“O papagaio de Flaubert” de Julian Barnes, resenha

19 12 2017

 

 

 

1862-64 Woman with Parrot oil on board 28 x 20 cm Private Collection.jpgPaul Cézanne 1862-64 Woman with Parrot oil on board 28 x 20 cm Private CollectionMulher com papagaio, 1864

Paul Cézanne (França, 1839-1906)

óleo sobre tela, 28 x 20 cm

Coleção Particular

 

 

 

Há escritores que tentam mudar a forma literária e não têm sucesso.  Expandir algo que já se estabeleceu há séculos é difícil.  Já encontrei dezenas de livros cuja leitura encontra obstáculos:  personagens que levam ícones no lugar de nomes à moda do cantor/compositor Prince; textos sem pontuação, sem parágrafos rolando com o objetivo de cascatearem aos nossos ouvidos, mas que ao término não passam de chuvas de granizo, pedras de gelo ferindo a fluidez da narrativa.  Nada disso acontece com a prosa de Julian Barnes, em seu livro, talvez o mais famoso deles, O papagaio de Flaubert, no Brasil traduzido por Manoel Paulo Ferreira.  Colocado entre os finalistas do Prêmio Man-Booker de 1984, quando Anita Brookner (GB, 1928-2016) venceu com Hotel do Lago, O papagaio de Flaubert mostra, hoje, 33 anos depois, ter maior resistência ao tempo. Isso não desmerece o prêmio dado à escritora britânica, que está entre minhas escritoras favoritas, não só pela bela prosa, mas por ter abraçado a mesma profissão que eu: historiadora da arte. Mas em sua pequenina obra, Julian Barnes  consegue esfumar os limites narrativos, retirando os contornos:  trata-se de um ensaio? De um romance? De uma biografia? De uma autobiografia?  Quando se chega ao fim, dá vontade de voltar ao início. Merece uma segunda leitura, com outros olhos, mais sagazes, mais conhecedores.  Torna-se uma obra circular, que encanta, deslumbra e seduz.

Geoffrey Braithwaite é médico.  Faz uma visita à França, com o propósito de aliviar a dor da viuvez. Lá é atraído por uma discrepância observada em dois museus franceses que mostram um papagaio empalhado como sendo aquele que o escritor Gustave Flaubert teria possuído e usado como modelo para o papagaio do conto Um Coração Simples, parte do livro Três Contos. Grande admirador do escritor francês, Geoffrey Braithwaite que já pensava em escrever um biografia do autor, começa a esmiuçar a vida do autor de Madame Bovary.  Cada capítulo toma um aspecto da vida de Flaubert, de Braithwaite, das obras do escritor, das divergências encontradas em edições independentes dos romances.  De pulo em pulo, conhecemos detalhes da vida de Flaubert, suas viagens, mãe, amantes, o celibato. Vislumbramos preocupações e o escopo do sucesso.

 

O_PAPAGAIO_DE_FLAUBERT_1361025380B

 

Aos poucos, no entanto, perdemos a noção entre fato e ficção. Será que lemos o que realmente aconteceu?  Quão verdadeiras são as informações que nos dão? Seria este ou aquele fato uma conclusão do médico que ajuda a narrar a vida de Flaubert?  As dúvidas aparecem de mansinho e finalmente ocupam toda leitura.  O ceticismo aumenta.  Ao final, não sabemos nada.  Será que lemos sobre Flaubert ou sobre Braithwaite?  Este romance/biografia é uma das mais inteligentes construções literárias da literatura moderna.  É uma tour de force e serve muito bem de exemplos de narrativas a que qualquer estudante do curso secundário deveria ser exposto: é inteligente, faz pensar e brinca com a lógica.

É um livro incomum. Podendo ser considerado até mesmo experimental. Parece ser feito de histórias desconexas, entradas em diários, fábulas.  Parece crítica literária, meditação, biografia e ensaio. É uma mistura de todos esses gêneros contada com grande senso de humor e um tanto de sátira. Excede os limites na estrutura, não tem trama. Narrativa e leitura são circulares.  Por isso mesmo pode ser considerado um dos grandes romances do final do século XX. Como um catálogo de amostras, convence o leitor da habilidade do autor que recria para nós o mundo de Emma Bovary, discute a cor de seus olhos e entrelaça essa narrativa com a de Geoffrey Brathwaite que, espelha de certo modo o sofrimento com o adultério e luto, estampados na obra mais famosa de Flaubert.

 

article-2268634-004A961500000258-525_306x334

 

Julian Barnes talvez esteja entre os autores contemporâneos de maior erudição.  Sua prosa, suas conexões fascinam.  Ele gosta de um jogo de ideias, de palavras.  Joga verde e colhe maduro, mas sua erudição não se torna pernóstica, ao contrário, ela serve de fio de Ariadne para nossa leitura. Além de todas essas características O papagaio de Flaubert é uma obra moderna: exige participação do leitor.  É ele quem conecta os elementos heterogêneos e os organiza de maneira significativa.  Frases e palavras, assim como temas, aparecem de um capítulo ao outro, sem aparente conexão, até que se percebe que há uma ligação das ideias postuladas, dos símbolos mencionados e até mesmo dos personagens  e o narrador, quando se chega finalmente às últimas linhas da narração.

Com essa leitura, tomei a decisão de voltar a ler Flaubert.  E certamente não deixarei nenhuma obra de Julian Barnes escapar dos meus olhos ávidos.  Recomendo entusiasticamente.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Lendo: William Somerset Maugham

17 12 2017

 

 

DSC03712

 

 

ASSUNTO PESSOAL

William Somerset Maugham

Editora Globo: 1959, 226 páginas

 

SINOPSE

A deflagração da 2ª guerra mundial surpreende Somerset Maugham a viver no conforto de sua principesca Villa Mauresque, em Cap Ferrat, na Riviera francesa. O escritor, como um protegido dos deuses, colhia em vida os generosos frutos da glória literária.

Mas o conflito não o deixa insensível nem inativo. Oferece seus préstimos ao Ministério de informações da Inglaterra e recebe a tarefa de observar o moral das forças francesas e do operariado nas fábricas de munições e armamentos.

Isso lhe dá a oportunidade de ver a guerra por dentro e de acompanhar dia a dia aquele lamentável estado de coisas que conduziu a França à derrota, fazendo descer sobre o mundo civilizado a longa “noite de agonia” a que se referiu Maritain.

Sobrevém a capitulação. Maugham é obrigadoa dispensar a criadagem e a abandonar à própria sorte sua magnífica vivenda em Cap Ferrat, embarcando para a Inglaterra num pequeno navio carvoeiro na companhia de mais quinhentos refugiados.  Que viagem espantosa! Mais de vinte dias sob ameaça dos submarinos alemães, sujeira, desconforto, privações de toda sorte. Momentos trágicos, cômicos e patéticos nessa verdadeira odisseia em busca da velha Albion, a ilha da resistência. Depois: Londres, a blitzkrieg, a fleuma britânica e as durezas de uma guerra impiedosa e sem entranhas, cenas comoventes e heroicas daquela luta que exigiu “sangue, suor e lágrimas”, e o desfilar, diante de nossos olhos, de algumas figuras de dirigentes nacionais, que pertencem à história.

Finalmente, a viagem do autor para os Estados Unidos, onde permanecerá até 1945. A história de uma derrota – a da França – e de uma resistência – a da Inglaterra, contada por um homem vivido e experimentado, eis a matéria deste livro, que constituindo um dos capítulos mais agitados de sua biografia,  William Someset Maugham apresentou, ao público como sendo estritamente pessoal.





Peregrina escolhe os melhores livros do ano

17 12 2017

 

 

Bella e livros, por Anni MorrisBella e livros

Anni Morris (GB, contemporânea, residente na Nova Zelândia)

acrílica sobre tela

 

 

Dezembro,  vem a pergunta: qual foi o melhor livro do ano?

Meu gosto não é o de todos.  Mas pode servir de notas auxiliares para futuras leituras. Sem levar em conta o que li profissionalmente em história da arte e história do mundo ocidental, li até agora, segunda semana de dezembro um pouco mais de 41 livros.  Aqui está a lista dos que me lembrei.  Talvez tenha lido um pouquinho mais, mas o ano foi muito conturbado e nem sempre anotei ou escrevi resenha dos livros.  Sei que abandonei alguns.  Estou ciente de que há mais livros para ler do que tempo, mesmo que vivesse o dobro da minha idade.  Assim, não me desespero, abandono aquilo de que não gosto.

 

Slide1

 

Escolhi 8 livros melhores do ano.  8 de 41… nada mal, 20% de boas leituras.  Isso classifica o ano como muito bom.  A lista é eclética e inclui dois autores brasileiros, dois livros do mesmo autor inglês, um japonês, um português, um italiano e uma canadense.  Selecionei também, um fora de série, em separado,  por não ser ficção literária,  mas talvez uma das mais importantes leituras em anos.

 

A terra inteira e o céu infinito, Ruth Ozeki, livro mágico que reúne um tanto da filosofia oriental com a ficção científica.  Um livro cheio de observações relevantes para a vida e o mundo contemporâneo.  Acredito que seu público seja bastante universal. Resenha aqui.

As irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki, clássico da literatura japonesa, tenho certeza de que não é para todos os gostos.  Narrativa lenta como as estações do ano, límpida como a prosa de Eça de Queiroz. Sutil como as artes nipônicas. Não é para todos, mas se você gosta de boa literatura e lê clássicos do século XIX, este é para você. Resenha aqui.

Altos voos e quedas livres, Julian Barnes, uma das mais belas ficções/ensaios sobre o luto.  Traz a marca registrada do autor, que navega dentro e fora do ensaio e da ficção literária com desenvoltura inigualável. Extrema sensibilidade. Resenha aqui.

O pecado de Porto Negro, Norberto Morais a grande descoberta do ano para mim foi este autor português, cuja obra está fortemente influenciada pelos clássicos portugueses e brasileiros.  Uma obra de gosto universal, que à maneira das tragédias gregas, lida com as paixões (boas e más) dos seres humanos. Belas imagens literárias.  Espero ansiosa sua próxima publicação. Resenha aqui.

Deserto, Luís Krausz, com este livro me apaixonei pela literatura deste autor já agraciado com o Prêmio Jabuti. Prosa delicada, memorialista, em pequeno ensaio, de uma passagem da vida de adolescência à adulta, com descrições inimitáveis e delicadas que lembram Proust.  Um joia. Resenha aqui.

Diário da queda, Michel Laub, o impacto emocional deste livro, que é considerado o primeiro de uma trilogia, superou em tudo o que havia lido do autor.  A maneira repetitiva com que narra é muito bem utilizada e na reta final entendemos as razões e o impacto é potente. Muito bom. Resenha aqui.

O papagaio de Flaubert, Julian Barnes, com este livro voltei a me apaixonar por Flaubert e por Julian Barnes. Livro de grande impacto em que perdemos a noção do que é ficção e fato.  Simplesmente maravilhoso. Resenha aqui.

Três cavalos, Erri de Luca, sugerido por uma amiga, este livro surpreendeu pela gentileza com que trata os sentimentos.  Uma pequena obra de grande impacto. Literária. Resenha aqui.

 

Slide1

Sapiens: uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari

Recomendo Sapiens, leitura que mudará seu conhecimento do mundo.  Não é ficção literária mas tem imenso valor no seu conhecimento daquilo que nos rodeia.

 

Lista dos livros lidos em 2017, mais ou menos na ordem em que foram lidos.

A terra inteira e o céu infinito, Ruth Ozeki

As irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, Marçal Aquino

Kafka e a boneca viajante, Jordi Sierra i Fabra

A luz entre oceanos, M. L. Steadman

O tribunal da quinta-feira, Michel Laub

O perfume da folha de chá, Dinah Jefferies

NW, Zadie Smith

A livraria mágica de Paris, Nina George

Notícia de um sequestro, Gabriel Garcia Marquez

O colecionador, Nora Roberts

Partir, Tahar Ben Jelloun

O pecado de Porto Negro, Norberto Morais

A estrada verde, Anne Enright

Assando bolos em Kigali, Gaile Parkin

Os transparentes, Ondjaki

Os novos moradores, Francisco Azevedo

O conto da aia, Margaret Atwood

O amante japonês, Isabel Allende

Sapiens: uma breve história da humanidade, Yuval Noah Harari

Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie

Matéria escura, Blake Crouch

A vida do livreiro A.J. Fikry, Gabrielle Zevin

Um beijo de Colombina, Adriana Lisboa

Altos voos e quedas livres, Julian Barnes

Três cavalos, Erri de Luca

O papagaio de Flaubert, Julian Barnes

Diário da queda, Michel Laub

Meus dias de escritor, Tobias Wolff

Deserto, Luís Krausz

Bazar Paraná, Luís Krausz

A resistência, Julian Fuks

Desvendando Margaux, Jean-Pierre Alaux e Noël Balen

Kitchen, Banana Yoshimoto

Esse cabelo, Djaimilia Pereira de Almeida

Muitas Coisas que Perguntei e Algumas que Disse,  Rosa Montero

Os Criadores de Coincidências, Yoav Blum

O Ano da Lebre, Arto Paasilinna

O Assassinato de Margaret Thatcher, Hilary Mantel

A vida peculiar de um carteiro solitário, Denis Thériault

Três Vezes ao Amanhecer, Alessando Baricco

 





Lendo: Gabrielle Zevin

2 12 2017

 

 

 

DSC03660

 

Lendo

A Vida do Livreiro A.J. Fikry
Gabrielle Zevin
São Paulo, Paralela: 2014
186 páginas

SINOPSE

Uma carta de amor para o mundo dos livros
“Livrarias atraem o tipo certo de gente”. É o que descobre A. J. Fikry, dono de uma pequena livraria em Alice Island. O slogan da sua loja é “Nenhum homem é uma ilha; Cada livro é
um mundo”. Apesar disso, A. J. se sente sozinho, tudo em sua vida parece ter dado errado. Até que um pacote misterioso aparece na livraria. A entrega inesperada faz A. J. Fikry rever seus objetivos e se perguntar se é possível começar de novo. Aos poucos, A. J. reencontra a felicidade e sua livraria volta a alegrar a pequena Alice Island. Um romance engraçado, delicado e comovente, que lembra a todos por que adoramos ler e por que nos apaixonamos.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





“Matéria escura”, de Blake Crouch, resenha

27 11 2017

 

 

eliot-elisofon-marcel-duchamp-descending-a-staircaseMarcel Duchamp descendo a escada, 1952

Fotografia de Elioy Elisofon (EUA. 1911-1973)

40 x 50 cm

 

Matéria escura de Blake Crouch é um livro de ficção científica que foge aos parâmetros de distopia, para causar boas e interessantes reflexões ao leitor interessado na exploração de universos paralelos. Este livro pode ser lido como entretenimento e alerta para a conscientização das escolhas que fazemos. O resultado é uma obra ágil, interessante, que prende a atenção e levanta mais perguntas do que responde.  Excelente resultado para um dos mais interessantes best-sellers que li nos últimos tempos.

Quem nunca se questionou sobre decisões tomadas?  Quem nunca imaginou como teria sido a vida se no lugar de uma escolha, tivesse feito outra?  E se não tivesse filhos?  E se os tivesse? E se no lugar do piano tivesse aprendido a tecer?  E se não tivesse casado com o atual parceiro?  E se tivesse ficado casado com a primeira mulher?  Onde estariam?  Que estariam fazendo? Sua vida seria diferente se no lugar de engenharia tivesse seguido matemática, ou se dedicado  à fotografia?  De que maneira?

 

MATERIA_ESCURA_1484658590645465SK1484658590B

 

A noção de vidas alternativas ou multiverso tem já há algum tempo fomentado a imaginação de escritores que  não se inserem no nicho de ficção científica.  Recentemente obras como O fio da vida de Kate Atkinson, Lágrimas na chuva de Rosa Montero, 1Q84, de Haruki Murakami ou A terra inteira e o céu infinito, de Ruth Ozeki têm demonstrado curiosidade e preocupação com descobertas da física quântica. Multiverso, teoria das cordas são conceitos difíceis de absorvermos, porque temos a tendência da leitura linear de tempo, é o assunto desta segunda década do século. Como entender que o mundo tridimensional  pode ser apenas uma ilusão? E que pode não haver distinção entre o presente e o futuro? Precisamos de uma mudança na maneira de pensar e uma porta se abre para um sem número de possibilidades ainda não imaginadas. Em algum lugar pode haver uma duplicata de mim mesmo ou mais de uma versão de mim.  Não como gêmeos, mas duplicata verdadeiras físicas e emotivas. Um mundo onde nada é único.

O autor americano, Blake Crouch, talvez tenha algumas de suas ideias conhecidas pelo leitor, já que a série televisiva Wayward Pines é baseada em um de seus livros.  No entanto, em Matéria Escura ele parece dar um passo além, mesmo sendo um thriller que se aproxima de uma explicação do multiverso.  Para isso Blake Crouch trabalhou uma história de amor, um romance, sobre um homem que não se dá conta de quanto  ama a vida que tem até o momento em que se encontra em outra realidade, tentando voltar para o mundo que conhece.  Nessas tentativas é apresentado a uma enormidade de versões de si mesmo, no multiverso.

 

blake crouchBlake Crouch

 

Além de ser um thriller, este livro convida o leitor a reavaliar decisões, escolhas e  possibilidades deixadas para trás.  Porque assim como Jason Dessen, personagem principal, professor de física em Chicago, descobre outras versões de si mesmo, nós também podemos e temos que aceitar nossa duplicação a cada escolha feita.  Aceitar que pode haver milhares de outros eus, leitores, versões diferentes de nós mesmos é produzir verdadeira revolução no pensamento e reavaliar conceitos de nós mesmos e do mundo em que vivemos.  Em suma de tudo que conhecemos.

Esse livro não trata de ciência, mas mostra conceitos de realidades múltiplas e universos paralelos de maneira que podemos começar a nos familiarizar com esses preceitos, pois na trama eles parecem críveis e lógicos.  Blake Crouch consegue equilibrar a trama com  ilustração de conceitos científicos que acabam por nos dar a sensação de entendimento, de compreensão.

Na tradução de Alexandre Raposo, Matéria escura se torna uma maneira divertida de entreter e aprender algumas noções de física quântica.  Muito bom, agradável e enriquecedor.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

 





Resenha: “NW” de Zadie Smith

16 10 2017

 

 

The tube stationEstação do metrô, c. 1932

Cyril Edward Power (GB, 1872-1951)

Gravura em linóleo, 29 x 35 cm

 

Há tempos meu marido insiste que eu leia Zadie Smith.  Por isso tenho ambos Dentes brancos e Sobre a beleza, em português e inglês. Mas não foi por aí que conheci a autora. Meu grupo de leitura votou por ler NW  e fiquei entusiasmada.  Sabia que era uma autora excepcional.  Talvez eu tenha exagerado na expectativa, porque achei NW um livro bom mas com problemas. Pelo menos não me agradou como esperava.

O próprio título sugere que o personagem principal de NW não é uma pessoa, mas um lugar: a região de Londres habitada em sua maioria por imigrantes da Jamaica, Irlanda, Índia, China, que se encontra exatamente a noroeste na cidade. É uma área mais pobre, com cultura própria, internacional, ecumênica e, aqui, descrita de maneira vívida e realista. No entanto, às vezes a atenção aos detalhes parece esconder a trama, ou ela é inexistente. Por isso, por ser a história de um local, a narrativa vai para todo lado, sem direção e o texto é picado ainda que às vezes lírico. Não é fácil de seguir, não é user friendly. Mas prende.  Seduz.  Envolve como a atmosfera de um lugar parece rodear tudo o que ali se faz. Lembra maresia em cidade praiana, ou o ar cinza de uma cidade com minas de carvão.  No noroeste de Londres, a colcha de retalhos de culturas se ajustando à inglesa produz uma cacofonia própria, barreira transponível só depois de imersão profunda.

 

NW_1396657414B

 

Há quatro personagens, amigos que se conhecem de infância (Leah, Natalie, Félix e Nathan), vidas comuns, que seguimos através de sketches do dia a dia, em staccato, numa narrativa não linear. Mesmo assim, eles são bem desenvolvidos, tridimensionais, existem em nossa imaginação bem caracterizados.  Eles dão apoio a observações sensíveis que consideram preconceitos de classe e raça.

Talvez a mais impressionante característica desse livro sejam os habilidosos diálogos, que soam verdadeiramente “como se fala” [imagino o trabalho que devem ter dado para traduzir], com o impromptu de interrupções de pensamento e lógica. De fato, Zadie Smith parece querer trazer o caos das conversas simultâneas das grandes metrópoles para perto de nós. Esses diálogos, cheios de gírias e de coloquialismos ecoam a desordenada linha narrativa e ajudam o entendimento do caos que envolve os moradores dos grandes centros urbanos.  Também retrata, em paralelo à conturbada vida citadina, a monotonia de vidas que seguem rotinas por vezes insensatas e o tédio que as permeia. O resultado é um livro que leva à introspecção, apesar do ‘barulho’ que o cerca.

 

01836_ggZadie Smith

 

Difícil dizer porque, mesmo assim, achei esta obra digna de quatro estrelas de um total de cinco.  É como se fosse um voto de confiança. Sinto em Zadie Smith uma escritora que tenta ultrapassar os limites da narrativa linear.  Quase cubista, vendo o mundo por diversos ângulos simultaneamente, ela nem sempre tem sucesso.  O resultado, por mais difícil que a leitura tenha sido em partes, é ainda acima da média dos romancistas que conheço.  Talvez não tenha sido a melhor maneira de ser apresentada à escritora. Mas se este livro marca, deixa vínculo, fica na memória, nada mais lógico do que ler e esperar mais da escritora.  Agora irei em “busca do tempo perdido”. Neste fim de ano  vou me dedicar à leitura de Dentes brancos e/ou  Sobre a beleza.  Estou certa de que não me decepcionarão.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Sobre solos: Erri de luca

7 10 2017

 

 

sir_george_clausen_ra_rws_planting_a_tree_d5396451gPlantando uma árvore

Sir George Clausen, R.A., R.S.W. (GB, 1852-1944)

óleo sobre tela, 35 x 29 cm

 

 

“Há duas espécies de terra… Uma tem água embaixo, faz-se um buraco e aflora. É terra fácil.

A outra depende do céu. tem só aquela fonte. É magra, ladra, capaz de roubar água ao vento e à noite, e assim que consegue um pouco gasta-a logo toda em cores retidas no miolo das pedras e põe força de açúcares nos frutos e atira perfume de descarada.  É terra de céu seco, prefiro-a.”

 

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Barlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 35.





Ricardo Lísias sobre Nobel de Ishiguro

6 10 2017

 

 

122-Carolina-Wren-Bird-Painting-Collectible-BooksIvanhoé

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  50 x 40 cm

 

 

“O Prêmio Nobel a Kazuo Ishiguro destaca não apenas um romancista notável, cheio de recursos e muito lúcido, mas também uma consciência que está o tempo todo nos avisando, através da forma literária, de que há algo de muito perigoso se movimentando debaixo dos nossos olhos.  Uma excelente escolha, que dá um pouco de fôlego em um tempo que parece sufocado por conservadorismos tacanhos e violentos. Ishiguro é o contrário disso: ele é excelente.”

 

Em: “Um pouco de fôlego num momento conservador“, Ricardo Lísias, O Globo, Segundo Caderno, página 2; 6 de outubro de 2017.

 





Resenha: “O conto da aia” de Margaret Atwood

1 10 2017

 

 

the-wise-virgins-1965.jpg!HalfHDAs virgens sábias, 1965

Paul Delvaux (Bélgica, 1897-1994)

óleo sobre tela, 280 x 180 cm

 

Tenho uma longa história com O conto da aia.  Lá no final da década de 1980, quando ainda morava fora do Brasil, comprei esse livro em inglês.  Tentei  lê-lo uma vez e não consegui levar a leitura avante.  Mudei-me para o Brasil em 2002 e o livro veio comigo, junto a toda a biblioteca da casa, somos dois dedicados às humanidades, coisa que colabora imensamente para acumulação de livros.  Aqui tentei ler de novo, porque tinha amigos que insistiam que eu o fizesse.  Duas tentativas.  E não consegui levar a leitura adiante.  Sete anos depois, saí de um apartamento grande para um menor e sacrifiquei parte dos livros.  Lá foi ele, sem culpa.  Eventualmente achei um exemplar, no sebo, em português e tentei de novo.  Nada.  Doei-o para o camelô de livros usados do meu bairro (moro próximo à PUC, aqui os camelôs vendem livros).  Passaram-se os anos e meu grupo de leitura decide que este seria o livro na berlinda em outubro de 2017, já que há uma série na televisão baseada em seu enredo. Comprei em inglês no Kindle para que eu e meu marido pudéssemos ler e para que não ocupasse mais lugar nenhum na minha moradia.  Finalmente, sob coerção, fui do início ao fim.  E para a discussão de grupo, peguei emprestado um exemplar em português e passei horas tentando achar as frases que mais me impressionaram para podermos todos achar no texto durante a discussão. Resultado: li.  Achei que é um livro importante de ler.  Acredito que toda mulher deva lê-lo. Vou recomendar às minhas sobrinhas que o façam.  Mas confesso não tive prazer nenhum em degustá-lo.  Margaret Atwood que me perdoe.

Ainda estou sob o impacto da leitura. E muito próxima do texto para realmente poder analisá-lo.  É a obra mais misoginista que encontrei até hoje. É de arrepiar uma leitora. Mas talvez as citações possam falar por si mesmas.  Um livro como esse já foi chamado de ficção científica.  Hoje é mais comum falarmos de ficção distópica. Ou seja, ficção cuja trama, situada em um futuro não muito longínquo, mostra uma realidade repleta de privações, com futuro desesperador e opressivo. Trata-se da história da República de Gilead dominada por uma seita religiosa radical.  Nessa sociedade mulheres têm duas únicas funções: procriar e  ser de uso para homens.  As mulheres também não aprendem a ler.  Na verdade o conhecimento é privilégio de poucos: “Não existem mais revistas, não existem mais filmes …” [34]. As que não conseguem engravidar são consideradas dissidentes e levadas à morte. A orelha do livro registra que essa é a realidade no século XXI.  Essa visão sombria, com conotações apocalípticas é sufocante e permeia toda a obra, transformando-a numa gigantesca aventura asfixiante.  Barbaridades diversas são cometidas através do tempo. Já na primeira página a autora estabelece sutilmente o clima de  ansiedade: “Lembro-me daquele anseio, por alguma coisa que estava sempre a ponto de acontecer e que nunca era a mesma…” [11].

 

O_CONTO_DA__AIA_14968667748256SK1496866774B

 

Há horas em que esse mundo parece particularmente medieval, talvez pela crudeza dos eventos, talvez pelas limitações impostas aos habitantes de Gilead.  Essa referência à Idade Média também é sugerida por Margaret Atwood nas entrelinhas.  Nesta sociedade das massas comandadas como robôs há poucafé ou expectativa de uma vida melhor. As pessoas não têm a sensação de poder:  “Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos  não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.” [73] Nesta imagem, há, por exemplo, uma direta referência às ilustrações de manuscritos medievais, onde nas margens encontramos desenhos engraçados, animais diversos, pessoas nas tarefas mundanas, frades e cavaleiros enroscados em videiras floridas.  Nas margens tudo era válido.  Há muito simbolismo na narrativa algo que também remete aos textos medievais herméticos. Além disso, os nomes de mulheres Offred, Offglen, [Of Fred; Of Glen]  são semelhantes a denominações medievais em que o “dono” daquela pessoa é mencionado no nome de batismo, fato até hoje reminiscente em nomes nórdicos e russos: Adamson, Stephenson [filho de Adam, filho de Stephen] ou Kimmeldottir [filha de Kimmel] por exemplo.  Mais uma maneira sutil de acabar com a individualidade feminina.

A tensão emocional aparece quando há lembranças da vida anterior, e sonhos de como poderia ser diferente.  Se todos estivessem robotizados, nada aconteceria.  Mas é agonizante para o leitor, se colocar, como se coloca nessa narrativa em primeira pessoa, no lugar de quem tem flashes de memória de um mundo mais digno. “Eu gostaria que esta história fosse diferente. Gostaria que fosse mais civilizada. Gostaria que me mostrasse sob uma luz melhor, se não mais feliz, pelo menos mais ativa, menos hesitante, menos distraída por trivialidades. Gostaria que tivesse mais forma.Gostaria que fosse sobre o amor, ou sobre súbitas tomadas de consciência importantes para a vida da gente, ou mesmo sobre pores-do-sol, passarinhos, temporais e neve.” [317] Que tristeza! Que agonia!

 

MargaretAtwood1Margaret Atwood

 

O conto da aia é uma história de terror, muito pior do que qualquer livro de Stephen King.  Muito mais misterioso e estranho do que os contos de Edgar Allan Poe.  Há uma parte de mim que acredita que só uma mulher poderia ter escrito esse mundo aterrorizante da política de reprodução.  É um livro cruel. O desespero dessas mulheres que procuram entender o mundo em que vivem é grande: “Inalo o cheiro do sabão, o cheiro desinfetante, e fico parada no banheiro branco, ouvindo os sons distantes de água correndo, de descargas de vasos sanitários sendo puxadas. De uma maneira estranha sinto-me confortada, em casa. Há algo tranquilizador com relação a vasos sanitários. Pelo menos as funções corporais permanecem democráticas. Todo mundo caga,…” [301]

Se gostei da leitura?  Não.  Ela escreve bem?  Sim, muito bem.  É um livro que deve ser lido?  Sim.  Você o recomendaria?  Para todas as mulheres.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “Altos voos e quedas livres” de Julian Barnes

23 08 2017

 

 

 

 

Vue du pont de Sèvres, 1908 - Henri Rousseau.Vista da Ponte de Sèvres, 1908

Henri Rousseau [Le Douanier] (França, 1844 – 1910)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

 

 

Altos voos e quedas livres é um ensaio dividido em três partes. Aborda paixão, amor, perda, morte e luto — sentimentos universais.  Além disso,  dá raro vislumbre sobre a maneira do autor pensar, organizar assuntos e interesses. Até que nos surpreendemos porque de um material distinto, sem conexão aparente, sub-repticiamente entra no assunto principal da obra:  o luto pela  morte da mulher amada.  Inicialmente a narrativa não parece contínua. Stacatto.  Somos apresentados a fatos, a histórias sobre balonismo.  De balões passamos ao uso da fotografia no século XIX. Assuntos que parecem não ter nada em comum. Finalmente entramos na terceira e última parte, quando tudo díspar coalesce numa meditação sobre o luto, o processo do luto que o escritor atravessa depois da morte de sua esposa, companheira de vida inteira.

“Processo de luto. Parece um conceito claro e sólido. Mas é um termo fluido, escorregadio, metafórico. Às vezes passivo, um período de espera pelo desaparecimento do tempo e da dor.; às vezes ativo, uma atenção consciente à morte, e à perda, e à pessoa amada…”[113]

 

ALTOS_VOOS_E_QUEDAS_LIVRES__1394112392B

 

Cada pessoa trata da perda de um ente querido à sua maneira. É uma emoção particular, vivenciada solitariamente,  impossível de ser comunicada ou dividida. No entanto, é universal,  poderosa, toma o corpo e a alma, os sentimentos do ser humano. Compreende-se sua complexidade quando a testemunhamos, como neste ensaio,  simultaneamente triste, quase sempre romântico, e desde o início provocativo.  Este é um texto que requer reflexão, no início, lá no nível sonhador, do éter e seus balões, até o nível da terra, lugar onde vivenciamos nossas dores.

Luto é um sentimento que todos entendem.  Faz parte da condição humana. A dor da morte de um ser amado é experiência que não se deseja a ninguém mas que vivenciada é devastadora. Há diversas obras literárias dedicadas ao assunto Enquanto agonizo de William Faulkner; O ano do pensamento mágico de Joan Didion são duas das de que me lembro agora.  Altos voos e quedas livres toma agora um lugar entre elas, estará entre as mais belas, mais sentidas, mais reveladoras no complexo caminho dos sentimentos do amante que sobrevive.

 

Julian-BarnesJulian Barnes

 

Lembrar de quão vulnerável é a vida humana é essencial.  Só assim podemos nos dedicar a realmente viver o momento.  Julian Barnes mostra o amor em todas as suas facetas e a falta que o ente querido faz para quem ama.  Não deixe de ler. Belíssima obra.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.