Pomares de limoeiros na Itália, texto de Barbara Pym

29 10 2023

Coleção cítrica dos Medici, 1715

Espécies de limões e laranjas [DETALHE]

Bartolomeu Bimbi (Itália, 1648-1723)

Óleo sobre tela

Hoje, Palácio Pitti, Florença

 

 

 

“Ianthe ficou aliviada quando a levaram para o seu quarto e a deixaram sozinha para desfazer as malas. Saiu para a varandinha um tanto nervosa, achando que não parecia muito segura,e olhou para baixo para bosques de limoeiros. As árvores eram todas emaranhadas, deixando os frutos quase escondidos, mas Ianthe pode sentir que havia centenas, talvez milhares de limões pendendo entre as folhas. Todos aqueles limões, pensou, a enfermeira Dew diria que eles quase lhe davam arrepios. Para além dos bosques de limoeiros, pode enxergar o mar, o que a reconfortou, pois além do mar ficavam a Inglaterra, a sua casinha, a biblioteca e John.”

 

 

Em: Uma relação imprópria, Barbara Pym, tradução de Isabel Paquet de Araripe, Rio de Janeiro, Editora Record: 1982, p. 143

 

 

 

 





Dois haikais de Primavera de Guilherme de Almeida

24 10 2023

Glicínia em flor

Da série: Flores da Primavera

Yushi Osuga (Japão, 1946-1970)

xilogravura policromada

 

 

 

CHUVA DE PRIMAVERA

 

Vê como se atraem

nos fios os pingos frios!

E juntam-se. E caem.

 

 

 

FESTA MÓVEL

 

Nós dois? – Não me lembro.

Quando era que a primavera

caía em setembro?

 





Trova da esperança

23 10 2023

Neste mundo que nos cansa

tanta maldade se vê,

que a gente tem esperança

mas já nem sabe de quê…

 

(José Maria Machado de Araújo)

 

 





Uma sinopse intragável de editora brasileira de prestígio

20 10 2023

Moça de amarelo, 1936

Hilda Campofiorito (Brasil, 1901-1997)

óleo sobre tela

Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

 

Foi com grande choque que li esta semana a sinopse do livro Nana, de Émile Zola, publicado pela Editora Civilização Brasileira, nos dias de hoje parte do grupo Grupo Editorial Record, publicado em 2013, com tradução de Marcela Vieira.   ISBN: 978-85-200-1121-8

Nana é um clássico da literatura francesa, uma das grandes obras do escritor Émile Zola.  Esta obra não merece a sinopse escrita e publicada no site da editora, que reproduzo aqui, abaixo.  É um desserviço  aos leitores brasileiros e foge à  minha capacidade de compreensão como uma editora  de peso no Brasil deixa passar essa descrição.    Os grifos são meus.

“Sinopse

Naná é um dos romances mais conhecidos de Émile Zola. A personagem-título é a primeira periguete dos palcos, a grande vagabunda que alcança o maior sucesso na ribalta social, apesar de – ou talvez justamente por – ser desprovida de qualquer talento artístico. Filha de pai alcoólatra e de uma lavadeira, Naná é uma atriz de teatro medíocre, mas com um corpo de Vênus e uma sexualidade à flor da pele. É o tipo perfeito da prostituta de luxo, uma cortesã da alta sociedade francesa dos tempos do Segundo Império que enriquece à custa do comércio carnal.”

 

 

A intenção dessa descrição é uma das coisas que não consigo entender.  Quem aprovou isso?  Era empregado pago pela editora?  Porque evidentemente não sabia o que estava fazendo.  Teve a aprovação de quem?  E por quê?  Coloco abaixo duas outras sinopses do mesmo livro que, estando em domínio público, tem um maior número de edições.

 

Sinopse da Editora Nova Cultural, livro publicado em 2011:

 

“Integrante de um ciclo de vinte romances, Naná descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.”

 

Sinopse da editora LEBOOKS, aqui abaixo:

 

“Naná é um romance escrito pelo autor naturalista francês, Émile Zola. Finalizado em 1880, Naná é o nono volume da série: “Os Rougon-Macquart” (Les Rougon-Macquart), cujo objetivo era descrever a “História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império”.  Naná, a protagonista título, pode ser considerada uma das primeiras vilãs da literatura, bem como a primeira “Femme Fatale”. Medíocre artista de teatro, mas com um corpo de Vênus e uma sexualidade desequilibrada e vulcânica, ela torna-se o tipo perfeito da prostituta de luxo, uma cortesã da sociedade francesa. Naná é um clássico da literatura e presença constante nas listas das melhores obras literárias, como é caso da famosa coletânea: “1001 Livros para ler antes de morrer”

 

E para contrastar, a sinopse da Editora Bertrand de Portugal, selo Relógio d’Água, edição de 2019

 

“Nana é um dos principais romances de Émile Zola. Nascida no meio operário, filha de um pai alcoólico e de uma lavadeira, Nana precisa de dinheiro para criar o filho que teve aos dezasseis anos de um pai desconhecido. Medíocre artista de teatro, prostitui-se para compor o ordenado ao fim do mês. A sua ascensão social começa com o papel de Vénus, que vai interpretar num teatro parisiense. Não sabe cantar, mas as suas roupas impudicas e a sexualidade intensa atraem os homens e permitem-lhe viver num apartamento luxuoso, onde foi instalada por um rico comerciante de Moscovo.

Nana vai tornar-se um exemplo de prostituta de luxo, da cortesã francesa do Segundo Império. Alcança a riqueza, afirma-se nos meios da aristocracia e da finança, reinando no seu palacete da avenida de Villiers, assumindo a mais completa liberdade entre móveis de laca branca e perfumes perturbadores. É assim que Nana dissipa heranças e mergulha famílias no desespero, exercendo o seu poder sobre os homens, desferindo golpes devastadores numa sociedade corrupta que despreza e de que acabará por ser vítima.”

 

Definitivamente estão trabalhando contra a cultura no Brasil. Quando comparo as sinopse, sinto vergonha do descaso do Grupo Editorial Record para com leitores brasileiros.  Que vergonha”

 

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2023

 





Curiosidade literária

9 10 2023

A leitura, c. 1760

Pierre Antoine Baudouin (França, 1723-1769)

guache sobre papel

Museu de Artes Decorativas, Paris

 

 

 

Em sua noite de núpcias, Tolstoy, aos trinta e quatro anos, forçou sua noiva de dezoito anos, a ler seu diário com detalhadas descrições de suas aventuras sexuais com outras mulheres, inclusive com mulheres serviçais. Aparentemente essa era sua ideia de abertura e honestidade, mas foi informação demais, de acordo com Sonya.  No dia seguinte, ela escreveu em seu diário sobre o nojo que sentiu ao ser submetida a tanta imundície.

 

Tradução: Ladyce West

 

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On their wedding night, thirty-four-year-old Tolstoy forced his eighteen-year-old bride to read his diary accounts detailing his sexual escapades with other women, including female serfs. Apparently, that was his idea of openness and honesty, but it was “T.M.I.” as far as Sonya was concerned. The next day, she wrote in her diary of the disgust she felt at being subjected to such “filth.”

 


Secret Lives of Great Authors: What Your Teachers Never Told You about Famous Novelists, Poets, and Playwrights, Robert Schnakenberg, Quirk Books: 2008

 

 

 





Trova de São Francisco

4 10 2023

 

 

Adelson do Prado (1944) Arca de Noé (1978) Óleo sobre tela 27 x 33 cmArca de Noé, 1978

Adelson do Prado (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 29 x 33 cm

 

 

Defendei, meu São Francisco,

os cachorrinhos e os gatos.

Protegei-os contra o risco

do abandono e dos maus-tratos.

 
(A. A. de Assis)





O estilo do grilo, poesia infantil de Luiz Infante

3 10 2023
Ilustração de Nina Tenser

O estilo do grilo

 

Luiz Infante

 

Era uma vez um grilo

que morava numa gaiola

em grande estilo.

De cri-cri em cri-cri

Foi vivendo tranquilo

A comer alface ao quilo,

Quase tão voraz

Como qualquer esquilo.

Respondendo ao protesto

Sobre o ruído que fazia,

Disse com ironia

“Se era silêncio que queria

Era só pedi-lo,

Que um grilo não é

Uma telefonia”

 

 

Em: Poemas Pequeninos para Meninas e Meninos, Luiz Infante, V. N. de Gaia: Gailivro: 2003, p 40





Curiosidade literária

2 10 2023
Página de Frontispício de Milton, Um Poema, por William Blake, c. 1818

 

 

Pena que a maioria dos poetas ou escritores não conheçam a influência de seu legado.  John Milton (1608-1674), poeta, intelectual inglês, estaria satisfeito em saber que suas ideias serviriam de fundamento para nossa vida diária, hoje, no século XXI.  Milton é mais conhecido por seu poema em verso livre Paraíso Perdido. Mas foram suas ideias publicadas, no auge da Guerra Civil na Inglaterra, em Areopagítica, 1644, que fazem parte do nosso dia a dia.   Areopagítica, um discurso a favor da liberdade de expressão, foi a pedra fundamental para a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, escrita em 1787 e em uso desde 1789 que garante a liberdade de expressão, hoje considerada um direito essencial nos países livres de governos autoritários.





Trova dos pirilampos

29 09 2023

Vou brincar com pirilampos

e beijar as flores nuas

pra ver se encontro nos campos

a paz que fugiu das ruas!

 

 

(José Lucas de Barros)





Primavera: Christina Rossetti

22 09 2023

Rosas e jasmins em vaso de Delft, 1881

Auguste Renoir (França,1841-1919)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Hermitage, São Petersburgo

 

 

 

“O que pesa? a areia da praia e a tristeza.

O que é breve? o hoje e o amanhã.

O que é frágil? flores da primavera e a juventude

O que é profundo? o oceano e a verdade”

 

 

Christina Rossetti (1830-1894)

 

{Tradução: Ladyce West]

 

 

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“What are heavy? sea-sand and sorrow.
What are brief? today and tomorrow.
What are frail? spring blossoms and youth.
What are deep? the ocean and truth.”
― Christina Rossetti