As obras de Cyrano de Bergerac,  L’Autre Monde: ou les États et Empires de la Lune (“História cômica dos Estados e Impérios da Lua”), publicada postumamente em 1657 e Les États et Empires du Soleil (“Os Estados e Impérios do Sol”) em 1662, são clássicos como primeiras obras de ficção científica.  No primeiro livro, Cyrano viaja  à lua,  usando um foguete com uma cabine impulsionado por fogos de artifício (rojões) e lá se encontra com habitantes de 4 pernas, com armas que atiram na caça e as cozinham, assim como brincos que educam crianças.   Mistura ciência e romance nessas obras e elas eventualmente servem de exemplo para obras de seus sucessores, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe, Voltaire.

Contemporâneo do grande dramaturgo francês Molière, Cyrano não vive para ver seu compatriota pegar emprestado algumas de suas ideias da obra Le Pédant joué, que também serve de fonte de ideias para outra estrela literária francesa: Corneille.

 

Obra:

Le Ministre d’Estat flambé en vers burlesques [O  ministro de Estadi assado em verso cômico], 1649.

 

 La Mort d’Agrippine, tragédie, par Mr de Cyrano Bergerac, 1654  [A morte de Agrippina, tragédia]

Les Œuvres diverses de Mr de Cyrano Bergerac [Obras diversas do Senhor Cyrano Bergerac] 1654

Histoire comique par Monsieur de Cyrano Bergerac contenant les Estats & Empires de la Lune [História cômica incluindo os Estados e Imperios da Lua], 1657

Les Nouvelles œuvres de Monsieur de Cyrano Bergerac. Contenant l’Histoire comique des Estats et Empires du Soleil, plusieurs lettres et autres pièces divertissantes [As novas obras do Sr. Cyrano Bergerac. Incluindo A história cômica dos Estados e Impérios do Sol, diversas cartas e outras peças de divertimento], 1662.

Les œuvres diverses de M. Cyrano de Bergerac [ Obras diversas do Sr. Cyrano de Bergerac], 1709

 

Aqui algumas ilustrações em sua obra:

 

1657 - Portada 1662

 

1657_ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil_

 

1657__ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil _

 

1657__ Le parlement des oiseaux des Etats et Empires du soleil_

 

travelling to the moon

 

 





Minutos de sabedoria: Giàcomo Leopardi

7 03 2019

 

 

Marie Spartali Stillman (1844 – 1927) Beatrice, 1895Beatriz, 1895

Marie Spartali Stillman ( Grécia/ Inglaterra, 1844 – 1927)

aquarela, guache, têmpera sobre papel, 57 x 43 cm

Museu de Arte de Delaware, EUA

 

 

 

“A paciência é a mais heroica das virtudes, justamente por não ter nenhuma aparência heroica.”

 

 

Giàcomo Leopardi

 

 

260px-Leopardi,_Giacomo_(1798-1837)_-_ritr._A_Ferrazzi,_Recanati,_casa_LeopardiGiàcomo Leopardi (1798-1837)

 

 

 

 





Indiferença, poesia de Guilherme de Almeida

21 02 2019

 

 

 

95ebef1a8428ae23f80bdbcb6b241453Ilustração de Coby Whitmore

 

 

Indiferença

 

Guilherme de Almeida

 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!





Poesia infantil: Casamento Perfumado, de Antônio Gedeão

11 02 2019

 

 

 

Primavera Better Homes and Gardens 1929-07Primavera, capa da Revista Better Homes & Gardens, julho 1929.

 

 

 

Casamento Perfumado

 

Antônio Gedeão

 

Queria certa donzela

de olfato bem apurado

que o seu casamento fosse

de sempre o mais perfumado.

Seu nome era Rosa Branca

Cravo Vermelho seu noivo

madrinha, D. Açucena,

padrinho, o senhor D. Goivo.

Sua grinalda enfeitou

com flores de laranjeira

e na sua mão levou

um ramo de erva cidreira.

Seus pajens, os Manjericos;

Violetas, suas aias,

seu pai, o senhor Junquilho

Madressilva em lindas saias.

Veio dizer a cozinheira

que ía tudo perfumar:

“trago salsa e hortelã

para pôr no seu jantar.

Que belo aroma que dão

a canela e o coco

para perfumar os bolos

vou juntar vinho do Porto.

A bela Erva-Luísa

veio para servir o chá

como é toda perfumada

que belo jeito me dá.

Diga-me lá D. Rosa,

se mais perfumes deseja.”

Haverá um casamento

que mais perfumado seja?

 

Em: Obra Poética, António Gedeão, Edições JSC, Lisboa: 2001





Trova do sorriso

14 01 2019

 

 

 

chapéu de palha, bradshaw crandellMoça com chapéu de palha, Ilustração de Bradshaw Crandell

 

 

 

Conheço muito sorriso

de mulher, meigo, simplório,

que promete o paraíso

e nos manda ao purgatório.

 
(Alves Júnior)