Falta um mês para o Natal!

16 11 2024
Livro na Amazon em dois formatos: papel e eletrônico

 

Dá tempo de comprar e surpreender quem receber este presente!





Minuto de sabedoria: Blaise Pascal

15 11 2024

Homem lendo

Joseph Lorusso (EUA, 1964)

óleo sobre placa, 29 x 29 cm

 

O presente inexistente

 

Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.



Blaise Pascal, in “Pensamentos”

 

(Blaise Pascal, 1623-1662)





Trova da arte

14 11 2024
Ilustração Walt Disney

 

Um sorriso em um semblante,

um quarto, uma ceia, um grito…

Arte é o que faz de um instante

um resumo… do infinito.

 

(Sérgio Ferreira da Silva)





Poema “Moreninha” de Casimiro de Abreu

13 11 2024

A florista

Clodoaldo Martins (Brasil, 1985)

óleo sobre tela, 64 x 76 cm

 

 

Moreninha

 

Casimiro de Abreu

 

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Quando tu passas n’aldeia
Diz o povo à boca cheia:
– “Mulher mais linda não há
“Ai! vejam como é bonita
“Co’as tranças presas na fita,
“Co’as flores no samburá! –

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena – não tens rival!

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t’iguala ou t’imita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te… parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!

Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:

– “Oh quem me compra estas flores?
“São lindas como os amores,
“Tão belas não há assim;
“Foram banhadas de orvalho,
“São flores do meu serralho,
“Colhi-as no meu jardim.” –

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!…

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
– Como tu ficas bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Eu disse então: – “Meus amores,
“Deixa mirar tuas flores,
“Deixa perfumes sentir!”
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta…
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?…

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia –
Como mais linda não há.
– Jesus! Como eras bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

 

 

Indaiassú – 1857





“Dona Santa” poesia de Olavo Nunes

11 11 2024
Ilustração de Frederick Richardson, 1975

 

 

Dona Santa

 

Olavo Nunes   (1871-1942)

 

Quando ela passa, risonha e pura,

De arzinho honesto, cheia de graça…

Todos murmuram: Que formosura!…

Quando ela passa…

 

Flores rebentam pelo caminho

Sob os pezinhos que a bota enlaça;

Beijos se escutam de ninho a ninho,

Quando ela passa…

 

Seguem-na olhares cheios de gula

Como os da fera fitando a caça,

Olhares meigos que amor açula,

Quando ela passa…

 

Boca vermelha que o riso enflora

Cintura fina que um dedo abraça,

Parece ver-se Nossa Senhora,

Quando ela passa…

 

À luz dos olhos dessa menina

Deserta o pranto, foge a desgraça;

Com grande afeto tudo se inclina,

Quando ela passa…

 

Sombrero alegre, cheio de fita,

Vestido leve de fina cassa,

Gosto de vê-la assim tão bonita,

Quando ela passa…

 

Trinulam aves pelas umbrosas

Ramas que o vento no alto entrelaça,

E abelhas d’oiro desfolham rosas,

Quando ela passa…

 

Quando ela passa, risonha e pura,

De arzinho honesto, cheia de graça…

Todos murmuram: Que formosura!…

Quando ela passa…

 

Em: Coelho Netto e a Mina Literária, Imprensa de Alfredo Silva, Pará: 1899, pp 34-36





História de tia Bilu, texto de Josué Montello

7 11 2024
Ilustração Veronica V. Jones.

 

 

 

“Eu, desde que me conheço, sempre gostei de ouvir histórias. Tenho mesmo a impressão de que foi para ouvi-las, e para contá-las, que nasci. As histórias, além de darem mais vida ao mundo em que vivemos, nos fazem viver outras emoções e outras experiências, mesmo quando a imaginação do contador de histórias enfeita de fadas e bruxas, os mais belos contos.

Mais tarde, se não era mais menino para ouvir histórias, passei a lê-las nos livros, sabendo que o livro é um companheiro, sempre que o tiramos da estante para que nos diga em silêncio o que  tem para nos contar ou ensinar.”

 

 

Em: O carrasco que era santo: (a mais bela história de tia Bilu), Josué Montello, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1994. pp. 2-3





Resenha: “Almoço de domingo”, José Luís Peixoto

5 11 2024

Senhora lendo

Ady de Lannay (Bélgica, 1900-1942)

óleo sobre tela

 

 

Em um grupo de escritores a que pertenço conversamos algumas vezes sobre biografias, como escrevê-las, se são ou não ficção, se queremos ou não ser ghost writers, se precisamos ter alguma empatia para com a pessoa biografada, e até que ponto biografias são ficção.  Não chegamos a qualquer conclusão nessas conversas, mas é uma temática interessante para quem escolhe a carreira de escritor.

José Luís Peixoto, no livro Almoço de domingo, abraça a oportunidade de biografar um empresário português, um milionário, que apesar de ser da região do Alentejo, a mesma do escritor, não se conheciam.  O comendador Rui Nabeiro tem de fato uma história magnifica de crescimento e sucesso da venda de café à expansão para vinícolas e depois ainda maior diversidade em outras áreas de negócios. Imagino que dadas as devidas proporções poderia ser equivalente a história de um Abílio Diniz aqui no Brasil.

 

 

Este foi o terceiro livro de José Luis Peixoto que li.  O primeiro, um livro chamado Livro, me encantou sobremaneira. Uma escrita exemplar na criatividade, sem chegar a extremos em busca da novidade. Li, anos mais tarde Nenhum olhar, completamente diferente, encantador, onírico e asfixiante,  Ambas as resenhas se encontram neste blog, e também nos sites Skoob e Goodreads.   E agora, Almoço de domingo traz outra faceta do autor, que tendo sido contratado para esta biografia, consegue inovar substancialmente a forma, usando de subterfúgio engenhoso.

A vida de Rui Nabeiro, (seu sobrenome não é nunca usado) conhecemo-lo simplesmente como Rui, é narrada em duas vozes. A onírica, na primeira pessoa, usa de toda a imaginação de Peixoto e compõe  os pensamentos, emoções de Rui, enquanto a voz narrativa, a que nos revela a história do personagem principal, é objetiva e precisa.  As duas vozes se misturam sem criar qualquer problema e como resultado temos uma visão tridimensional do personagem principal.  Sabemos de seus pensamentos e sonhos assim como de suas ações e os motivos delas serem executadas.

 

 

 

José Luís Peixoto

 

Em nenhum momento a narrativa se arrasta. O ritmo é preciso e cobre em um pouco mais de duzentos e cinquenta páginas os noventa anos do biografado. Dos três livros que li de José Luís Peixoto este não é o meu favorito.  Mas confesso ter grande apreço pela maneira como o autor resolveu a difícil tarefa de fazer uma biografia para um público geral de uma pessoa desconhecida além das fronteiras portuguesas, e ainda assim conseguir seduzir o leitor a ler com gosto a obra.

Àqueles que acreditam um dia escreverem a biografia de quem quer que seja, recomendo a leitura não só como exemplo de criatividade mas sobretudo na seriedade com que a forma da biografia é tratada.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Dia de Finados: 2 de novembro

2 11 2024

O enterro de Atala, 1808

Anne-Louis Girodet (França, 1767-1824)

óleo sobre tela, 207 x 267 cm

Louvre

 

 

Dia de Finados

 

Juvenal Galeno

 

Hoje, Dia de Finados,

Às campas os vivos vão

Aos mortos render menagem;

Mas, com certa ostentação…

E eu visito um cemitério

Dentro do meu coração.

 

Ai, nele, quantos sepulcros,

Quantas cruzes no seu chão:

Amores da primavera,

Amores do meu verão,

Que em meu outono revejo

Dentro do meu coração.

 

Quantas florinhas fanadas,

Ai, murchas ‘inda em botão;

Quanta esperança perdida,

Ai, quanta morta ilusão…

Aqui todas sepultadas

Dentro do meu coração.

 

E quantas cruzes de amigos,

Lembrando dedicação;

De amigos que me deixaram

Chorando na solidão,

Neste triste cemitério,

Dentro do meu coração.

 

Onde cultivo flores,

Eis minha consolação;

A saudade, a sempre-viva,

Perpétua recordação,

Para enfeitar suas campas,

Dentro do meu coração.

 

E minh’alma ajoelhada

Nesta santa região,

Entoa sentidas preces

Da mais pura devoção,

Entre ciprestes e cruzes,

Dentro do meu coração.

 

 

Ceará, 2 de novembro de 1904





Tomates, poema de Fabrício Corsaletti

30 10 2024

Tomates no saco plástico, 2009

Renato Meziat (Brasil, 1952)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

Tomates

 

 Fabrício Corsaletti

 

os tomates

fervendo na panela

meu pai minha mãe

na sala televisão

fiquei olhando

os tomates

estava frio o bafo

quente dos tomates

esquentava as mãos

 

 

saía da panela

já naquele dia

um cheiro

forte de passado





Como preencher o tempo, texto Clive Barker

28 10 2024

Jovem pensativo com crânio, 1898

Paul Cézanne (França, 1839-1906)

óleo sobre tela, 130 x 97 cm

Barnes Foundation

 

 

“O tempo seria precioso, daí em diante. continuaria a passar despercebido, é claro, como sempre, mas Harvey estava determinado a não desperdiçá-lo com suspiros e queixumes. Preencheria cada momento com as estações que encontrara no coração: esperança, como pássaros, nos ramos da Primavera; felicidade como um Sol quente de Verão; magia, como as inesperadas neblinas de Outono. E o melhor de tudo: o amor – amor suficiente para durar mil Natais.” 

 

Clive Barnes (Inglaterra, 1927-2008), The thief of always