A intrigante primeira frase…

21 11 2024

Jovem leitora

Birgit Stern (Alemanha, 1970)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

 

 

“No verão de 1917, Robert Grainier participou da tentativa de assassinato de um operário chinês flagrado roubando, ou pelo menos acusado disso, no armazém da companhia ferroviária Spokane International, na estreita faixa de terra que forma o cabo da frigideira do mapa de Idaho.”

 

Em: Sonhos de trem, Denis Johnson, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, São Paulo, Companhia das Letras: 2012.

 

 





Minuto de sabedoria: Blaise Pascal

15 11 2024

Homem lendo

Joseph Lorusso (EUA, 1964)

óleo sobre placa, 29 x 29 cm

 

O presente inexistente

 

Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.



Blaise Pascal, in “Pensamentos”

 

(Blaise Pascal, 1623-1662)





Resenha: “Almoço de domingo”, José Luís Peixoto

5 11 2024

Senhora lendo

Ady de Lannay (Bélgica, 1900-1942)

óleo sobre tela

 

 

Em um grupo de escritores a que pertenço conversamos algumas vezes sobre biografias, como escrevê-las, se são ou não ficção, se queremos ou não ser ghost writers, se precisamos ter alguma empatia para com a pessoa biografada, e até que ponto biografias são ficção.  Não chegamos a qualquer conclusão nessas conversas, mas é uma temática interessante para quem escolhe a carreira de escritor.

José Luís Peixoto, no livro Almoço de domingo, abraça a oportunidade de biografar um empresário português, um milionário, que apesar de ser da região do Alentejo, a mesma do escritor, não se conheciam.  O comendador Rui Nabeiro tem de fato uma história magnifica de crescimento e sucesso da venda de café à expansão para vinícolas e depois ainda maior diversidade em outras áreas de negócios. Imagino que dadas as devidas proporções poderia ser equivalente a história de um Abílio Diniz aqui no Brasil.

 

 

Este foi o terceiro livro de José Luis Peixoto que li.  O primeiro, um livro chamado Livro, me encantou sobremaneira. Uma escrita exemplar na criatividade, sem chegar a extremos em busca da novidade. Li, anos mais tarde Nenhum olhar, completamente diferente, encantador, onírico e asfixiante,  Ambas as resenhas se encontram neste blog, e também nos sites Skoob e Goodreads.   E agora, Almoço de domingo traz outra faceta do autor, que tendo sido contratado para esta biografia, consegue inovar substancialmente a forma, usando de subterfúgio engenhoso.

A vida de Rui Nabeiro, (seu sobrenome não é nunca usado) conhecemo-lo simplesmente como Rui, é narrada em duas vozes. A onírica, na primeira pessoa, usa de toda a imaginação de Peixoto e compõe  os pensamentos, emoções de Rui, enquanto a voz narrativa, a que nos revela a história do personagem principal, é objetiva e precisa.  As duas vozes se misturam sem criar qualquer problema e como resultado temos uma visão tridimensional do personagem principal.  Sabemos de seus pensamentos e sonhos assim como de suas ações e os motivos delas serem executadas.

 

 

 

José Luís Peixoto

 

Em nenhum momento a narrativa se arrasta. O ritmo é preciso e cobre em um pouco mais de duzentos e cinquenta páginas os noventa anos do biografado. Dos três livros que li de José Luís Peixoto este não é o meu favorito.  Mas confesso ter grande apreço pela maneira como o autor resolveu a difícil tarefa de fazer uma biografia para um público geral de uma pessoa desconhecida além das fronteiras portuguesas, e ainda assim conseguir seduzir o leitor a ler com gosto a obra.

Àqueles que acreditam um dia escreverem a biografia de quem quer que seja, recomendo a leitura não só como exemplo de criatividade mas sobretudo na seriedade com que a forma da biografia é tratada.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Como um dia de primavera: Marc Levy

16 10 2024

O diário de Sarah, c. 2010

Kevin Beilfuss (EUA, 1963)

óleo sobre placa, 31 x 46 cm

 

 

“Há dias iluminados por pequenas coisas, pequeninos nadas que nos tornam incrivelmente felizes; uma tarde a comprar antiguidades, um brinquedo antigo que encontramos no ferro-velho, uma mão que agarra a nossa mão, um telefonema de que não estávamos à espera, uma palavra doce, o filho que nos abraça sem pedir outra coisa senão um momento de amor.
Há dias iluminados por pequenos instantes de graça, um cheiro que nos enche a alma de alegria, um raio de sol que entra pela janela , o barulho de uma chuvada quando ainda estamos na cama, ou a chegada da Primavera e dos seus primeiros rebentos.”

 

Marc Levy, O primeiro dia, tradução de Jorge Bastos

 





Dia a dia…

16 10 2024

Começaram hoje os encontros para leitura em grupo da obra de Marcel Proust Em busca do tempo perdido. Abrimos a leitura com o primeiro livro: No caminho de Swann. São sete volumes! Cobrimos as primeiras 15 páginas. Ou melhor chegamos à página 19. Estamos usando a tradução de Mário Quintana. E indo a fundo, parando para conhecer as referências que desconhecemos. Chegamos à conclusão que as sete pessoas (só cinco puderam participar hoje) ficarão amigas para o resto da vida. Porque nos encontraremos centenas de vezes para cobrir essa leitura. Mas que assim seja. Foi muito agradável. O entusiasmo foi grande. Somos de todo Brasil, estados do Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná.





Resenha: Todas as manhãs do mundo, Pascal Quignard

15 10 2024

A lição de música, 1717

Atribuído a Jean-Antoine Watteau (França, 1684-1721)

óleo sobre tela

Wallace Collection, Londres

 

 

 

Este pequeno livro é um dos poucos traduzidos no Brasil do premiado autor francês, Pascal Quignard. Todas as manhãs do mundo, tradução de Yolanda Vilela [editora Zain:2023] não chega a ter cem páginas, em edição cujas dimensões parecem aquelas de um livro de bolso. Seu texto mesmo pequeno no original, já foi transformado em um filme de Alain Corneau, de bastante sucesso com adaptação do próprio autor do romance, em 1991, ano de sua publicação na França. Por isso mesmo, hoje ele é a obra mais popular de Quignard.

Trata-se da biografia, fictícia, de um verdadeiro músico francês, do século XVII, Jean de Sainte-Colombe, cujos poucos detalhes conhecidos de sua existência se resumem a pequenos apontamentos de Marin Marais, este sim, músico mais conhecido da época.

Sainte-Colombe foi um dos primeiros e grandes compositores de peças para a viola da gamba, instrumento que começava a se popularizar no século XVII na Europa.  Na Inglaterra essa viola consiste em geral de seis cordas, enquanto na França ela é mais usada com sete cordas, como aparece no livro e como Sainte Colombe a usou. No entanto quer com seis ou sete cordas, ambos instrumentos são tocados com arco.

 

 

 

 

De acordo com o posfácio, sabe-se muito pouco da vida de Sainte-Colombe: tinha duas filhas, muitos alunos e era um mestre da composição para a viola da gamba que tocava em um trio com suas duas filhas.  Tudo que sabemos vem das anotações do músico Marin Marais, que havia sido seu aluno e que eventualmente foi músico na corte de Luís XIV.

A história nos apresenta Sainte-Colombe conhecido professor fazendo apresentações no interior da França, viúvo, não tem qualquer interesse pela vida na corte, porque não acredita que lá estariam os verdadeiros amantes da música.  Dedicadíssimo à sua arte, ele amarga, inconsolável, a perda da esposa que tanto amava, morta em 1650. Ensina as duas filhas a tocarem a viola da gamba e se apresenta com elas em trio que ficou conhecido pelos apreciadores da arte. Nas quase cem páginas em que o seguimos, selecionando alunos, sendo convidado a tocar em Paris e  percebemos a dicotomia para ele, entre o silêncio e a música.  Sainte-Colombe, impaciente e dado ataques de cólera, goza da inabilidade de se expressar, exceto pelas composições que produz. Desse modo,é um exemplo de sua própria definição do que é música: “A música existe simplesmente para dizer o que a palavra não pode dizer.” [85]

 

 

 

Pascal Quignard

Além de escritor Pascal Guignard é um talentoso violoncelista fundador do Festival de Ópera e de Teatro Barroco de Versalhes. Tal dedicação à musica traz grande riqueza à sua escrita.  Não são poucas as descrições na história relacionadas aos sons que rodeiam os quatro personagens principais: Sainte-Colombe, suas duas filhas e Marin Marais.  Ao ler este texto, pare e preste atenção. Outra faceta a notar é a descrição dos locais e hábitos da época.

Foram 98 páginas de deleite.  Leitura deliciosa, perfeita para uma tarde chuvosa ou um fim de semana preguiçoso.  Recomendo sem restrições

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Era culpa delas…, texto de Selva Almada

9 10 2024

Mulheres na praia

Sofia Dyminski (Rússia-Brasil, 1918-2011)

óleo sobre tela, 60 x 70 cm

 

 

“Elas chamavam por ele da calçada, duas das cinco irmãs, todas iguais, os cabelos compridos, altas e magras como garças. As vozes iguais, nem ele sabia distinguir.”

Em: Não é um rio, Selva Almada, Editora Todavia:2021





Leitura breve…

7 10 2024
LIVRO CURTO QUE FAZ A DIFERENÇA

 

O ÚLTIMO AMIGO
Tahar Ben Jelloun
Editora Bertrand Brasil
Publicado em 2006 – 128 páginas





Minutos de sabedoria: George Sand

31 08 2024

O que ela lê, 2001

Francine Van Hove (França 1942)

óleo sobre tela

“A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade.

A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante.”

 

George Sand

 

 

George Sand (1804-1876)





Falando com ancestrais, texto de Muriel Barbery

29 08 2024

Campo de trigo com corvos, 1890

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela, 50 x 103 cm

Museu Van Gogh, Amsterdam

 

 

 

“— Que barulho é esse que você carrega atrás de si? — Qual barulho? — perguntou Haru. O corvo grasnou. — Não sei — respondeu o sacerdote —, mas o ouvimos. Conversaram sobre várias coisas mas logo Haru teve a sensação de ouvir palavras e sons do mundo como se eles se produzissem em outro lugar. Estava sozinho num território desconhecido varrido por um rumor límpido e, logo ao lado, se desenrolava o curso das coisas reais. Ele perdeu o fio da conversa do velho sacerdote, ergueu o nariz para o céu que escurecia — céu de neve, mas não estou sozinho, pensou. Então, riu e, cortando a palavra do homem de fé, disse-lhe: — O barulho, sabe? São meus ancestrais. — Ah! — disse o outro. — Eu bem que sabia! E virando-se para o corvo: — São os ancestrais dele. Depois disso ele traduziu amavelmente a conversa para a língua dos corvos.”

 

Em: Uma hora de fervor, Muriel Barbery, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2024