Soneto LXXII, de Paula Brito

16 09 2024
Ilustração de Walter Crane, 1878

 

 

Soneto LXXII

 

Paula Brito

 

“Quem pode ver-te sem querer amar-te!
Quem pode amar-te sem morrer de amores!…
(Maciel Monteiro)

 

 

Amo-te… e de te amar não me arrependo,

Bem que seja este amor, amor perdido!

Oh! se nunca te houve conhecido,

No fogo, em que ardo, não vivera ardendo!

 

Vejo o que fazes, e estou nisso vendo

Rasgos de amor de um coração ferido!

Também amei, também tenho sofrido,

Amo também,  também estou sofrendo!…

 

Não me queixo de ti, não, certamente;

O teu futuro, por teu mal, te obriga

Ao penoso martírio do presente!

 

Aqui tens a razão que a ti me liga:

“Se te sigo, me pedes que me ausente;

Se me ausento, me pedes que te siga!…”

 

 

Em: Poesias, Francisco de Paula Brito, Rio de Janeiro, 1863, edição digitalizada, Biblioteca Nacional.

PS: atualizei ao máximo a ortografia que já mudou muito nestes últimos 150 anos.





Trova da vida

3 09 2024

Olhando a vida vivida,

esta pergunta passou:

-fui eu que fiz minha vida,

ou fez-me a vida o que sou?

 

(Baptista Nunes)





Trova do rio

28 08 2024
Ilustração Nilva, 1980

 

Nem ouro, nem pedra rara,

nada que vem do garimpo,

vale um fio de água clara

no leito de um rio limpo…

 

(Aloísio Alves da Costa)





Olhos verdes, poema de Vicente de Carvalho

23 08 2024
Ilustração de revista, anos 60.  Ignoro a autoria.

 

 

Olhos Verdes

 

Vicente de Carvalho

 

Olhos encantados, olhos cor do mar

Olhos pensativos que fazeis sonhar!

Que formosas cousas, quantas maravilhas

Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:

Cortes pitorescos de afastadas ilhas

Abanando no ar seus coqueirais em flor,

Solidões tranquilas feitas para o beijo,

Ninhos verdejantes feitos para o amor…

 

Olhos pensativos que falais de amor!

Vem caindo a noute, vai subindo a lua…

O horizonte, como para recebê-las,

De uma fímbria de ouro todo se debrua;

Afla a brisa, cheia de ternura ousada,

Esfrolando as ondas, provocando nelas

Bruscos arrepios de mulher beijada…

Olhos tentadores da mulher amada!

 

Uma vela branca, toda alvor, se afasta

Balançando na onda, palpitando ao vento;

Ei-la que mergulha pela noute vasta,

Pela vasta noute feita de luar;

Ei-la que mergulha pelo firmamento

Desdobrado ao longe nos confins do mar…

Olhos cismadores que fazeis cismar!

 

Branca vela errante, branca vela errante,

Como a noite é clara! como o céu é lindo!

Leva-me contigo pelo mar… Adiante!

Leva-me contigo até mais longe, a essa

Fímbria do horizonte onde te vais sumindo

E onde acaba o mar e de onde o céu começa…

Olhos abençoados, cheios de promessa!

Olhos pensativos que fazeis sonhar,

         Olhos cor do mar!

 

                  (Poemas e canções, 1908)





Trova da Lua

13 08 2024
Ilustração Helena Perez Garcia.

Exausta de solidões

de um céu escuro e vazio,

a lua busca emoções

no leito alegre do rio.

(Durval Mendonça)





Autorretrato, poema de Mário Faustino

2 08 2024

Rapaz com capucho

Carlos Alberto Petrucci (Brasil, 1919 – 2012)

óleo sobre tela

 

 

Autorretrato

 

Mário Faustino

 

O mar reza por mim

Somente sua voz terrível é digna daquele

a quem retorno o mais triste dos homens

embora nunca tenha sido o pródigo

Sou apenas uma pobre criança

pela primeira vez diante de si própria

E que tenho medo

 

As imagens penetram a face intacta

e os ouvidos resistem à sinfonia

nada mudou apenas eu transbordo.

Também há quantos eu não escrevo poemas?

Há miríades de séculos irmão,

 

25/2/1948

 

Em: O homem e a sua hora e outros poemas, Mário Faustino, org. Maria Eugenia Boaventura, São Paulo, Companhia das Letras: 2009, p. 203





O cacto, poema de Manuel Bandeira

29 07 2024

Mandacaru, 1951

Dimitri Ismailovitch, (Ucrânia-Brasil, 1892-1976)

crayon e pastel sobre papel, 54 x 36 cm

 

 

 

O Cacto

 

Manoel Bandeira

 

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:

Laocoonte constrangido pelas serpentes,

Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o nosso seco Nordeste, carnaubais, caatingas…

Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

 

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou atravessado na rua,

Quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:

 

– Era belo, áspero, intratável.

 

Petrópolis, 1925

 

Em: Libertinagem, Manuel Bandeira, Global Editora, São Paulo, 2013





A preguiça, poesia infantil de Martins D’Alvarez

27 07 2024
Ilustração anônima, alegoria da Preguiça.

 

 

A preguiça

 

Martins D’Alvarez

 

A preguiça ficou doente

Com preguiça de comer.

Preguiça não quis remédio

Com preguiça de beber.

 

Preguiça não sai de casa

Preguiça de levantar!

Preguiça não se espreguiça

Preguiça de esticar.

 

Preguiça tem tal preguiça

De sarar e de viver,

Que preguiça só não morre

Com preguiça de morrer.

 

Em: No mundo da lua, Martins D’Alvarez, Editora Casa de José de Alencar, UFC:2000





Trova do inverno

22 07 2024
Ilustração, para Life Magazine, 1940,  Albert Dorne (EUA, 1904-1965).

 

 

Na lareira, um cobertor;

bule quente com café;

um romance ao bom leitor

neste inverno o prazer é…

 

(Fábio Siqueira do Amaral)





Três idades, poesia de Manuel Bandeira

18 07 2024

Três idades da mulher, 1905

Gustav Klimt (Áustria, 1862-1908)

óleo sobre tela, 180 x 180 cm

Galeria Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, Roma

 

 

Três idades

 

Manuel Bandeira

 

A vez primeira que te vi,

Era eu menino e tu menina.

Sorrias tanto… Havia em ti

Graça de instinto, airosa e fina.

Eras pequena, eras franzina…

 

A ver-te, a rir numa gavota,

Meu coração entristeceu

Por que? Relembro, nota a nota,

Essa ária como enterneceu

O meu olhar cheio do teu.

 

Quando te vi segunda vez,

Já eras moça, e com que encanto

A adolescência em ti se fez!

Flor e botão… Sorrias tanto…

E o teu sorriso foi meu pranto…

 

Já eras moça… Eu, um menino…

Como contar-te o que passei?

Seguiste alegre o teu destino…

Em pobres versos te chorei

Teu caro nome abençoei.

 

Vejo-te agora. Oito anos faz,

Oito anos faz que não te via…

Quanta mudança o tempo traz

Em sua atroz monotonia!

Que é do teu riso de alegria?

 

Foi bem cruel o teu desgosto.

Essa tristeza é que diz…

Ele marcou sobre o teu rosto

A imperecível cicatriz:

És triste até quando sorris…

 

Porém teu vulto conservou

A mesma graça ingênua e fina…

A desventura te afeiçoou

À tua imagem de menina.

E estás delgada, estás franzina…

 

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 27-28.