Resenha: “A Uruguaia” de Pedro Mairal

20 02 2020

 

 

 

Joaquin_Torres_Garcia_-_PinturaTabac, 1928

Joaquin Torres Garcia (Uruguai, 1874 –  1949)

óleo sobre  cartão,  52 x 73 cm

Museu de Artes Visuais do Uruguai

 

 

Há algum tempo coleciono pequenos romances, de preferência  de cento e cinquenta a duzentas páginas, cuja brevidade narrativa não esvazia a densidade literária.  A uruguaia, romance do argentino Pedro Mairal, preenche esses requisitos e depois  de lido achou um lugar especial entre outras obras do gênero:  O fuzil de caça  de Yasushi Inoue  e  A vida peculiar de um a carteiro solitário, de Denis Thériault.

Talvez seja uma das narrativas mais masculinas que li nos últimos tempos. O que isso quer dizer?  O ponto de vista e a maneira de contar são explicitamente masculinos.  Trata-se da história de um homem, num casamento que perdeu a paixão, frustrado profissionalmente, mantido pela mulher, que usa um pagamento antecipado de editoras sobre dois de seus livros  — ele é escritor — para sair de Buenos Aires, ir a Montevidéu, fazer uma operação de câmbio que só faz sentido na América Latina e  mais ainda na volúvel economia argentina.  Ele sai de manhã em direção a Montevidéu para efetuar a  transação bancária programada, enquanto secretamente nutre o desejo de se encontrar com Magali, “Maga”, jovem que o encantara meses antes, num evento literário no Uruguai e que desde então tem preenchido suas fantasias românticas.

 

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Volta para casa dezessete horas depois.  Neste meio tempo, enquanto viaja, nós também somos levados por ele através do tempo, aprendendo sobre seu casamento, filho, profissão, Magali,  o cotidiano em Buenos Aires e ausência de criatividade que o assola.  Também ficamos cientes de suas fantasias sexuais e do que planeja fazer ao encontrar a jovem uruguaia que o enfeitiçara. Nem por isso  deixamos de nos surpreender com os eventos.  Há um pequeno gosto de mistério nesta história.

Pedro Mairal desenvolve uma narrativa densa, clara, direta que encanta o leitor, levado pela mão a acompanhá-lo.  Repleto de referências à livros, escritores,  à  cena literária e cultural,  à música, com fino humor e destro gerenciamento, ele enriquece em muito o que em mãos menos hábeis não passaria de uma pequena aventura, de uma malandrice literária. Apesar de trabalhar seu texto incessantemente para chegar à clareza apesar da complexa linha narrativa, a leitura de A uruguaia é rápida, agradável e insinuante.

 

Pedro-MairalPedro Mairal

Por suas  constantes referências aos escritores argentinos e de outros lugares, Pedro Mairal posiciona sua escrita dentro do panorama literário atual da América Latina e percebemos que é junto a Borges,  Cortazar e outros de semelhante calibre que um dia pretende se encontrar.  Muito justo se continuar assim.

Entendo este ser seu segundo romance.  O primeiro Uma noite com Sabrina Love, que comprei depois de ler este livro, está na pilha para leitura próxima.  Já foi transformado em filme.  Sou fã do cinema argentino.  Filmes argentinos, quase sempre, são maravilhosos com perspectivas únicas sobre casos corriqueiros.  É justamente esse tom que permeia A uruguaia.  Parece roteiro de filme argentino.  E que roteiro!  Excelente leitura.    Recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Metas de leitura para a nova década

6 02 2020

 

 

Livros e Pequeno Pássaro - Kestutis Kasparavicius, Pintor lituano contemporâneo (n.1954)Livros e Pequeno Pássaro

Kestutis Kasparavicius (Lituânia, 1954)

 

 

Então…

Você marcou uma meta de leitura para 2020.  Espero que tenha sido realista.  Se nunca leu um livro por ano, por exemplo, não deve começar com a meta de cinquenta livros.  Seja razoável.  Não se prepare para desapontamento.

Estamos no final de janeiro.  Como você está?  Já desistiu de sua meta?

Espero que não.

O que você precisa fazer…

Reservar um momento para leitura. Tudo tem a ver com separar e proteger aquele momento da leitura.  Vinte minutos por dia. É bom.  É essencial que você reserve esse tempo de leitura. Rigorosamente.  E comece hoje mesmo.  Não deixe para amanhã.

Aos poucos, você sentirá a necessidade dessa leitura.  Você nem vai pensar nos vinte minutos.  Eles já estarão lá, logados na sua agenda.

Para ajudar sugiro que você faça a lista dos livros que quer ler.  Faça-a em letras grandes.  Coloque-a em lugar que você sempre vê.  Por exemplo tire uma foto da lista e coloque-a como screen saver no seu computador.  A cada livro lido, marque nesta lista LIDO…Bem grande.  Sucesso gera sucesso.  Quanto mais livros lidos, mais você se sentirá capaz de terminar com a leitura estipulada na lista. Sua autoestima aumentará.  Anuncia aos amigos.  Anuncie seu sucesso.   Em menos tempo do que imagina, você conseguirá chegar à sua meta.

Mas vinte minutos por dia de manhã e de noite, é  melhor ainda!





O escritor no museu: Graham Greene

31 01 2020

 

 

 

Palliser, Anthony, b.1949; Graham GreeneGraham Greene

Anthony Palliser (GB, 1949)

Óleo sobre tela

National Portrait Gallery, Londres





Brincar de trabalhar, poesia de Renato Sêneca Fleury

30 01 2020

 

 

 

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Brincar de trabalhar

 

Renato Sêneca Fleury

 

Um brinquedo de que eu gosto

é brincar de trabalhar.

Pensam vocês, eu aposto,

que isso não é brincar.

 

Sem a gente perceber,

vai brincando e aprendendo.

Com brinquedos a fazer,

coisas úteis vou fazendo.

 

Eu já fiz a minha estante,

um limpa-pés também fiz.

Tenho brincado bastante,

mas trabalhando… quem diz?





Trova da espera

23 01 2020

 

 

 

espera, Henriette Willebeek Le MairIlustração Henriette Willebeek Le Mair

 

 

O tempo passa voando …

Mentira, posso jurar.

Se estou meu bem esperando,

como ele custa a passar!

 

(Lilinha Fernandes)

 

 





Sou o que leio

22 01 2020

 

 

C. DE GENNARO, A leitura - Oleo sobre cartão - 29x19 cm - ACID Coleção do Professor e Dr. Luiz Fernando da Costa e SilvaA leitura

Caetano de Gennaro (Itália/Brasil, 1890 – 1979)

óleo sobre cartão, 19 x 29 cm

Coleção do Professor e Dr. Luiz Fernando da Costa e Silva

 

 

Sou o que leio

 

Ladyce West

 

Se você notar bem, se me olhar com cuidado, verá que ainda tenho um relógio de bolso que trouxe do País das Maravilhas, onde aprendi a tomar chá com a Rainha de Copas.  Além daquela Alice, fiquei amiga de outra, na fazenda do Boqueirão, que me contou histórias de Teresópolis  enquanto esperávamos por Mário voltar da Europa no Tronco do Ipê.

Alencar, na verdade, é responsável pela Aurélia que vive em mim, mulher desafiadora dos costumes da época que, em Senhora, me ensinou o que é vingança.  De Capitu não tenho nada, mas aprendi com Bentinho, a desconfiar.  Machado deu o nome ao meu cachorro, Quincas. Dancei minha primeira valsa ao lado de Carolina em Paquetá  e me apaixonei pelo Moço Loiro  como Honorina o fez.

Com Lobato aprendi a caçar sacis, visitei a lua, o país da gramática e saboreei os quitutes de Tia Nastácia.  Só não tenho o pó de pirlimpimpim porque Emília não me deixou trazer.

Acompanhando uma Condessa, chorei  calorosas lágrimas pelos Desastres de Sofia e Memórias de um burro; mais ou menos na mesma época em que descobri, nas  Cartas do Meu Moinho, que até um reverendo francês pode morrer de gula e que há tempestades de gafanhotos destruidores, no mundo.

Viajei com Simbad, dei a Volta ao mundo em oitenta dias, fui vinte-mil léguas ao fundo do mar.  Naufraguei e fiquei presa numa ilha com um cara chamado Sexta-feira,  mas também descobri um tesouro, na Ilha de Montecristo, que permitiu vingar-me de um crime contra mim. Fui um dos mosqueteiros da Gasconha e, com um pequeno príncipe, aprendi  “que sou responsável por aquilo que cativo.”

Fui, com mapa na mão, à procura de tesouros numa ilha guiada por Robert Louis Stevenson.  E me aventurei pelas selvas africanas à cata das Minas do Rei Salomão com H. Rider Haggard.

Conheci Numero Um, o filho de Charlie Chan com quem resolvi crimes no Havaí.  Já com Arsène Lupin, andei do outro lado da trilha, à maneira de Ivanhoé, roubando os ricos.  Fui princípe e pobre com Mark Twain e com ele também viajei através do tempo quando fui um Connecticut Yankee na corte do rei Arthur.

Tudo isso antes de completar treze anos.  Depois dos treze é outra história. Os livros ficaram mais complexos, assim como eu.  Como poderia ter tanta experiência com tão pouca idade?  Sabe, sou o que leio.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, Janeiro de 2020

 





Treinando para ser escritor, texto de Paul Auster

21 01 2020

 

 

 

Merrie C. Ligon (EUA) O leitor, aquarela sobre papelO leitor

Merrie C. Ligon (EUA, contemporânea)

aquarela sobre papel

 

 

“Naqueles três anos como aluno do ensino médio nos subúrbios de Nova Jersey, Ferguson de dezesseis, dezessete e dezoito anos começou a escrever vinte e sete contos, terminou dezenove e passou não menos de uma hora por dia com o que chamava de seus cadernos de trabalho, que ia enchendo com diversos exercícios de escrita que inventava para si mesmo, a fim de manter a forma, afiar a pegada e tentar melhorar (como ele disse certa vez para Amy): descrições de objetos físicos, paisagens, céus no amanhecer, rostos humanos, animais, o efeito da luz na neve, o barulho da chuva no vidro, o cheiro de madeira queimada, a sensação de andar na neblina e ouvir o vento soprar entre os galhos das árvores; monólogos na voz de outras pessoas a fim de se transformar naquelas pessoas ou, pelo menos, tentar entendê-las melhor (o pai, a mãe, o padrasto, Amy, Noah, seus professores, seus colegas de colégio,o sr. e a sra Federman), mas também pessoas desconhecidas e mas distantes, como J. S. Bach, Franz Kafka, a garota do caixa do supermercado local, o cobrador da Companhia Ferroviária Erie Lackawanna, o mendigo barbado que lhe pediu um dólar na Grand Central Station; imitações de admirados, rigorosos, inimitáveis escritores do passado (pegue um paragrafo de Hawthorne, por exemplo, e componha algo baseado no seu modelo sintático, usando um verbo nos lugares onde ele usava um verbo, um substantivo nos lugares onde ele usava um substantivo, um adjetivo nos lugares onde ele usava um adjetivo — a fim de sentir o ritmo nos ossos, sentir como se forma a música); uma sequência curiosa de vinhetas geradas por trocadilhos, homonímias e deslocamento de uma letra: óleo/olho, luxo/luto, alma/lama; porto/morto e arroubos impetuosos de escrita automática, a fim de limpar o cérebro, toda vez que estiver se sentindo tolhido, como um jorro de escrita de quatro páginas inspirada pela palavra “nômade”, que começava assim: Não, eu não estou doido. Não estou nem zangado, mas me dê uma chance para desnortear você e num instante eu vou te deixar com os bolsos vazios. Também escreveu uma peça em um ato, que ele queimou de desgosto uma semana depois de terminar, e vinte e três poemas que estavam entre os mais nojentos que qualquer cidadão do Novo Mundo jamais viu e que ele rasgou depois de jurar para si mesmo que nunca mais ia escrever poemas. No geral, detestava o que escrevia.  No geral, achava que era burro e sem talento e que jamais conseguiria escrever nada, mesmo assim insistia, se esforçava a se dedicar àquilo todos os dias, apesar dos resultados muitas vezes decepcionantes, entendia que não haveria esperança para ele, a menos que persistisse, que para ser o escritor que almejava levaria anos, mais anos do que seu próprio corpo levaria para terminar de crescer, e toda vez que escrevia algo que parecia ligeiramente menos ruim do que o texto que tinha escrito antes, Ferguson achava que estava progredindo, ainda que o texto seguinte se revelasse uma abominação, pois a verdade era que ele não tinha opção, estava destinado a fazer aquilo ou então morrer, porque, apesar de seus esforços e de seu descontentamento com as coisas mortas que muitas vezes saíam dele, fazer aquilo lhe dava a sensação de estar vivo, mais do que qualquer outra coisa que já tinha feito na vida, e quando as palavras começavam a cantar em seus ouvidos e ele se sentava diante da escrivaninha e empunhava a caneta ou colocava os dedos nas teclas da máquina de escrever, sentia-se nu, nu e exposto ao vasto mundo que passava em disparada na sua frente, e nada dava uma sensação melhor do que isso, nada podia se equiparar à sensação de desaparecer de si mesmo e entrar no vasto mundo cantarolando, por dentro, as palavras que cantarolava, no interior de sua cabeça.”

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 431-432

 

 





A fonte da mata, poesia de Hermes Fontes

14 01 2020

 

 

9c67715aa8448f5a02a8198b928fa1f2--watercolour-techniques-watercolour-tutorialsAutoria desconhecida.

 

 

A fonte da mata

 

Hermes Fontes

 

Depois de longa ausência e penosa distância,

vi a fonte da mata,

de cuja água bebi, na minha infância.

 

E que melancolia

nessa emoção tão grata!

 

Ver — constância das coisas, na inconstância…

ver que a Poesia é uma segunda infância,

e que toda Poesia…

 

Vem da fonte da mata…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 157.

 

 





Trova do cigano

13 01 2020

 

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Pelas ruas da ilusão,

o cigano libertino,

lendo o destino na mão,

vive na mão do destino.

 

(Hegel Pontes)





O xale da avozinha, poesia de Stella Leonardos

11 01 2020

 

 

 

MARIA VASCO (1879-1965). Contemplando a Paisagem, aquarela, 35 X 25.Contemplando a Paisagem

Maria Vasco  (Brasil, 1879-1965)

aquarela, 35 X 25 cm

 

 

O xale da avozinha

 

Stella Leonardos

 

Ela foi. Não volta mais.

Entre as relíquias saudosas

Seu xale.  Dos orientais.

Mil e uma noites sedosas.

Xale cheio de gazais,

De rouxinóis e de rosas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ela que não sofre mais

O peso de horas penosas,

Ela que amava os gazais

E as noite maravilhosas

— Quem sabe descansa em paz

Entre os rouxinóis e as rosas.

 

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 65