Um e outro, poesia de João Manuel Simões

7 02 2013

homem que voa, isabelle arsenault, montrealIlustração de Isabelle Arsenault.

Um e outro

Il est perdu jadis.

Mais il est vivant encore.

Maintenant et toujours.

SAINT-JOHN PERSE

João Manuel Simões

São dois meninos.

Coexistem em mim

constantemente:

o adulto terrestre

e o jovem alado,

seu mestre.

Inquilinos,

até o fim,

um dos quartos da mente,

outro do corpo cansado.

Em: Poemas da infância: antologia poética, João Manuel Simões, Curitiba, HDV:1989





Nota do Carnaval de 1939 — texto de Marques Rebelo

7 02 2013

Aloysio Zaluar, O Clovis Vem Aí, 1977, OSM

O Clóvis vem aí, 1977

Aloysio Zaluar (Brasil, 1937)

óleo sobre madeira

21 de fevereiro [1939]

Hoje, terça-feira gorda, é o dia dos préstitos das grandes sociedades e, pelos anúncios de página inteira com evoés e versalhada, haverá muita alegoria estadonovista com subvencionados ouropeis, que os míopes poderão tomar como realidades estadonovistas.  Que saiam! A estas horas já devem estar na rua, enguiçando nas curvas mais fechadas, com suas fanfarras, com suas encarapitadas deidades seminuas, que Aldina tão doidamente invejava, com seus fogos-de-bengala deixando acessos de tosse na esteira. Aqui permanecerei distante de tanta beleza. Um toque de incubada melancolia acordou comigo, comigo esteve o dia inteiro como uma dormência – refuguei a leitura, refuguei o rádio, a vitrola, a conversa, a visita dos amigos, dormitei quanto pude, entreguei-me sem resistência ao devaneio, algo doce, algo de prisioneiro, pescador à beira do escuro mar com cantos de sereias.

Luísa não compreende a súbita névoa, que a convivência é caixa perene de surpresas:

— Que é que você tem, filhotinho?

— Também não sei, querida. Também não sei.

E certamente estaria falando a verdade. Há verdades que se falam.

Em: A Mudança, segundo tomo de O Espelho Partido, Marques Rebelo, São Paulo, Martins:1962.

 





Quadrinha do meu jardim

6 02 2013

jardim, portão, Ethel Blains ,House and Garden 1921-04Jardim, ilustração de Ethel Blains, capa da Revista House & Garden, Abril 1921.

Melhor entretenimento
não existe para mim:
é ver, a cada momento,
mais flores no meu jardim!
(Giva da Rocha)




O amor materno, texto de Garcia Redondo

5 02 2013

mãe e filho, 1922, John Rae

Mãe e filho no jardim, ilustração de John Rae, 1922.

O Amor Materno

Garcia Redondo

No fundo da chácara, numa touceira de arbustos, um menino encontrou um ninho, onde três avezinhas mal emplumadas dormiam. Contente do seu achado e no desejo inconsciente de se apoderar dele, o menino meteu o braço por entre a trama dos galhos e das folhas e aproximou a mão cobiçosa dos pobres inocentes, que logo ergueram para ele o biquinho e o sussurro duma asa que lhe roçou pelo rosto.  Depois sentiu que essa asa lhe batia nos olhos e que um bico audaz lhe espicaçava o rosto. Tímido, receoso dessa inesperada agressão, retirou o braço e olhou. Era um tico-tico, a mãe da avezinhas no ninho, que defendia a prole, e continuou a atacar o menino, enquanto ele permaneceu junto à touceira de arbustos. Saindo dali, muito admirado da audácia e da coragem  dessa ave minúscula, o menino contou o caso à mãe. E a mãe lhe disse:

— Não há que estranhar, meu filho: essa avezinha faz pelos filhos o que eu faria por ti.

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

Em: Flor do Lácio, Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva:1964, página 202.





Quadrinha do canto do galo

5 02 2013

 

galo, ilustração de livro, sem autoria, 1890Galo, ilustração de livro, sem autoria, 1890.

A serenata de um galo
vai, de quebrada em quebrada,
e de intervalo a intervalo,
acordando a madrugada!

(Sebastião Paiva)





História contada ou romance histórico? Café Amargo de José Carlos Tórtima

5 02 2013

Servadei, sentados a mesa, ost, 26x30

Sentados à mesa, s/d

Sílvia Reali Servadei (Brasil, 1949)

óleo sobre tela, 26 x 30 cm

Geralmente quando dou três estrelas a um romance, não escrevo uma resenha  sobre ele.  Três estrelas de cinco, significa médio: é o caso do meio cheio, meio vazio, ou seja,  vai depender do leitor.  Esta leitora pode não ter visto o que outros verão.  Em geral, eu me abstenho da resenha, por não querer melindrar e por achar que talvez a falta de empatia com o autor da narrativa seja só minha.

Mas o livro Café Amargo, de José Carlos Tórtima sugeriu tantas questões a respeito do que é um romance histórico, que gostaria de reabrir um debate iniciado há dois anos, no blog, sobre literatura que tem embutida um objetivo, uma mensagem de cunho político, religioso, ou outro, em oposição à que se apresenta sobretudo como uma boa história.  Poucos são os escritores que conseguem fazer com a primeira um bom produto.  A intenção da mensagem acaba comprometendo o resultado.  Isso me leva a considerar a diferença entre o contador de causos e o romancista. Há escritores como José Carlos Tórtima que são excelentes contadores de causos.  Eles têm a habilidade de fazer um apanhado das etapas relevantes de um acontecimento histórico ou anedótico e engatá-las numa corrente que nos mostra como uma época ou um evento se desenrolou.  É nessa categoria que vejo a maior parte dos escritores de romances históricos brasileiros.

cafe-amargo-o-primeiro-romance-de-jose-carlos-tortima-sera-lancado-nesta_1

No caso específico de Café Amargo o romance pertence à primeira categoria, à narrativa de causos com um objetivo: mostrar como se vivia na época da ditadura de Getúlio Vargas; revelar, para quem ainda não conhecia, os meios de ação da polícia de Filinto Müller;  lembrar como a política era personalizada e trazer à baila a conhecida obsessão de Vargas pela vedete Virginia Lane [aqui dignamente escondida sob pseudônimo].  Ficam claras, ao longo da história, as conseqüências colhidas por aqueles que contrariavam os desejos do ditador.  É uma época riquíssima de mandos e desmandos, um período complexo da história brasileira, com muitos causos para serem contados e tecidos em romance.  Pouco explorada pelos escritores, talvez porque nem todos queiram relembrar ou trazer à tona os desmandos dessa ditadura este parece ser o momento perfeito para se  retirar os véus de um regime que é visto até hoje com dubiedade,  por se apresentar também como “protetor do trabalhador”.  Essa “boa-vontade” brasileira com o poder autoritário encontra abrigo no silêncio de escritores e intelectuais que frequentemente simpatizam com a militância de esquerda, que insiste em fechar os olhos aos desmandos da era Vargas.

Sou grande apreciadora de romances históricos, de época. São um meio maravilhoso de nos apossarmos da pesquisa dos outros, de absorvê-la e com ela colorir os nossos conhecimentos de história.  Vemos o passado pelos olhos do escritor que o estudou, que se dedicou a levantar dados. E nos enriquecemos.  O que vejo em Café Amargo e, deixe-me deixar claro em muitos romances históricos brasileiros, é uma maneira de ver os eventos e personagens da História como centro da narrativa.  Como se os eventos por si só bastassem, fossem de interesse. O resultado prejudica  o desenvolvimento de uma trama mais densa, de maior peso.  Essa atenção ao evento histórico simplifica  os personagens, tornando-os tão leves quanto papel. Mesmo nesse romance, onde abundam detalhes periféricos, detalhes precisos, endereços, números de linhas de transportes públicos,  esquinas do centro da cidade, até novelas de rádio mais populares, o ambiente criado não é suficiente para dar densidade, força ao romance.  Esses detalhes não criam um ambiente que os personagens habitem com credibilidade, que ajam com suas características únicas. Falta-lhes tridimensionalidade, emoções que nos seduzam.  A leitura é fria. Não me importei com o que iria acontecer, mas segui em frente, porque a prosa é boa, flui.  Mas não cativa.  Era como ouvir uma história num fim de tarde, o que aconteceu com meu amigo na rua, no ônibus.  O relato de um evento.  Faltaram tramas, subtramas, intrigas, emoções escondidas e outra desvendadas pelas ações dos personagens.  Faltou conspiração. Onde estão os personagens feitos de carne e osso, com defeitos e qualidades, com emoções e desconexões?  Faltou vida.

jose-carlos-tortimaJosé Carlos Tórtima

Não quero desencorajar o escritor.  Muito pelo contrário.  Gostaria de ver o romance histórico no Brasil mais comum e mais sofisticado.  A leitura de romances históricos de outras terras nos dá algumas dicas.  Criar um personagem menor que testemunhe os eventos é uma das soluções encontradas por Bernard Cornwell, por exemplo com Richard Sharp,soldado inglês  nas  guerras napoleônicas.  Philippa Gregory no livro  Earthly Joys * (não traduzido) concentra sua atenção num personagem histórico de menor importância, um jardineiro, John Tradescant,  viajante, um homem comum, com quem os leitores conseguem se identificar, que agindo dentro da sua limitada esfera de influência, nos oferece  uma rica visão da Inglaterra do século XVII.  Arnau Estanyol  também é um personagem fictício que nos ensina sobre a dura realidade da vida em Barcelona da Idade Média, na época da construção da Catedral do Mar. Ele foi criado por Ildefonso Falcones, que assim como José Carlos Tórtima deixou a vida de advogado para a de romancista.  Existem inúmeros exemplos de densidade de trama em romances históricos, onde personagens fictícios conseguem nos seduzir e nos fazer entender os porquês de certos acontecimentos.   Acredito que José Carlos Tórtima, com sua extensa experiência de advogado criminalista, esteja corretíssimo nos detalhes de tudo que relata no romance.  E isso já é mais do que meio caminho andado.   Agora, gostaria de vê-lo desenvolver o que aprendeu nas cortes brasileiras sobre as vicissitudes humanas e explorar essas emoções para nos presentear com um ou mais romances históricos do calibre que merecemos ter.

* Agradeço à leitora Tereza pela sugestão de que o título dessa publicação havia sido traduzido como Terra Virgem. Mas Terra Virgem é a tradução de Wide Acre, e não de Earthly Joys.




Papagaio de papel, poesia infantil de Carlos Chiacchio

4 02 2013

David Ricci, Segurando Pipa esperando o vento, 2005, ost, 60x 40cm

Menino segurando pipa, 2005

David Ricci (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 40 cm

Papagaio de papel

Carlos Chiacchio

Certa vez, era noite de luar,

Havia vento

A valer.

Bom para empinar

Meu papagaio oblongo de espavento.

Se havia vento, que importava a noite.

Era só dependurar

Longo,a lanterna acesa a todo o açoite

Do vento, e soltar

Meu papagaio oblongo, num momento.

Dito e feito.

Mas, ao peso da lanterna, não subia

O invento,

Senão a curtos vôos, de jeito

Que toda gente via

Com certo espanto aquela luz ao vento:

“Vai destelhar as casa  com tamanho arrojo…

“Vai pegar fogo em tudo, e o sobressalto

“E o incêndio semear daquele bojo….”

Era, esse, o tom geral da gritaria.

Mas de repente,

Meu lindo papagaio

Brilha, de súbito, como um raio,

A bailar ziguezagueando pela altura,

Muito acima do clamor de toda a gente,

Meu alado sonho de papel luzente,

Alto, a voar, muito alto…

Até perder de rumo…

Até a chama apagar…

Até tornar-se em fumo…

Em: Encantos literários: antologia, Deomira Stefani, São Paulo, Ática:s/d

carlos-chiacchio1

Carlos Chiacchio ( Januária, MG 1884 – Salvador, BA, 1947)  jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia, foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929).  Estudou no colégio Spencer em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina.

Obras:

A Dor, 1910

A Margem de uma polêmica, 1914

Biocrítica, 1941

Canto de marcha, 1942

Cronologia de Rui, 1949

Euclides da Cunha, 1940

Infância, poesia, 1938

Modernistas e Ultramodernistas, 1951

Os grifos, 1923

Paginário de Roberto Correia, 1945

Presciliano Silva, 1927

Primavera, 1910, 1941





Quadrinha do bom livro

2 02 2013

Lendo na cama, livro, John Gannam

Ilustração John Gannam, para propaganda de lençóis, década de 1950.

Livro bom é como o trigo:
hóstia branca, pão dourado
Na solidão, é o amigo
que vem dormir ao teu lado…

(Eloy Maria de Oliveira Fardo)





Siri, poesia infantil de Ana Maria Machado

1 02 2013

caranguejo 1

 

Siri

Ana Maria Machado

Siri
não ri
em serviço.

Se troca a casca
vira ouriço
procura concha,
busca uma toca e,
sumiço.

Não dá mole por aí.
Pra não virar sopa
faz boca
de siri.

Em: Sinais do Mar, Ana Maria Machado, São Paulo, Cosac Naify: 2009 , 1ª edição.





Quadrinha da fome do coração

29 01 2013

Menina pronta para come, ilustração de agnes richardson, cartão postal

“Um pouco de tudo, por favor”, cartão postal, ilustração de Agnes Richardson (Inglaterra, 1880-1954)

Conheço um tipo de fome

Que não se farta de pão:

Fome de amor — eis o nome

Da fome do coração.

(Aparício Fernandes)