Da minha mesa de trabalho

29 09 2025
Na foto:
Montesquieu, Cartas Persas (leitura vagarosa, aparecerá muitas vezes por aqui)
André Giusti,  Só vale a pena se houver encanto
Oscar Nakasato, Ojiichan
Byung-Chul Han, No enxame

 

 

 

Muita gente me pergunta a razão de eu não postar mais dos meus próprios poemas ou ler no Instagram, onde leio uma poesia por dia (@escritora.ladycewest). Sou uma escritora vagarosa nas poesias.  Não que eu seja particularmente preciosista, ou não admita mudanças, mas não sou de chegar ao computador e colocar um poema por dia.  Mesmo os pequeninos levam algum tempo.  Talvez seja a inexperiência.

Mas há outro impasse: quando sou chamada para participar de uma antologia, quando me pedem uma contribuição; quando acho que um escrito merece entrar num concurso, todos os organizadores pedem que o trabalho seja inédito.  Inédito infelizmente quer dizer que não tenha aparecido em qualquer mídia antes. E a maioria considera a publicação em blog, principalmente um blog como este que tem visibilidade, muitos visitantes.  Logo, logo, uma pesquisa na internet e poema, conto, crônica  com o meu nome aparece,(também meu nome é fácil de achar), então é considerada obra já publicada, eliminando a possibilidade de colocá-la em outros canais.  Este ano já participei de 2 antologias e ano passado de outras duas com contos e poesias.  

Mas devo lançar meu próximo livro de poemas em 2026.  Então, aos poucos irei colocando um ou outro poema por aqui. Aí a explicação.  Boa noite. 





“Hiato”, poema de Ladyce West

29 09 2025

Casal comendo próximo à janela,1655

Frans van Mieris, o Velho (Holanda, 1635-1681)

óleo sobre madeira, 36 x 31 cm

UFFIZI, Florença

 

 

 

Hiato

 

Ladyce West

 

Contrariando a física

o tempo parou,

sugado por falha geológica

no descontínuo rolar das horas.

 

Lacuna espelhada na rua deserta

no som suspenso dos carros parados

no intervalo forçado de planos, projetos

breque em desejos, ambições e caprichos.

 

O inimigo invisível por todo lado.

Sombra ou sol, chuva ou névoa,

no ar respirado na cidade, ele impera.

 

Parou o mundo.  Em casa

à janela, abraçados, teimamos

na extravagância do viver.

(Junho, 2020)





Tua pulseira, poesia de Adherbal de Carvalho

24 09 2025
Tua pulseira

 

Adherbal de Carvalho

(1869-1915)

 

(A uma moça que me põe uma pulseira no braço)

 

Tenho beijado esta pulseira olente,

Cheia de amor e cheia de magia!

Aperto-a ao coração constantemente,

Como um sinal da tua simpatia!

 

Os elos, que se prendem nos meus braços,

Creio que têm um pouco de tua alma;

Alma subtil, voando nos espaços,

Alma de amor, que o meu delírio acalma!

 

Constantemente, eu a tateio a medo

E com caricia levo-a ao meu ouvido,

Afim de ver se encerra algum segredo

Que o teu amor acaso haja escondido!

 

E, no entanto, é tão fria, tão pacata,

Como o metal argênteo de que é feita!

Não há nada tão frio como a prata,

Ou como este aro que o meu braço enfeita.

 

Apesar d’isso, sei-a amar, querida,

E quero-a tanto como a ti desejo;

Pois vejo n’ela a minha e a tua vida,

O nosso amor entrelaçando um beijo!

 

Em: Efêmeras, Adherbal de Carvalho, 1894.





Carta-soneto, poesia de Célia de Cássia

15 09 2025
Cartão postal,  anos 20, séc. XX.

 

 

Carta-soneto

 

Célia de Cássia

 

“Escrevo-te pra dizer-te”, meu amor,

que minhas já não são as tuas cartas.

De folheá-las — velhas, já sem cor —

as minhas mãos nunca ficaram fartas!

 

As tuas cartas!  Doces e amargas…

Luar iluminando com fulgor

a minha escura estrada! Portas largas,

abrindo pra jardins plenos de flor!

 

Vão publicá-las. Dei-as de presente

(perdoa, amado, essas ideias loucas

que a meu viver já deram mil escolhos…)

 

Quero, dando-as a ler a toda gente,

que o amor que morreu em nossas bocas

possa ressuscitar em outros olhos…

 

Célia de Cássia (MG, 1909-?)





Trova das rosas

10 09 2025
Ilustração Jessie Willcox Smith.

Nesse exemplo se resume

um prêmio às almas bondosas:

fica sempre algum perfume

nas mãos que oferecem rosas!

 

(Aparício Fernandes) 





Impressionista, poesia de Adélia Prado

9 08 2025

Paisagem

Jorge de Mendonça (Brasil, 1879-1933)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

 

 

Impressionista

 

Adélia Prado

 

Uma ocasião,

meu pai pintou a casa toda

de alaranjado brilhante.

Por muito tempo

moramos numa casa,

como ele mesmo dizia,

constantemente amanhecendo.





Trova do pai

7 08 2025

 

 

É tão bom ser tua filha,

me espelhar em teu caminho,

desta vida, és maravilha,

espalhando teu carinho.

 

(Carmen Pio)





Trova do pai e do filho

6 08 2025
Ilustração Fred Irvin (1914-2006)

 

 

Ninguém nasce, filho ou Pai,

já prontinho e acabado;

dia a dia é que se vai

sendo aos poucos lapidado.

 

(Amilton Monteiro)





A flor e a fonte, poesia de Vicente de Carvalho

4 08 2025

Jovem grega próximo à fonte, 1850

Jean-Baptiste Camille Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela, 55 x 39 cm

Louvre

 

A flor e a fonte

 

Vicente de Carvalho

 

“Deixa-me, fonte!” Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte…
“Não me leves para o mar.”

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
“Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
“Caídas do azul do céu!…”

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
“Cantigas do rouxinol;
“Ai, festa das madrugadas,
“Doçuras do pôr do sol;

“Carícias das brisas leves
“Que abrem rasgões de luar…
“Fonte, fonte, não me leves,
“Não me leves para o mar!”

*

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor….

 

Em: Rosa, Rosa de Amor, 1902

         





Trova do pai

3 08 2025
Ilustração de  George L. Rapp (1878-1942)

 

 

Num retrato amarelado,

a saudade em mim se deu.

Ontem tinha o pai ao lado

Sem ele, hoje, o pai sou eu.

 

(José Feldman)