Simpatia, poesia infantil de Afonso Schmidt

20 06 2010
Menino com cachorro, ilustração Mark Arian.

Simpatia

                                             Afonso Schmidt

Numa tarde longa e mansa,

os dois pela estrafa vão:

o cão estima a criança,

e a criança estima o cão.

Que delicada aliança

dos seres da criação:

uma risonha criança,

um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança

e sorriu lá na amplidão:

ele gosta da criança,

que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,

os dois felizes lá vão:

a delicada criança

e o robustíssimo cão.

Em: Poesia brasileira para a înfância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968

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Afonso Schmidt

 

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

Lírios roxos, 1904

Miniaturas, 1905

Janelas Abertas (poesia), 1911

Lusitânia (ato em verso), 1916

Evangelho dos Livres (panfleto), 1920

Mocidade, 1921

Brutalidade (contos), 1922

Ao relento, 1922

Janelas Abertas (versos) – Edição Aumentada (Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, 1923

Os Impunes (novelas), 1923

As Levianas (peça em três atos), 1925

O Dragão e as Virgens (romance, 1927

Cânticos Revolucionários (panfletos), 1930

A nova conflagração, 1931

Garoa, 1931

Os Negros (crônicas), 1932

Garoa (poesia), 1932

Poesias, 1934

Carne para Canhão (peça em três atos), 1934

Pirapora (contos), 1934

Curiango (contos), 1935

Zanzalás (uma novela de tempos futuros), 1936

A Vida de Paulo Eiró (biografia), 1940

A Marcha (Romance da Abolição), 1941

O Tesouro de Cananéia (contos), 1941

No Reino do Céu (novela), 1942

A Sombra de Júlio Frank (biografia),1942

A árvore das lágrimas, 1942

Colônia Cecília (Uma aventura anarquista na América), 1942

O Assalto (Romance do ouro e do sal), 1945

Poesias (edição definitiva), 1945.

O Retrato de Valentina (novela), 1947

A Primeira Viagem (viagem), 1947

Menino Felipe (romance), 1950

Saltimbancos (romance), 1950

Aventuras de Indalécio (romance), 1951

Os Boêmios (contos), 1952

Dedo nos Lábios (novelas), 1953

O Gigante Invisível (divulgação), 1953

Carantonhas (novela juvenil), s/d

São Paulo dos Meus Amores (crônicas), 1954

A Marcha (romance da Abolição,  história em quadrinhos), 1955

Mistérios de São Paulo (reminiscência), 1955

Bom Tempo (memórias), 1956

A Datilógrafa (romance), 1958

A Locomotiva (romance), 1960

Mirita e o Ladrão (romance), 1960

O Retrato de Valentina (novela), 1961

O Canudo, 1963

O enigma de João Ramalho, 1963

O passarinho verde, s/d

Zamir, s/d





Corrente de formiguinhas, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

15 06 2010

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Corrente de formiguinhas
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                                                                      Henriqueta Lisboa

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Caminho de formiguinhas,

fiozinho de caminho.

Caminho de lá vai um,

atrás de uma lá vai outra.

Uma, duas argolinhas,

corrente de formiguinhas.

 

Corrente de formiguinhas,

centenas de pontos pretos,

cabecinhas de alfinete

rezando contas de terço.

 

Nas costas das formiguinhas

de cinturinhas fininhas

pesam grandes folhas mortas

que oscilam a cada passo.

Nas costas das formiguinhas

que lá vão subindo o morro

igual ao morro da igreja,

folhas mortas são andores

nesta procissão dos Passos.

 

 

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, vol I, Rio de Janeiro, Delta: s/d.

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Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira.  Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

 Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento

 

 





10 de junho, Dia de Camões

10 06 2010

Aniversário, 1915

Marc Chagall ( Bielorrússia 1887 — França 1985)

óleo sobre tela 81 x 100 cm

MOMA ( Museu de Arte Moderna) , N ova York

Para comemorar o Dia de Camões escolhi postar um dos mais belos sonetos em língua portuguêsa.  Pelo tema, começo também a celebrar o Dia dos Namorados que aqui no Brasil se comemora no dia 12 de junho.  Este é bem conhecido, muitos de nós até sabemos partes sem saber que são versos de Camões.  Pois aqui está:

Amor é fogo que arde sem se ver

 

                                                                             Luís de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?





Os primeiros livros, poema de Bastos Tigre

9 06 2010
O livro do ABC, 1943, ilustrado por Ethel Hays ( EUA 1892-1989).

Os primeiros livros

                                                                                       Bastos Tigre

Um livro: — um lindo brinquedo

Que Bebê fica a mirar:

Cada página é um segredo

          A desvendar.

 

Livro de folhas escritas

E ilustradas — mais de cem!

Quantas histórias bonitas

          Ele contém!

 

Figuras de vivas cores,

Lindamente combinadas:

Casas, bichos, frutas, flores,

          Bruxas e fadas…

 

E a explicação disso tudo

Em grandes letras impressas!

Bebê, radiante no estudo,

          Firme, começa!

 

Essas letras, essas frases

Têm tais sentidos ocultos,

Que entender não são capazes

          Doutos adultos.

 

É preciso ter cinco anos

— E nem todo mundo os tem —

Para poder tais arcanos

          Penetrar bem.

 

Por leitura eu não entendo

O que eu faço e faz qualquer,

As letras do que está lendo

          Sem ver sequer.

 

Bebê cada letra estuda,

Em cada sílaba atenta,

Franzindo a testa sisuda,

          Descobre, inventa,

 

 Decifra um novo mistério

A cada voz que enuncia

Que estudo não há mais sério,

          De mais valia.

 

E é de notar-se o ar solene

Com que as silabas lê:

Já não confunde o “m” e o “n”,

          O “p” e o “q”…

 

Ei-lo que as letras combina,

Forma os sons e, num momento,

Vai-lhe a frase, da retina

          Ao pensamento.

 

Maravilha do alfabeto

Que dos arranjos de traços

Faz surgiur a idéia, o objeto!

          Novos espaços.

 

Abre à razão ignorante,

Dá-lhe asas de luz e a eleva,

Radiosa, para o levante,

          Longe da treva!

 

Que humano invento o suplanta?

Só um Deus pudera, em verdade,

Tal grandeza por em tanta

          Simplicidade.

 

Vendo-o tão simples, dir-se-ia

— Do nada tão pouco além…

Que humana sabedoria

          Do nada vem…

 

Quase-nada, gérmen ovo,

Do saber, célula mater,

Sem ele não tem um povo

          Alma, caráter…

 

                          ***

 

Mas Bebê quer tudo feito

Depressa; e anseia por ciência!

(Não é seu menor defeito

          O da impaciência).

 

E, antes que os frutos recolha

Da cultura, ah, quem dissera!

Todo o livro, folha a folha,

          Zás, dilacera!

 

 

 

Em: Meu bebê: poesias líricas ( Poemas da primeira infância), 1925. [Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras].





O esqueleto, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

3 06 2010

La Catrina, s/d

[La Catrina é um personagem folclórico do México]

 José Guadalupe Posada (México 1852-1913)

gravura aquarelada

O esqueleto

                                                      Walter Nieble de Freitas

Por causa de um esqueleto

Corri a não poder mais:

Assustado entrei em casa

E contei tudo a meus pais

“O esqueleto, seu bobinho,

Nunca foi assombração:

É ele um conjunto de ossos

Dispostos em armação.

Sua função principal

É manter o corpo ereto;

Tem cabeça, tronco e membros

Todo esqueleto completo.

Preste, pois, muita atenção,

Guarde bem, jamais se esqueça:

Somente de crânio e face

Se constitui a cabeça.

O tronco tem só três partes,

Vou dizer-lhe quais são elas:

A coluna vertebral,

O esterno e as costelas.

Os membros são conhecidos:

Os de cima superiores;

E os que servem para andar,

São chamados inferiores”.

Até agora não compreendo

Como é que fui tolo assim:

Correr de um pobre esqueleto

Tendo outro esqueleto em mim!

 Em Barquinhos de papel: poesias infantis, São Paulo, Editora Difusora Cultural:1961.

 

 

 

Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP)  Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.

Obras:

Barquinhos de papel, poesia, 1963

Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966

Desfile de modas na Bicholândia, 1988

Simplicidade, poesia, s/d

Chico Vagabundo e outras histórias, 1990

O esqueleto humano





Os óculos da vovó, poema infantil de Dom Marcos Barbosa

28 05 2010

Os óculos da vovó

 

Dom Marcos Barbosa

— Como acabar meu tricô,

como assistir à novela,

se esses óculos benditos

me somem sem mais aquela?

 —

Vovó, procurando os óculos,

vai do quarto para a sala

e de novo volta ao quarto,

sem ninguém para ajudá-la.

 —

E até parece que os netos

estão a se divertir,

pois mesmo seu predileto

faz força para não rir.

— 

Deve saber onde estão,

porque lhe diz o malvado:

– Já está ficando quente

seu chicotinho queimado!

 —

E o diz quando está no quarto

ou à sala torna a voltar.

– Mas como pode uma coisa

em dois lugares estar?

 —

Em sinal de desespero

leva então as mãos à testa:

ali estão os seus óculos

e tudo vira uma festa.

Dom Marcos Barbosa [nome civil:  Lauro de Araújo Barbosa]  (MG 1915 – RJ, 1997) Sacerdote, monge beneditino,poeta e tradutor.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

 Obras:

Teatro, 1947

Livro do peregrino, XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, 1955

A noite será como o dia: autos de Natal, 1959

O livro da família cristã, 1960,

Poemas do Reino de Deus, 1961

Mãe nossa, que estais no céu, s.d.

Para a noite de Natal: poemas, autos e diálogos, 1963

Para preparar e celebrar a Páscoa: autos, diálogos e fogo cênico, 1964

Eis que vem o Senhor, 1967

O livro de Tobias, 1968

Oratório e vitral de São Cristóvão, 1969

Manifestações de autonomia literária: A Escola Mineira e outros movimentos. In: História da Cultura Brasileira, 2 vols., 1973-76

Um menino nos foi dado, org. de Lúcia Benedetti. In: Teatro infantil, 1974

A arte sacra, 1976

Nossos amigos, os Santos, 1985

Congonhas, Bíblia de cedro e de pedra, e co-autoria com Hugo Leal, 1987

Um encontro com Deus: Teologia para leigos, 1991

As vinte e seis andorinhas, 1991

Poemas para crianças e alguns adultos, 1994





Dom Ratinho e Dom Ratão, poesia infantil de Helena Pinto Vieira

20 05 2010
Desenho infantil.

Dom Ratinho e Dom Ratão

Helena Pinto Vieira

Dom Ratinho, elegante morador lá da cidade,

come queijo, come pão, da mais alta qualidade;

Dom Ratão, o pobrezinho que mora lá no jardim,

vai comendo o que pode, sem se queixar, mesmo assim.

Dom Ratinho, boa casa sempre teve pra morar;

calça luvas, põe cartola e a bengala faz girar;

amigo das rãs e sapos, Dom Ratão, pobre coitado,

vive sempre escondido, é roceiro envergonhado.

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, vol. I, Rio de Janeiro, Delta: 1975, p. 68





Os sapos, poema de Manuel Bandeira

19 05 2010

Os sapos

                                                                      Manuel Bandeira

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os delumbra.

Em ronco que a terra,

Berra o sapo-boi:

— “Meu pai foi à guerra!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

O sapo-tanoeiro

Parnasiano aguado,

Diz: — ” Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte!  E nunca rimo

Os termos cognatos.

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:

— “Meu pai foi rei” — “Foi!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

— “A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatutário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

–“Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio…

                                                                           1918

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Manuel Bandeira (Recife PE, 1884 – Rio de Janeiro RJ, 1968) foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Teve seu primeiro poema publicado aos 8 anos de idade, um soneto em alexandrinos, na primeira página do Correio da Manhã, em 1902, no Rio de Janeiro. Cursou Arquitetura, na Escola Politécnica, e Desenho de Ornato, no Liceu de Artes e Ofícios, entre 1903 e 1904; precisou abandonar os cursos, no entanto, devido à tuberculose. Nos anos seguintes, passou longos períodos em estações climáticas, no Brasil e na Europa.

Obras:

Poesia 

A cinza das horas, 1917

Carnaval, 1919

O ritmo dissoluto, 1924

Libertinagem, 1930

Estrela da manhã, 1936

Lira dos cinquent’anos, 1940

Belo, belo, 1948

Mafuá do malungo, 1948

Opus 10, 1952

Estrela da tarde, 1960

Estrela da vida inteira, 1966

Prosa 

Crônicas da Província do Brasil – Rio de Janeiro, 1936

Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938

Noções de História das Literaturas – Rio de Janeiro, 1940

Autoria das Cartas Chilenas – Rio de Janeiro, 1940

Apresentação da Poesia Brasileira – Rio de Janeiro, 1946

Literatura Hispano-Americana – Rio de Janeiro, 1949

Gonçalves Dias, Biografia – Rio de Janeiro, 1952

Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954

De Poetas e de Poesia – Rio de Janeiro, 1954

A Flauta de Papel – Rio de Janeiro, 1957

Itinerário de Pasárgada – Livraria São José – Rio de Janeiro, 1957

Andorinha, Andorinha – José Olympio – Rio de Janeiro, 1966

Itinerário de Pasárgada – Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966

Colóquio Unilateralmente Sentimental – Editora Record – RJ, 1968

Seleta de Prosa – Nova Fronteira – RJ

Berimbau e Outros Poemas – Nova Fronteira – RJ

 





Amar os outros, soneto de Antônio Correia de Oliveira

14 05 2010

 

Amar os outros

 

                                         Antônio Correia de Oliveira

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Olhai aquela abelha industriosa:

Como ela é bela!  e viva!  e diligente!

Parece a luz duma candeia ardente

Com asas, a esvoaçar, alegre e ansiosa.

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Como ela é bela!  A vida, como a sente?

Que sentidos a trazem, cuidadosa,

Mal nasce o sol,  lidando, rosa em rosa,

Em dourado zumbido tão contente?

 —

Que sente?  E como sente?  Quem, ao certo,

Pudesse ler, como num livro aberto,

Mistérios de que a vida se rodeia…

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Naquela abelha, encanta-me pensar

Que ela sabe que vive a trabalhar

Para o sustento e o amor de uma colméia.

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa,  MEC, Rio de Janeiro: 1961

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Antônio Correia de Oliveira ( Portugal, 1878 —1960) poeta. Estudou no seminário de Viseu, indo depois para Lisboa onde trabalhou como jornalista no Diário Ilustrado. Ladainha (1897)

Obras:

Eiradas (1899)

Cantigas (1902)

Raiz (1903)

Ara (1904)

Tentações de S. Frei Gil (1907)

Elogio dos Sentidos (1908)

Alma Religiosa (1910)

Dizeres do Povo (1911)

Romarias (1912)

A Criação. Vida e História da Árvore (1913)

A Minha Terra (1915-1917)

Na Hora Incerta (Viriato Lusitano) (1920)

Verbo Ser e Verbo Amar (1926)

Mare Nostrum (1939)

História Pequenina de Portugal Gigante (1940)

Aljubarrota ao Luar (1944)

Saudade Nossa (1944)

Redondilhas (1948)

Azinheira em Flor (1954)





O jumento, poesia de Lêdo Ivo

11 05 2010
Ilustração anônima.

O jumento

                                                                               Lêdo Ivo

No alto da crestada ribanceira

pasta o jumento.  Seus grandes dentes amarelos

trituram o capim seco que restou

de tanta primavera.

A terra é escura.  No céu inteiramente azul

o sol lança fulgores que aquecem

tomates, alcachofras, berinjelas.

O jumento contempla o dia trêmulo

de tanta claridade

e emite um relincho, seu tributo

à beleza do universo.

 

Lêdo Ivo, (AL 1924 )–jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, nasceu em Maceió, AL, em 18 de fevereiro de 1924. Eleito em 13 de novembro de 1986 para a Cadeira n. 10, sucedendo a Orígenes Lessa, foi recebido em 7 de abril de 1987, pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa.

Obras:

As imaginações, poesia, 1944

Ode e elegia, poesia, 1945

As alianças, romance, 1947

Acontecimento do soneto, poesia, 1948

O caminho sem aventura, romance, 1948

Ode ao crepúsculo, poesia, 1948

Cântico, poesia, 1949

Linguagem, poesia, 1951

Lição de Mário de Andrade, ensaio, 1951

Ode equatorial, poesia, 1951

Um brasileiro em Paris e O rei da Europa, poesia, 1955

O preto no branco, ensaio, 1955

A cidade e os dias, crônicas, 1957

Magias, poesia, 1960

O girassol às avessas, ensaio, 1960

Use a passagem subterrânea, contos, 1961

Paraísos de papel, ensaio, 1961

Uma lira dos vinte anos, reunião de obras poéticas anteriores, 1962

Ladrão de flor, ensaio, 1963

O universo poético de Raul Pompéia, ensaio, 1963

O sobrinho do general, romance, 1964

Estação central, poesia, 1964

Poesia observada, ensaios, 1967

Finisterra, poesia, 1972

Modernismo e modernidade, ensaio, 1972

Ninho de cobras, romance, 1973

O sinal semafórico, reunião de sua obra poética, 1974

Teoria e celebração, ensaio, 1976

Alagoas, ensaio, 1976

Confissões de um poeta, autobiografia, 1979

O soldado raso, poesia, 1980

A ética da aventura, ensaio, 1982

A noite misteriosa, poesia, 1982

A morte do Brasil, romance, 1984

Calabar, poesia, 1985

Mar oceano, poesia, 1987

Crepúsculo civil, poesia, 1990

O aluno relapso, autobiografia, 1991

A república das desilusões, ensaios, 1995

Curral de peixe, poesia, 1995

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Uma entrevista com Lêdo Ivo:

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