Paz da consciência, poesia para a infância, de Adelmar Tavares

9 03 2013

plantar, ajudando o papai, eloise wilkinIlustração de Eloise Wilkin.

Paz da consciência

Adelmar Tavares

Paz da consciência: eis a única riqueza
Da tua vida de trabalhador.
Ela fará palácio de realeza,
A cabana onde more o teu amor.

Teu dia será sempre de beleza.
Teu pão não travará pelo amargor
De o teres arrancado à alheia mesa.
Pão de trabalho é pão que sabe a flor. . .

Nas boas horas de êxtase, de calma,
Verás teu pensamento em luz serena,
E um céu, todo de estrelas, na tua alma.

E ao fundo do teu justo coração,
Como um campo verde, ao som da avena,
Ovelhas, muito brancas, dormirão. . .


Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta.

adelmar_tavares

Adelmar Tavares (Brasil, PE, 1888-  RJ, 1963) advogado, poeta, trovador.  Formou-se como advogado pela Universidade de Pernambuco, no Recife, sua cidade natal, em 1909, quando se nudou para o Rio de Janeiro onde trabalhou como promotor público. membro da Academia Brasileira de Letras.Faleceu no Rio de Janeiro em 1963.

Obras:

Descantes – trovas, 1907

Trovas e trovadores – conferência, 1910

Luz dos meus olhos, Myriam – poesia, 1912

A poesia das violas – poesia, 1921

Noite cheia de estrelas – poesia, 1923

A linda mentira – prosa, 1926

Poesias, 1929

Trovas, 1931

O caminho enluarado – poesia,1932

A luz do altar – poesia,1934

Poesias escolhidas, 1946

Poesias completas, 1958





Quadrinha do orvalho

6 03 2013

flor, Yan NascimbeneIlustração  Yan Nascimbene.

Orvalha, e da flor molhada
brota uma lágrima, e corre.
– Silêncio!, que a madrugada
pranteia a noite que morre…

(Elton Carvalho)





A cela do religioso, texto de Aluísio de Azevedo

5 03 2013

64newtes

Monge franciscano lendo, 1661

Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Holanda, 1606- 1669)

Óleo sobre tela, 82 x 66 cm

Museu de Arte Sinebrychoff, Helsinque, Finlândia

“A porta abriu-se sem ruído. Ele entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.

O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste cela, sombria e espaçosa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente esclarecida por uma clarabóia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham uma cor sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem da Virgem da Conceição, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra estante toscamente feita, pejada de grossos alfarrábios amarelecidos pelo tempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um breviário em cima, ao lado de uma candeia de azeite, um pedaço de pão duro e um cilício cru; junto à mesa, um banco de pau”. 

Em: A mortalha de Alzira, Aluísio de Azevedo, publicado pela 1ª vez em 1892, primeiro capítulo, em domínio público.





Canção da Garoa, poesia infantil de Mário Quintana

4 03 2013

chuva, ilustração  Walter CraneIlustração Walter Crane.

Canção da Garoa

Mário Quintana

Em cima do telhado

Pirulin lulin lulin,

Um anjo, todo molhado,

Soluça no seu flautim.

 –

O relógio vai bater:

As molas rangem sem fim.

O retrato na parede

Fica olhando para mim.

 –

E chove sem saber porquê

E tudo foi sempre assim!

Parece que vou sofrer:

Pirulin lulin lulin…

 





Identidade, poema infantil de Carlos Queiroz Telles

1 03 2013

praia, Wesley Snyder

Praia, ilustração de Wesley Snyder.

Identidade

Carlos Queiroz Telles

Cabelos molhados,
sol encharcado,
pele salgada,
vento nos olhos,
areia nos pés.

O corpo sem peso
é nuvem à-toa.
O tempo inexiste.
a vida é uma boa!

Mergulho na água
azul deste céu.
Sou peixe de ar.
Sou ave de mar.

Mergulho em mim mesmo,
silêncio profundo.
Sou eu e sou Deus
de passagen no mundo,
nadando sem rumo
entre conchas e paz.

Em: Sonhos, grilos e paixões, Carlos Queiroz Telles, São Paulo, Moderna: 1990

 





O gabinete do médico, texto de Aurélio Pinheiro

28 02 2013

Edwaert Collier Vanitas Still Life 17th century. Edwaert CollierVanitas, 1669

Edwaert Collier (Holanda, 1642-1710)

óleo sobre madeira, 32 x 27 cm

O gabinete do médico

Aurélio Pinheiro

O Dr. Elesbão recebeu-nos com um sorriso sereno, em sua fecunda biblioteca, de altas, solenes estantes de mogno. Era uma grande sala, branca, de espiritualizante claridade, com as janelas abertas para o nascente. Sobre a larga mesa de estudos havia livros esparsos, papéis, vários objetos e um tinteiro de prata com uma águia de asas distendidas na ânsia de um vôo fremente. Junto à mesa, num dunquerque de ébano, pousava uma caveira sobre um suporte niquelado. Pelos cantos, colunas de mármopore ostentavam estatuetas e jarrões, e atrás da cadeira do Mestre surgia o busto de Hipócrates, saliente e austero como o de um deus pensativo. Entre duas estantes um pêndulo alto e negro marcava as horas, antecedendo-as de um minuete do tempo do Rei-Sol. Nas paredes dois quadros a óleo: — uma cabeça de velha a sorrir com brandura e uma álacre marinha… Um sofá de molas envolvido em capa de linho branco e algumas cadeiras de jacarandá com espaldares em alto relevo, completavam o severo mobiliário.

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 23.

Aurélio Waldomiro Pinheiro (RN 1882 – RJ 1938) médico, jornalista, poeta, escritor.Formado em medicina , pela Faculdade de Medicina da Bahia, graduando-se em 1907.  Retorna ao Rio Grande do Norte (Macau), onde além de clinicar colabora com o jornal O Mossoroense.   Em 1910 muda-se para Parintins no Amazonas. Faleceu em Niterói, no Rio de Janeiro em 1932)

Obras:

Gleba tumultuária, prosa, 1927

O desterro de Umberto Saraiva, romance, 1928

Macau, romance, 1932-34

À margem do Amazonas, prosa, 1937

Em busca do ouro, prosa, 1938

Dicionário de sinônimos da língua nacional, s/d





Quadrinha do vento

27 02 2013

vento, andré edoaurd marty, 1919

Vento, cartão postal, ilustração de André Edouard Marty, 1919.

O vento, com seus gemidos,

que só a dor sabe tê-los,

gelado como a saudade,

vem me beijar os cabelos.

(Manuel Lins Caldas) [pseud. Daslak]





O corvo e a raposa, poema e fábula, Bocage

24 02 2013

1289703457Ilustração de John Rae.

O corvo e a raposa

Bocage

——————-(tradução de La Fontaine)

 –

É fama que estava o corvo

Sobre uma árvore pousado

E que no sôfrego bico

Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro, àquele sítio

Veio a raposa matreira,

A qual, pouco mais ou menos,

Lhe falou desta maneira:

– Bons dias, meu lindo corvo;

És glória desta espessura;

És outra fênix, se acaso

Tens a voz como a figura.

A tais palavras, o corvo,

Com louca, estranha afouteza,

Por mostrar que é bom solista

Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho

E diz: – Meu amigo, aprende

Como vive o lisonjeiro

À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo;

Tem destas para teu uso.

Rosna então consigo o corvo

Envergonhado e confuso:

– Velhaca, deixou-me em branco;

Fui tolo em fiar-me dela;

Mas este logro me livra

De cair noutra esparrela.





A cobra e o gaturamo, fábula de Coelho Neto

23 02 2013

hokusai-katsushika--schlange-und-voeglein-Katsushika Hokusai - Snake and bird - Cobra e pássaro

O pássaro e a cobra, s/d

Katsushika Hokusai ( Japão, 1760-1849)

Pintura sobre papel, 25,6 х 36,3 cm

Coleção Particular

A cobra e o gaturamo

Coelho Neto

O tempo era de grande esterilidade e os animais andavam esfomeados. Uma cobra, que se arrastava, todo o dia, ao sol, pelo areal abrasado, à procura de alguma cousa com que atendesse à fome que lhe roía as entranhas,  perdida toda esperança, enroscou-se em uma pedra e ali deixou-se ficar à espera da morte. Iam-se lhe fechando os olhos de fraqueza, quando um passarinho se pôs a cantar num ramo seco, lançando tão alegres vozes, que a cobra, que era matreira, logo percebeu que tinha  de avir-se com um novato, porque passarinho velho não seria tão indiferente a rolar gorjeios em tempo tão infeliz. Assim, instruída pela experiência, imaginou uma traça astuta e, espichando o pescoço, pôs-se a gemer com altos guaiados: — “Ai! de mim, que vou morrer sem alguém que me valha. Ai! de mim…” – Ouviu-a o gaturamo e, porque era curioso, voou do galho ao chão. Pondo-se diante da cobra, interrogou-a. “Que tendes senhora cobra? Por que assim gemeis tão aflita?” – “Ai! de mim! Fui ali acima à fonte, achei água tão fresca e pus-me a beber tão sôfrega, que engoli um diamante do tamanho de uma noz.  Tenho-o atravessado na garganta e morrerei se não encontrar pessoa de caridade que mo queira tirar. Vale um reino a pedra e eu a darei por prêmio a quem me fizer o benefício de arrancar-ma da goela, onde se encravou.”  — Tufou-se em agrado pretensioso o enfatuado gaturamo e, pensando no tesouro que ali tinha ao alcance do bico, redargüiu à cobra: “Não é pelo que vale o diamante, mas pelo alto preço em que vos tenho, que me ofereço para aliviar-vos. Abri a boca!” – Não se fez a cobra rogar e, tanto que sentiu o passarinho, foi um trago. Então, saciada e rindo – como riem as cobras, — enrodilhou-se de novo e adormeceu, contente.





Quadrinha do bom pintor

22 02 2013

artista pintor mickeyMickey quer ser pintor, ilustração de Walt Disney.

O bom pintor, quando pinta
para dar vida à aquarela,
põe mais amor do que tinta
no sentimento da tela.


(José Lucas de Barros)