A borboleta azul, poesia infantil de Cleonice Rainho

27 02 2023

 

 

A borboleta azul

 

Cleonice Rainho

 

Nosso jardim é uma festa

de borboletas:

pequenas e grandes,

listradas,

amarelas e pretas

e uma pintadinha

que é uma graça.

 

Mas a azul, azulzinha,

a preferida,

é como se fosse

minha filhinha:

vi-a nascer da lagarta,

virou crisálida,

depois borboleta.

 

Quando voou

pela primeira vez

bati palmas: Vivô!!!

 

Voa e volta leve,

azul, azulzinha

e pousa num cacho

de rosas brancas

sua casinha.

 

Às vezes se ajeita,

mansinha,

tomando a forma

de um coração.

 

Seu corpo sedoso,

macio,

parece vestido

com pano do céu.





O escritor no museu: Ernest Hemingway

27 02 2023

Ernest Hemingway, 2019

Raymond Logan (EUA, 1978)

óleo sobre tela,  20 x 20 cm





Passa uma borboleta, poesia de Alberto Caeiro

23 02 2023
Ilustração Hilda T. Miller

 

Passa uma Borboleta

 

 

Alberto Caeiro

 

 

 

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

 

 

 

 

Em: O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa, [Poemas de Alberto Caeiro], 10ª edição, Lisboa, Ática:1993, p. 64





Trova de carnaval

21 02 2023
Fantasia de cavalo de corrida.

 

Carnaval: dança e alegrias,

que têm o dom surpreendente

de sepultar, por três dias,

todas as mágoas da gente!

 

(P. de Petrus)





Trova de Carnaval

19 02 2023
Lampadinha lembra ao Professor Pardal que já é Carnaval,  ilustração Disney Studio.

 

Assustado, constatou,

após dias de folia,

que a bruxa de quem gostou

não usava fantasia.

 

(Maria Bicalho Brandt)

 





Trova de Carnaval

18 02 2023
Crianças fantasiadas, ilustração J. Bernard Long

 

Para que um carnaval

com três dias de folia,

pois se a vida é afinal,

grande baile à fantasia?

 

(Renato Vieira da Silva)

 





Dos medos de conhecer o escritor, texto de Olga Tokarczuk

16 02 2023

Jovem lendo

Ann Brockman (EUA, 1899-1943)

óleo sobre tela

 

 

“A escritora costumava vir em maio,num carro carregado até o teto de livros e comida exótica. […] Se eu a conhecesse um  pouco menos, certamente leria seus livros.  Mas por conhecê-la, tinha medo de os ler. Era possível que eu me achasse neles, de uma forma que não conseguiria entender? Ou os lugares que amo seriam completamente diferentes do que são para mim? De alguma forma as pessoas como ela, que dominam a escrita, costumam ser perigosas.  Logo levantam suspeitas de falsidade — que não são elas mesmas, mas um olho que está sempre observando, e transformando em frases tudo o que observa; assim retira da realidade a sua qualidade mais importante — sua inexpressividade.”

 

Em: Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk, tradução de Olga Baginska-Shinzato,  São Paulo, Todavia: 2020, p.54





Curiosidade literária

13 02 2023

Última página

Mate Ferge (Hungria, radicado na Áustria,  1979)

óleo sobre tela

 

 

 

O escritor inglês, da época da rainha Vitória, Thomas Carlyle (1795-1881) emprestou, em 1835, a primeira versão do livro que escrevera, A revolução  francesa, para seu conterrâneo, amigo e filósofo John Stuart Mill (1806 -1873).  Quando Carlyle voltou a Londres para pegar o manuscrito com o amigo, soube que o documento havia sido queimado acidentalmente.  Por incrível que  possa parecer, Carlyle voltou para casa e imediatamente de pôs a escrever todas as 800 páginas de novo e publicou o livro, de grande sucesso, em 1837.

 





Trova da morte

9 02 2023

Ilustração francesa de conto de fadas.

Sem resposta que conforte,

dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?

Fim? Partida? Porto? Porta?

(Alonso Rocha)





Carnaval, texto de Marques Rebêlo

6 02 2023

Claudio Faciolli - Carnaval no Rio de Janeiro - o.s.e - ass. c.i.e - datado de 2010 med 46x61 cmCarnaval no Rio de Janeiro, 2010

Claudio Faciolli (Brasil, 1955)

óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm

[25 de fevereiro de 1938]

“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço),  e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:

— Vamos, vovó!

A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:

— Bofe por bofe, este não é antediluviano…

Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.

Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:

— Oh, que pena!

Clotilde era imitativa:

— Deixe eu cheirar um pouco.

— Para quê?  Bobagem!

— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!

— Não cheira não.

— Uma prise só…

Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:

— Não convence não.

Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.

— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…

— Dane-se!”

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  p. 347-348.