Sombra, poema de Flora Figueiredo

16 03 2014

Jan Catharinus Adriaan GoedhartA carta, 1930

Jan Catharinus Adriaan Goedhart(Holanda, 1893 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Coleção Particular

Sombra

Flora Figueiredo

Tem um lugar no meu quarto

em que a luz não entra.

Tudo que se tenta

não dá certo.

Em vão tirar telha,

abrir janela,

furar o teto.

Postou-se ali um escuro

soturno e quieto,

recentemente diagnosticado.

É uma fração de passado

que o tempo não leva

para não rever fatos,

e que a vida ceva

porque é da vida conservar mandatos.

Para que o escuro seja então cassado,

é preciso um clarão qualificado,

capaz de sorvê-lo em sucção;

que durante o processo de deglutição

use artimanha,

até transformá-lo em cavidade.

É nesse vão que vai florar felicidade,

parida da entranha do bicho-papão.

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 101.





Quadrinha do verdadeiro amigo

13 03 2014

doente, dodoi, Margret BorissIlustração de Margret Boriss.

Somente um bem acontece

quando a gente cai doente:

aí é que se conhece

quem é amigo da gente.

(Aloísio Alves da Costa)





Namoro em tom menor, poesia de Stella Leonardos

11 03 2014

Cartão Postal da virada do século XIX para o XX.

Namoro em tom menor

Stella Leonardos

— Eu fui andando

Por um caminho.

— Eu fui também.

— Eu vi cantando

Um passarinho.

— Eu vi também.

— Ia pensando

Em fazer ninho.

— Você também?

Em: Fantoches, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956





Carnaval, poema de Afonso Louzada

5 03 2014

CESAR LACANNA - (1901 - 1983) - Carnaval - a - 32 x 23 - cid - 1966Carnaval, 1966

César Lacanna (Brasil 1901-1983)

aquarela sobre papel

Carnaval

Afonso Lousada

E foi-se o Carnaval. E só ficou,

de tudo, uma lembrança dolorida

que resta desse amor que se acabou

numa alegria que redime a vida.

Da loucura da febre que passou,

a alma se sente só e consumida;

na solidão que o sonho lhe deixou

a saudade ainda vive, malsofrida.

E, tristemente, o coração recorda,

na angústia de uma louca nostalgia,

esse sonho fugaz que ele sonhou.

Carnaval de um amor que, na alma, acorda

a esperança de uma última alegria,

entre as cinzas de tudo que passou.

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional:1947, p. 38





Quadrinha da linda morena

3 03 2014

mulher e pássaro, vogue, junho 1921Mulher e pássaro, capa da revista Vogue, junho de 1921.

Morena, linda morena

de lábios cor de carmim,

quero saber se teus olhos

sorriem só para mim.

(Ângela Maria)





A gente nunca está só, poesia de Adelmar Tavares

24 02 2014

menina no lago, Martta Wendelin (Finlandia)Menina no lago, ilustração de Martta Wendelin.

A gente nunca está só

Adelmar Tavares

A gente nunca está só.

Ou se está com uma saudade

De um sonho desfeito em pó;

Ou se está com uma esperança

De nova felicidade

No coração que não cansa…

Sempre uma sombra com a gente,

Constantemente,

Uma sombra… Boa… ou má…

Só é que nunca se está.

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 59





Multidão, poesia de Armindo Rodrigues

12 02 2014

beryl cook, tenerife daysDias em Tenerife, 2004

Beryl Cook (Inglaterra, 1926-2008)

silkscreen, 61 x 56cm

Multidão

Armindo Rodrigues

Esta gente que vai e vem,

de cá para lá,

de lá para cá,

que se cruza comigo,

que esbarra comigo,

que tem com certeza

os seus dramas iguais aos meus,

as suas esperanças iguais à minhas,

não sabe nada da minha vida,

nem eu sei dos seus segredos.

Cada um segue absorto em si

como se fosse de olhos fechados

e não tivesse as mãos para dar

a outras mãos desamparadas.

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 52





Quadrinha da felicidade

10 02 2014

flores na janela, FruitGardenAndHome1923-11Capa da revista Fruit, Garden & Home, novembro de 1923.

Saibam que a felicidade

raramente é percebida,

porque ela só é encontrada,

nas coisas simples da vida.

(Anônimo)





Pode entrar, que a casa é sua — poesia de Djalma Andrade

4 02 2014

Casario e igrejas em Ouro Preto, MG, 1963

Luiz de Almeida Júnior ( Brasil 1894-1970)

óleo sobre tela  50 x 60cm

Pode entrar, que a casa é sua

-(

Djalma Andrade

Minas… Igrejas e sinos
De sons puros, cristalinos…
Pompas… Passado de glórias…
Cidades velhas, velhinhas,
Com ternura de avozinhas,
Que contam lindas histórias.

Minas… As velhas fazendas
Cheias de casos e lendas
De uma era sombria, escura…
E Minas das claras fontes,
Dos rasgados horizontes,
Minas do pão, da fartura.

Minas… as longas estradas
Nos duros morros cravadas…
Gente forte à luta afeita!
Carros gemendo e cantando,
Serras e montes galgando,
Na alegria da colheita.

Minas… Repiques festivos,
A banda, dobrados vivos
Rompe com fúria infernal…
Foguetes, o largo cheio…
Todo o povo alegre veio
Para a festa no arraial.

Minas… É o lar que se agita
Gente de fora, visita,
Todos à porta da rua…
Sorriso franco e bondoso,
Lá dentro o café cheiroso:
– Pode entrar, que a casa é sua.

Djalma Andrade (Congonhas, MG, 1871-1975)





Quadrinha do teu destino

31 01 2014

aranha, Clarence Coles PhillipsIlustração Clarence Coles Phillips.

Não tens mais do que mereces,

homem fraco e pequenino,

porque tu mesmo é que teces

a teia do teu destino.

(Ariston Teles)