Tintin e Milou estão na Lua, ilustração Hergé.
Se o homem conquista o espaço,
por que é que, lutando a esmo,
é incapaz de dar um passo
para dentro de si mesmo?!…
(Izo Goldman)
Tintin e Milou estão na Lua, ilustração Hergé.
Se o homem conquista o espaço,
por que é que, lutando a esmo,
é incapaz de dar um passo
para dentro de si mesmo?!…
(Izo Goldman)
Autoria não identificada.
João Manuel Simões
Azar: acabei por esquecer
num baú antigo
a caixa de lápis de cor
com que eu costumava pintar
o arco-íris.
(Foi antes de pegar o trem
que me trouxe ao presente).
Por isso sou obrigado a me contentar,
hoje,
com as imitações desenhadas no céu,
depois da chuva.
Em: Poemas da infância,antologia poética, João Manuel Simões, Curitiba, Livros HDV: 1989, p. 60
Cartão Postal.
Vinícius de Moraes
Leão! Leão! Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
.
Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda
.
Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
.
Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
.
O salto do tigre é rápido
Como o raio, mas não há
Tigre no mundo que escapa
Do salto que o leão dá
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte
Pois bem, se ele vê o leão
Foge como um furacão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
.
Leão se esgueirando à espera
Da passagem de outra fera…
Vem um tigre, como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando aquilo
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
.
Em: A arca de Noé:poemas infantis, Vinícius de Moraes, Companhia das Letrinhas, São Paulo:1991
Tio Patinhas desconfia das contas a pagar. Ilustração de Walt Disney.
Na terra do cambalacho,
há sempre um jeitinho novo,
por lei ou simples despacho,
de dar o “cano” no povo…
(Thereza Costa Val)
Ilustração de Nicoletta Ceccoli.
Henriqueta Lisboa
Papagaio verde
deu um grito agudo.
Rocha numa raiva
brusca, respondeu.
Ganhou a floresta
um grande escarcéu.
Papagaios mil
o grito gritaram
rocha repetiu.
De um e de outro lado
metralhando o espaço
os gritos choveram
e choveram, de aço.
Gritos agudíssimos!
Mas ninguém morreu.
Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971, p. 38
Cartão postal, K. Nixon.
Sopra um vento suave, brando,
ondulando capinzais,
e os passarinhos, em bando,
se aninham nos matagais.
(Décio Valente)
Porquinho quer ajudar, ilustração de Walt Disney.
No mundo nada terás,
se não socorres alguém.
Ajuda, espera, e verás
como é bom fazer o bem!
(Almeida Corrêa)
Jorge Sousa Braga
As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Em: Herbário, Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim: 1999
Ilustração de T. Corbella.
Não vem dos nossos rivais
a ingratidão que exaspera.
— Geralmente a que dói mais
vem de quem menos se espera.
(Severino Uchôa)
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela
PESP –Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP
Renato Travassos
Um delicioso anseio me atordoa,
Netas lindas manhãs de primavera;
Em mim não me contenho, pois quisera
ter asas para voar sem rumo, à toa!
Os olhos pondo na azulada esfera,
Toda ave invejo que, liberta, voa:
Como seria, sendo livre, boa
A vida que me prende e desespera!
Nestas manhãs de luz maravilhosas
Em que sorrindo, desabrocham rosas,
Quem me dera dispor de duas asas, —
Para, contente, voar do vale à serra;
Para, louvando o que existir na terra,
A um tempo além pairar das coisas rasas!
Em: Oração ao Sol: obra completa, Renato Travassos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1946, 3ª edição, p. 97.