Ilustração, para Life Magazine, 1940, Albert Dorne (EUA, 1904-1965).
Na lareira, um cobertor;
bule quente com café;
um romance ao bom leitor
neste inverno o prazer é…
(Fábio Siqueira do Amaral)
Na lareira, um cobertor;
bule quente com café;
um romance ao bom leitor
neste inverno o prazer é…
(Fábio Siqueira do Amaral)
Três idades da mulher, 1905
Gustav Klimt (Áustria, 1862-1908)
óleo sobre tela, 180 x 180 cm
Galeria Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, Roma
Manuel Bandeira
A vez primeira que te vi,
Era eu menino e tu menina.
Sorrias tanto… Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina…
A ver-te, a rir numa gavota,
Meu coração entristeceu
Por que? Relembro, nota a nota,
Essa ária como enterneceu
O meu olhar cheio do teu.
Quando te vi segunda vez,
Já eras moça, e com que encanto
A adolescência em ti se fez!
Flor e botão… Sorrias tanto…
E o teu sorriso foi meu pranto…
Já eras moça… Eu, um menino…
Como contar-te o que passei?
Seguiste alegre o teu destino…
Em pobres versos te chorei
Teu caro nome abençoei.
Vejo-te agora. Oito anos faz,
Oito anos faz que não te via…
Quanta mudança o tempo traz
Em sua atroz monotonia!
Que é do teu riso de alegria?
Foi bem cruel o teu desgosto.
Essa tristeza é que diz…
Ele marcou sobre o teu rosto
A imperecível cicatriz:
És triste até quando sorris…
Porém teu vulto conservou
A mesma graça ingênua e fina…
A desventura te afeiçoou
À tua imagem de menina.
E estás delgada, estás franzina…
Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 27-28.
A garoa é ouro fino
das arcas celestiais
que desce em fluido divino
na terra dos cafezais …
(Durval Mendonça)
Ferrovia
Dario Mecatti (Itália-Brasil, 1909-1976)
óleo sobre tela, 49 x 61 cm
José do Carmo Francisco
Um comboio que partisse
Sem sair da estação
No lado esquerdo da linha
Transporte dum coração
Um comboio que chegasse
Na ânsia de não saber
Qual janela escolhida
No trânsito desta mulher
Afinal sombra, um modelo
Visto apenas de passagem
O comboio não se deteve
Não era minha viagem
Afinal pó de um momento
Registrado num poema
Se o comboio esteve aqui
Era o mesmo do cinema
Em: As emboscadas do esquecimento, José do Carmo Francisco, Santarém, Ed. O Mirante:1999, p.40
Jovem lendo, 2008
Jose van Gool (Holanda, 1945)
óleo sobre tela
Mário Faustino
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
[27/7/1954]
Em: O homem e sua hora e outros poemas, Mário Faustino, org. Maria Eugênia Boaventura, São Paulo, Companhia das Letras: 2009, p.195
Jovem lendo
Pietro Scoppetta (Itália,1863-1920)
óleo sobre tela , 75 x 38 cm
Não conhecia Júlia Cortines. Fiquei encantada. Sou leitora assídua de poesia brasileira e de outros países em língua portuguesa. Júlia Cortines me surpreendeu. Tive vontade de decorar todos os seus sonetos! De grande sensibilidade. Vale a pena conhecer. Li e baixei da internet. A introdução de Lucio Miranda também vale a pena ler.
Tive vontade de ter escrito alguns de seus poemas, ainda que usem de palavras mais século XIX do que usamos hoje. Suas poesias sobre a natureza e sobre o amor perdido, valem a leitura e se quisermos até mesmo uma olhadinha no dicionário, ainda que não seja essencial.
Livro: Versos e Vibrações, (1894) Júlia Cortines, com prólogo de Lucio de Mendonça, Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2010
Bendito seja o poeta
que na leveza do verso
enfeita, acalanta, aquieta
toda a angústia do universo.
(Vera Vargas)
Não sei que mais me fascina,
que mais me traz entre abrolhos:
se os olhos dessa menina,
se as meninas desses olhos!
(Belmiro Braga)
Maria Dinorah
Menina das brancas asas,
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si,
quando passas pelas casas,
canta a rua e o céu sorri.
Tanto encanto há no seu jeito
feito de campo e açucena,
que as águas dançam no leito
enquanto a lua te acena.
Um anjo morre de inveja,
um astro morre de amor
ao ver-te cor de cereja,
tingindo o mundo de cor.
Menina, tão menininha,
nem sabes que és uma flor!