O escritor no museu: Charles Dickens

18 03 2019

 

 

 

Portrait_of_Charles_John_Huffman_Dickens

Charles Dickens, 1843

Margaret Gillies (Inglaterra, 1803-1887)

Aquarela e guache sobre marfim

 





Murakami sobre narrativas

17 03 2019

 

 

 

 

Henri Paull Mottez, LeituraJovem lendo

Henri-Paul Mottez (Inglaterra, 1855 – 1937)

óleo sobre tela,  33 x 41 cm

 

 

“O romancista narra uma história. E narrar uma história é, em outras palavras, tomar a iniciativa de adentrar no inconsciente. É descer para as trevas do interior da mente. Quanto maior for a história que o escritor quiser contar, mais fundo ele precisará descer. Da mesma forma que, quanto mais alto for o prédio a ser construído, maior terá que ser sua fundação subterrânea. Quanto mais densa for a narrativa, mais pesada e mais espessa serão as trevas subterrâneas”.

 

Em: Romancista como vocação, Haruki Murakami, tradução: Eunice Suenaga, Alfaguara: 2017, p.100.





Cyrano de Bergerac, o verdadeiro – celebrando os 400 anos de nascimento!

9 03 2019

 

 

8-1-1898 Lillustration,Benoît-Constant Coquelin (Coquelin aîné), en Cyrano de Bergerac, à la première de la pièce du même nom, d' Edmond Rostand, le 27 décembre 1897 au théâtre de la Porte-Saint-Martin..Benoît-Constant Coquelin, como Cyrano de Bergerac na estreia  da peça do mesmo nome, de Edmond Rostand, no dia 27 de dezembro de 1897, no teatro Porte-Saint-Martin. Como apareceu na Revista L’Illustration de 8 de janeiro de 1898.

 

 

Quem não se apaixonou pelo drama de Cyrano de Bergerac contado por Edmond de Rostand em sua peça teatral do final do século XIX?  No entanto, poucos sabem que houve um verdadeiro Cyrano, escritor, francês, nascido em Paris em 6 de março de 1619 [data de batismo, data de nascimento incerta].  Chamava-se Savinien de Cyrano e adicionou Bergerac depois que seu pai herdou de sua mãe a propriedade em Bergerac, local próximo a Rambouillet na Dordonha, às margens do rio Yvette, em 1616.

Sabe-se pouco de sua vida, morreu aos 36 anos, ferimentos, razão incerta.  Veio de  família com conhecimento, com aprendizado e alguma posição social, já que seu pai tinha o título de Senhor de Mauvières e Bergerac.  Mesmo pelos padrões da época, a biblioteca de seu pai, Abel de Cyrano, advogado no Parlamento em Paris, seria considerada pequena (126 livros) , mas a diversidade das obras listadas no inventário após a morte de Abel, sugere um pai curioso pelo estudo de línguas e literatura da antiguidade, com interesse em diversos assuntos, inclusive o protestantismo.  Bom lembrar que no século XVII, ainda que já houvesse muitos livros publicados, eles eram caros e não estavam ao alcance de qualquer pessoa.  A biblioteca de Abel tinha obras jurídicas, de língua e literaturas antigas; obras dos grandes humanistas da Renascença (Erasmo, Rabelais) e alguns livros que mostravam interesse pelas ciências. Há conhecidos trabalhos protestantes de François de la Noue, George Buchanan,  Pierre de La Ramée, Pierre Hamon e Philippe Duplessis-Mornay.  Essas obras sugerem que na sua juventude o pai de Savinien esteve rodeado por huguenotes.  Mas também estão lá duas Bíblias, um Novo Testamento e um livro de orações a São Basílio em grego. Assim é possível assumir que Sevinien tenha tido uma boa e sólida instrução em casa.

 

 

cyrano Etienne Jehandier DesrochersCyrano de Bergerac

Étienne-Jehandier Desrochers (1668 – 1741)

Gravura, de quadro a óleo

 

A família sai de Paris para Bergerac por volta de 1620, quando Savinien era bebê.  Sua educação portanto foi dada pelo ensino paroquial. Não se sabe exatamente quando ele chega a Paris para prosseguir com os estudos.  Permanece na casa de conhecidos de seus pais, talvez até na casa de seu tio Samuel de Cyrano, mas não se sabe ao certo que escola frequentou: se o Collège de Beauvais ou o Collège de Lisieux.  Em 1636, quando Savinien está com quinze-dezesseis anos,  seu pai vende a propriedade em Bergerac e retorna a Paris. Por volta de 1639, Savinien se enlista na Guarde, onde serve nas campanhas de 1639 e 1640.  Membro da pequena nobreza, Savinien ficou conhecido por sua habilidade com a espada e por gabar-se disso. Acredita-se que deixou a carreira militar para voltar a Paris dedicar-se à produção literária.

 

Savinien_de_Cyrano_de_BergeracRetrato de Cyrano, desenhado e gravado por artista anônimo, baseado em obra de Zacharie Heince, 1654.

 

 

As obras de Cyrano de Bergerac,  L’Autre Monde: ou les États et Empires de la Lune (“História cômica dos Estados e Impérios da Lua”), publicada postumamente em 1657 e Les États et Empires du Soleil (“Os Estados e Impérios do Sol”) em 1662, são clássicos como primeiras obras de ficção científica.  No primeiro livro, Cyrano viaja  à lua,  usando um foguete com uma cabine impulsionado por fogos de artifício (rojões) e lá se encontra com habitantes de 4 pernas, com armas que atiram na caça e as cozinham, assim como brincos que educam crianças.   Mistura ciência e romance nessas obras e elas eventualmente servem de exemplo para obras de seus sucessores, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe, Voltaire.

Contemporâneo do grande dramaturgo francês Molière, Cyrano não vive para ver seu compatriota pegar emprestado algumas de suas ideias da obra Le Pédant joué, que também serve de fonte de ideias para outra estrela literária francesa: Corneille.

 

Obra:

Le Ministre d’Estat flambé en vers burlesques [O  ministro de Estadi assado em verso cômico], 1649.

 

 La Mort d’Agrippine, tragédie, par Mr de Cyrano Bergerac, 1654  [A morte de Agrippina, tragédia]

Les Œuvres diverses de Mr de Cyrano Bergerac [Obras diversas do Senhor Cyrano Bergerac] 1654

Histoire comique par Monsieur de Cyrano Bergerac contenant les Estats & Empires de la Lune [História cômica incluindo os Estados e Imperios da Lua], 1657

Les Nouvelles œuvres de Monsieur de Cyrano Bergerac. Contenant l’Histoire comique des Estats et Empires du Soleil, plusieurs lettres et autres pièces divertissantes [As novas obras do Sr. Cyrano Bergerac. Incluindo A história cômica dos Estados e Impérios do Sol, diversas cartas e outras peças de divertimento], 1662.

Les œuvres diverses de M. Cyrano de Bergerac [ Obras diversas do Sr. Cyrano de Bergerac], 1709

 

Aqui algumas ilustrações em sua obra:

 

1657 - Portada 1662

 

1657_ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil_

 

1657__ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil _

 

1657__ Le parlement des oiseaux des Etats et Empires du soleil_

 

travelling to the moon

 

 





Minutos de sabedoria: Giàcomo Leopardi

7 03 2019

 

 

Marie Spartali Stillman (1844 – 1927) Beatrice, 1895Beatriz, 1895

Marie Spartali Stillman ( Grécia/ Inglaterra, 1844 – 1927)

aquarela, guache, têmpera sobre papel, 57 x 43 cm

Museu de Arte de Delaware, EUA

 

 

 

“A paciência é a mais heroica das virtudes, justamente por não ter nenhuma aparência heroica.”

 

 

Giàcomo Leopardi

 

 

260px-Leopardi,_Giacomo_(1798-1837)_-_ritr._A_Ferrazzi,_Recanati,_casa_LeopardiGiàcomo Leopardi (1798-1837)

 

 

 

 





Resenha: “Romancista como vocação” de Haruki Murakami

13 11 2018

 

 

 

 

Belinda del Pesco (EUA, contemporânea) aquarela, 20 x 25 cmAlmofada vermelha

Belinda del pesco (EUA, contemporânea)

aquarela, 20 x 25 cm

 

 

Não se trata de ficção.  Este é um livro de ensaios sobre escrita, literatura, escolhas e preferências do autor e ainda outros temas surgidos nas entrevistas que Haruki Murakami deu.  Não se trata tampouco de um guia para o escritor neófito, nem uma cartilha de como se tornar um escritor de sucesso.  Invés disso temos um belo preenchimento do retrato de Murakami como pessoa, intelectual e pensador.

 

95311afa473e60eb0527f505e303f0c7B

 

Mesmo assim é um livro que encanta, principalmente àqueles como eu, que apreciam os livros do autor.  Saímos dessa leitura com a sensação de quem é Murakami, um cara sóbrio, que tem dúvidas, muitas delas sobre suas criações.  Conhecemos o início de sua carreira como escritor e suas ideias sobre a educação nas escolas japonesas. É um livro leve, de fácil leitura, repleto de vinhetas ou histórias  ilustrando suas ideias.  Nesta obra passeamos pelas memórias do autor,  e vislumbramos os processos de sua escrita.

 

2-Murakami-RexHaruki Murakami

 

Tudo me pareceu de interesse: seu desprezo pelos prêmios literários; o hábito de sair do Japão para um lugar onde não é conhecido (por exemplo, Paris) e viver lá pelos 6, 8, 10 meses necessários para escrever o romance que tem na cabeça e que surgiu no Japão (ele gosta deste distanciamento físico); o descaso que críticos japoneses têm por sua obra, por acreditarem que é repleta de perspectivas estrangeiras (americanas na maioria); o cuidado detalhado, minucioso, vagaroso necessário para completar uma obra e sobretudo a seriedade com que trata de sua vocação.

Leitura encantadora.  Difere de todos os outros Murakamis que li.  Com ele começamos a perceber o homem que cria o mundo paralelo em que nos deliciamos.  Vale a pena!  Muito bom.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





Resenha: “Nosso homem em Havana”, Graham Greene

31 10 2018

 

 

 

IT_S A CLASSIC—The old cars seen prominently in Havana, Cuba are the inspiration for this Anette Power painting.Havana, Cuba, pintura de Anette Power.

 

 

De Graham Greene eu só havia lido Viagens com minha tia, [Travels with my aunt], que li em inglês nos primeiros tempos de moradia nos Estados Unidos há anos. Boas recordações associadas a essa leitura —  personagens fora do comum, como tia Augusta com uma vida não muito límpida  —  seu sobrinho, o  monótono gerente bancário, aposentado, Henry Pulling,  e sobretudo as aventuras europeias fora do esperado,  não foram suficientes, no entanto, para que eu retornasse a Graham Greene até agora.  Mas meu grupo de leitura votou neste clássico para discussão mensal.  E foi, portanto, com prazer que abri as primeiras páginas de Nosso Homem em Havana.  No início  a narrativa pareceu de difícil engajamento. Passei para o original em inglês considerando que talvez fosse a tradução, neste caso de Brenno Silveira. Mas o início do original em inglês foi lido com tão pouco entusiasmo quanto seu correspondente em português.  Até que a história, pequenina, não chegando mesmo a 280 páginas, toma um embalo, lá por um terço e daí por diante fluiu sem obstáculos, tornando-se uma das mais interessantes narrativas que li nos últimos tempos.  E devo acrescentar, escrita com grande humor, uma sátira muito bem feita que chega, em ocasiões, a trazer o riso solto ao leitor. Realmente muito engraçado.

 

 

NOSSO_HOMEM_EM_HAVANA_1233962286B

 

Publicado em 1958, o livro tem trama elaborada. Passa-se em Cuba, ainda no governo de Batista, mas já com rebeldes agindo nas montanhas, precursores da revolução cubana liderada por Fidel Castro e seus associados. Interessado no que pode vir a acontecer, o serviço secreto britânico, por falta de melhor solução, contata James Wormold para mandar notícias sobre o que se passava na ilha.  Wormold, cidadão inglês radicado em Cuba,  vendedor de aspiradores de pó, figura apagada e insossa que nenhum de nós pode imaginar como personagem principal de uma aventura de espionagem, precisava reforçar o conteúdo de seu bolso para dar à filha, manipuladora sem limites, as necessidades de luxo que ela desejava.  Aceita o trabalho, desconhecendo como proceder.  A necessidade, dizem ser a mãe das invenções.  Sabedoria popular que se afirma neste caso.  Que mal poderia acontecer,  se desta longínqua ilha no Atlântico, mais de 7.000k de Londres, Wormold colorisse a realidade?  Nada, ele pensa.  Quem vai saber?  A situação toma caminhos inimagináveis quando na capital inglesa o serviço secreto leva a sério os relatórios assinados  por Wormold.

 

Graham_Greene,_BassanoGraham Greene

 

Farsa, comédia rasgada são termos comumente associados ao teatro, mas podem descrever a sátira feita por Graham Greene, que baseia seu sucesso — como o melhor do humor inglês — nas pequenas frustrações que seus personagens, verdadeiramente humanos, imperfeitos, ingênuos sofrem, e de como são incapazes de impedir as consequências inevitáveis de suas ações.  Paródia,  crítica sobre o serviço secreto inglês e métodos da política mundial, do final da década de 1950, não tornam a história datada. Ao contrário, ela é atemporal, clássica no sentido mais largo da palavra, porque é  baseada não em circunstâncias de época mas no registro das emoções e do caráter de seus personagens.  Sensível,  Graham Greene brinca com o que rotulamos importante.  E explora com destreza as fraquezas humanas. Sim, é um clássico que pode ser lido e relido inúmeras vezes.  Excelente leitura. Leve e curta.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Família moderna, Hanif Kureishi

29 09 2018

 

Patricia_schappler (EUA, ) Eve, graphite & collage drawing 156x 118 cm, 2011-12.Eve, 2012

Patricia Schappler (EUA, contemporânea)

carvão, grafite e colagem, 156 x 118 cm

 

 

“O senhor disse, faz tempo, que se todas as épocas têm sua questão filosófica central, na nossa época essa questão será o renascimento da religião como política. E assim o senhor começou a relacionar o Islã radical e sua sexualidade bizarra com o ódio ao corpo, o corpo queimado na automorte sacrificial. Esse é um gesto da mais profunda submissão. Sabemos que o Ocidente tentou, nos anos 1960, remover o pai, autoritário ou não. Foi assim que acabamos, como o senhor apontou muitas vezes e com grande proveito, com uma cultura de mães solteiras. […]

‘O pai — como sempre fazem os pais — voltou ou na forma de gângster, como em O poderoso chefão e no seu predileto Os Sopranos, ou na forma de autoridade religiosa. Existe também a tentativa do pai de excluir, quando não pisotear, a sexualidade. Pelo menos nos outros. […]

 

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, tradução de Rubens Figueiredo, São Paulo, Cia das Letras:2016, p. 211





Tradutor americano seleciona leituras japonesas para as férias

26 09 2018

 

Kasyou TakabatakeBela senhora de kimono

Kasyou Takabatake (Japão, 1888 – 1966)

 

 

O tradutor americano Dan Bradley publicou na revista GRANTA uma lista de obras japonesas que ele recomenda para leitura nas suas férias de verão.  Como todos sabem por aqui, adoro listas de livros porque estou sempre à procura de um bom livro de uma boa semana de leituras.  Assim sendo, passo logo a listar por aqui as obras que ele mencionou e que já se encontram traduzidas para o português.  Literatura japonesa tem sido objeto de interesse para mim.  É um amor maduro.  Descobri-a graças a amigos leitores, e não tenho nenhum conhecimento formal da história da literatura japonesa.  Mas diria que tenho lido sistematicamente uns 4 a 5 livros japoneses por ano.

 

1 — O homem que passeia, de Jiro Taniguchi, Editora Devir: 2017

O_HOMEM_QUE_PASSEIA_1502810676691424SK1502810676B

Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida. Começa com uma visita à casa de um amigo, que termina às 3 da madrugada. Nosso querido passeador resolve voltar para casa a pé, caminhada que levará uma hora e quinze minutos. Há algum suspense no ar: pepinos amargos e a travessia de ruas desertas. Mas nada de ruim acontece. Apenas reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta em haiku mais que perfeito e tranquilo. Essas qualidades de Taniguchi, mais sua sensibilidade diante daquilo que existe de poesia na banalidade do cotidiano (tanto na natureza quanto na cidade), já produziram uma legião de admiradores para sua obra, como o cineasta belga Sam Garbarski, que levou para as telas – em 2010 – um de seus mangás, Bairro Distante.

 

2 — Opus, Satoshi Kon, Editora Panini: 2017

 

4e1e1a529fe8dfdb48510e3a7f85069fB

Antes de se tornar um dos diretores de animes mais conceituados, Satoshi Kon trabalhou com mangás. Opus é da década de 90. Com roteiro e arte dele, mistura elementos de realidade e imaginação, de sonho, podemos dizer. Os fãs de filmes como Perfect Blue e Paprika perceberão o traço marcante, lembrando o mestre Katsushiro Otomo, de Akira (mangá no qual Kon trabalhou), e a tensão vivida pelos personagens, em enquadramentos de tirar o fôlego. Há também uma metalinguagem com o universo dos mangás levada às ultimas consequências. A Panini acaba de lançar o primeiro volume de dois. Opus é uma joia escondida nas bancas.

 

3 — O país das neves, Yasunari Kawabata, Estação Liberdade: 2004

PAIS_DAS_NEVES_1231109603B

Neste livro, de grande repercussão no Japão e no exterior (inclusive com adaptações para o cinema), Kawabata expõe a densidade e as contradições das relações humanas por meio do encontro entre Shimamura, um culto senhor de posses, Komako, uma gueixa das montanhas, e Yoko, uma bela jovem provinciana, trazendo ao leitor um texto comovente e lírico ao extremo. Em vez de provocantes paixões, o desperdício do amor e o sacrifício pessoal dos personagens conduzem-nos a uma atmosfera gélida, com pinceladas de forte afetividade, em que o branco da neve e o frio penetrante contribuem para dar o tom melancólico da narrativa. Não à toa: a estação termal de Yusawa, que o escritor visitou pela primeira vez em 1934, serviu de inspiração para a criação do cenário onde a história se passa.

 

Outros escritores mencionados por ele não têm as obras em tradução, mas a maioria tem outras outras obras em português. Eles são: Yoko Ogawa, Hiromi Kawakami, Ryu Murakami, Hideo Yokoyama e Alex Kerr. 

Está na hora de começarmos a planejar as leituras de verão.

 

 





Conselho de pai, texto de Yaa Gyasi

23 08 2018

 

 

Keepin Her Close by Cbabi bayocMantendo-a por perto

Cbabi Bayoc (EUA, contemporâneo)

[Da série, 365 dias de um pai]

 

 

“Ele a encontrou na cabana e se sentou ao seu lado.

— Por que está chorando? — perguntara ele.

— As plantas todas morreram, e eu podia ter ajudado! — disse ela entre soluços.

— Abena, o que você teria feito diferente se soubesse que as plantas iriam morrer?

Ela pensou um pouco, limpou o nariz com o dorso da mão e respondeu:

— Eu teria trazido mais água.

O pai concordou.

— Então, da próxima vez, traga mais água, mas não chore por essa vez. Não deveria haver lugar na sua vida para lamentações. Se,  no momento em que fez alguma coisa, você sentia clareza, por que se lamentar mais tarde?”

 

 

Em: O caminho de casa, Yaa Gyasi, tradução Waldéa Barcellos, Rio de Janeiro, Rocco: 2017, página 219.

 

 





Viajar, texto de Agatha Christie

11 08 2018

 

 

57c3db05b5c6338468f318c3d2b144f0Cartaz de viagens à América Central, década de 1920.

 

 

” A vida, na verdade,  assemelha-se a um navio — isto é, ao interior de um navio, com seus compartimentos estanques. Emergimos de um deles, selamos e trancamos as portas, e nos encontramos dentro de outro. Minha vida, desde que deixamos Southampton até o dia em que regressamos à Inglaterra, foi um desses compartimentos. Desde então sinto  sempre a mesma coisa em relação a viagens. Passamos de uma maneira de viver a outra. Decerto, continuamos os mesmos mas somos ao mesmo tempo diferentes. A nova personalidade desembaraçou-se das centenas de teias de aranha e fios que nos envolvem como um casulo na vida do dia a dia doméstico: cartas a escrever, contas a pagar, tarefas a cumprir, amigos que queremos visitar, fotografias para revelar, roupas para cerzir, nurses, e empregadas a aplacar, vendedores e lavanderias a censurar! A vida em viagem é da essência do sonho. É algo fora do normal e, no entanto, faz parte da nossa vida. Está povoada de pessoas que jamais havíamos visto e que, segundo todas as probabilidades, jamais veremos de novo. Pode acontecer, eventualmente, em viagem, algo aborrecido, tal como o enjoo e a solidão, a saudade de alguém a quem amamos muito, (…).  Mas nos sentimos como os vikings ou os mestres marinheiros da era elisabetana, que entraram num mundo de aventura,  e o lar só é lar quando regressamos.”

 

Em: Autobiografia, Agatha Christie, tradução de Maria Helena Trigueiros,  Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1979, p. 321.