Quadrinha do amigo cão

11 01 2014

cachorrinho e pintinhos, Diana ThorneIlustração Diane Thorn.

Se chegares a entender
os homens, como eles são,
poderás compreender
a grandeza do teu cão!

(V. C.  Soares de Sousa)





Quadrinha do presente

8 01 2014

???????????????????????????????Cascão leva um presente, ilustração de Maurício de Sousa.

Se você der um presente,

esqueça logo o que deu;

mas traga sempre na mente

aquilo que recebeu.

(Adalzira Bittencourt)





O lago e a estrela, poesia de Luiz Guimarães

6 01 2014

ISABEL PONS (1912 - 2002 )Reflexo da lua, P.E. 35 x 22Reflexo da lua, s/d

Isabel Pons (Brasil, 1912-2002)

Gravura, 35 x 22cm

O lago e a estrela

Luiz Guimarães

Disse a vaidosa estrela quando viu

De um lago azul a débil transparência:

— Por que te deu a sábia providência

Um corpo tão monótono e sombrio?

Comigo teve Deus maior clemência

E do esplendor eterno me vestia!

Que vales, pois, ó lago humilde e frio,

Perto da minha deslumbrante essência?

Nos céus eu moro! O meu destino zomba

De ignota força que reparte as mágoas!

Tenho a ventura de desconhecê-la.

— Mas quando a noite vagarosa tomba

É no seio fiel das minhas águas

Que vens dormir, ó luminosa estrela!

Em: Poetas cariocas em quatrocentos anos, Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Vecchi:1965, pp. 230-231.





Quadrinha do nosso destino

2 01 2014

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Pato Donald pronto para desistir, ilustração de Walt Disney.

Sábia lição aprendi,

desde os tempos de menino:

— Na vida, somos autores

do nosso próprio destino.

(Célio Meira)





Livro, um ótimo presente!

15 12 2013

WolfgangALT Leitora com bebe e gato, Wolfgang Alt (2012, ost, 60x80cm).Leitora com bebê e gato, 2012

Wolfgang Alt ( Alemanha, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Este foi um ano difícil para manter a leitura de 3 a 4 livros ficção de  por mês. Acabei lendo um pouco mais que isso, mas a maioria de não-ficção, em inglês ou francês, porque grande parte das áreas que me interessam não têm viabilidade comercial para as editoras por falta de público no Brasil. Mesmo assim tenho alguns livros para recomendar no campo da ficção como presentes de Natal. Recomendo também um de não-ficção. Todos têm resenha completa aqui, siga o link em cada título listado para maior detalhamento.

Nota: A peregrina é uma leitora assídua, há muitos anos e bastante exigente. Não recebe livros de graça para fazer resenhas, nem é paga por nenhuma casa editorial para se manifestar a respeito dos títulos listados.

Ficção:

Nihonjin, Oscar Nakasato

O melhor livro de ficção brasileira que li este ano. A história se desenvolve em torno da imigração japonesa no Brasil. A questão da identidade do imigrante e o caso especial dos japoneses.  Um poema em prosa.

Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol

O primeiro de uma trilogia da escritora francesa que teve sucesso internacional. É um livro que não se consegue deixar de lado.  As “aventuras” contemporâneas levam a questões de autoestima e sucesso. .  Há um pouco de fantasia. Muito bom.

O silêncio das montanhas, Khaled Hosseini

Definitivamente um romance mais complexo do que foi o O Caçador de Pipas do mesmo autor.  Achei O silêncio das montanhas mais rico e profundo, dando uma visão diferente sobre a vida no Afeganistão contemporâneo.

O ancião que saiu pela janela e desapareceu, Jonas Jonasson

Esta é uma grande viagem de aventuras extraordinárias de um dos personagens mais incríveis que encontrei recentemente. Divertidíssimo, uma narrativa que consegue compreender o século XX inteiro. Entretenimento da melhor qualidade.

Acabadora, Michela Murgia

Belíssima história que nos leva a ponderar sobre a eutanásia e sobre a ética.  Texto sensível. Recomendo.

O advogado do diabo, Morris West

Este é um clássico de meados do século passado que continua relevante.  Foca no que é necessário para que a igreja considere alguém santo.  Mas no meio do caminho nos mostra como viver.  Está em edição de bolso.

Não-Ficção

A vida não é justa, Andréa Pachá

Coletânea de casos considerados pela juíza Andréa Pachá que nos mostram que a vida de todo mundo é muito mais interessante do que o roteiro de qualquer novela.  Ótima visão da maneira de viver dos brasileiros.





A estrela polar — poesia de Vinícius de Moraes

14 12 2013

noite, ceu, estrelas,Nicolas Gouny - cueillir des étoilesIlustração de Nicolas Gouny.

A estrela polar

Vinicius de Moraes

Eu vi a estrela polar

Chorando em cima do mar

Eu vi a estrela polar

Nas costas de Portugal!

Desde então não seja Vênus

A mais pura das estrelas

A estrela polar não brilha

Se humilha no firmamento

Parece uma criancinha

Enjeitada pelo frio

Estrelinha franciscana

Teresinha, mariana

Perdida no Polo Norte

De toda a tristeza humana.

Em: Poemas para a Infância – antologia escolar – de Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d., p.18.





Quadrinha da educação na briga

10 12 2013

Zé Carioca apazigua a discussão, ilustração Walt Disney.

No calor da discussão

no lar, emprego ou na rua,

não exija educação,

mas sempre demonste a sua.

(Aloysio Alfredo Silva)





O início de uma amizade, lembranças provocadas pelo texto de Luís Jardim

8 12 2013

Paisagem com casa, 1946

Virgílio Carvalho de Araújo Lima (Brasil, 1886-1958)

óleo sobre tela, 47 x 65 cm

O texto de Luís Jardim que posto abaixo desencadeou um sem-número de divagações e reflexões, com as quais me lembrei de que a leitura é uma obra de dois autores: um pouco do escritor e muito do leitor.

“– O meu asilo era a casa de Compton.  A nossa amizade era “de madeira de lei”, dizia ele.  E de madeira provinha coincidentemente esse afeto recíproco, o meu pelo nobre estrangeiro ainda mais respeitoso e cheio de admiração.  Conhecemo-nos graças a uma trave de madeira que um dos carros do sítio carregava para uma cumeeira a ser levantada.  O inglês furava poços artesianos nas planícies da Lavoura Seca.  Precisava de um esteio a todo custo.  Dirigiu-se ao carreiro, ofereceu-lhe um preço exorbitante, mas o homem recusou a fortuna porque “o objeto era do patrão”.  Ouvindo-lhe os rogos engrolados, atendi-o:

— Para dar água à minha terra, a trave lhe fica de graça, senhor…

— Compton ou Capitão – disse-me o inglês, já de mão estendida para um laço de amizade.

Daí em diante as nossas relações cresceram e se firmaram.  Antes eu o procurava pela razão mesma da amizade e quase digo para ilustrar-me com o seu convívio.  O nosso perfeito entendimento em nada se alterou pelo fato de que eu desconhecia o seu idioma e ele ainda se encrespasse todo para falar o meu.  Somente, eu não tinha a sua franqueza, pois Compton achava, rindo-se de si próprio, que “arranhava um enxacoco”, palavra da minha língua que eu também ignorava.

Agradava-me particularmente a casa do amigo, de paredes recobertas de couros de bichos, de flechas, de penas, coisas que nos pertenciam, nativamente, e das quais não sabíamos tirar aquele efeito decorativo.  Apreciava as suas panóplias, “bárbaras”, como dizia ele, formadas de velhas e esquisitas pistolas de uso matuto, de facas, de punhais comprados nas feiras populares.  As suas cadeiras macias, o silêncio, os seus livros bem arrumados e cheios de ilustrações, o seu tapete, pele de onça de dentes arreganhados.  A sua casa era o modelo ideal que eu imaginava para a que viesse um dia a construir.  Mas a casa outrora desejada era agora um castelo sobre areia.

Já não eram esses pequenos luxos domésticos, essa paz interior, ornada com discrição e gosto, aquilo que eu procurava no doce lar do amigo.  Nem mesmo a sua amizade, franca e leal.  Procurava determinadamente a sua natureza cheia de experiência, sem devaneios nem fantasias, o seu comportamento de inglês robusto, cuja objetiva curiosidade dissecava as coisas, virando-as pelo avesso para ver como eram, como se constituíam e de onde procediam. Contentavam-me em proveito da minha indecisão, os seus reparos duros e frios, como este que me fez sobre o meu caso oculto, assunto aliás que nunca mais lhe falara:

 — Talvez aquilo que hoje faz sofrer seja exatamente motivo de rir mais tarde.  Contudo, essa é a vida, é óbvio.  Seria talvez absurdo imaginar o contrário.  Eis tudo.

 Era essa a realidade quase em relevo que eu agora procurava, em desacordo com a minha própria natureza.  E esse dom inglês de encarar materialmente os fatos, essa compreensão geral da vida atraía-me e me fazia bem como o ar puro sorvido depois de reclusões sufocantes.”

Em: As Confissões de meu tio Gonzaga, Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio:1963, 3ª edição.

Uma parede de tesouros, 1636,

Frans Francken , o jovem (Bélgica, 1581 – 1642)

Kunsthistorisches Museum, Viena.

Há pessoas que conseguem canalizar sua curiosidade para coleções de objetos que transformam ambientes em ninhos acolhedores e ricos em significado. É natural do ser humano o ato de colecionar, tomar posse daquilo que intriga. Desde os tempos nas cavernas arrecadávamos conchas, pedras roliças de rio,  plumas de um pássaro distante.  Está na nossa natureza, na nossa maneira de ser, a necessidade de colher, de trazer para si o que nos fascina. Às vezes é para marcar grandes ocasiões: caçadores que empalham cabeça do veado caçado na floresta.  Às vezes é para adquirir o poder mágico que associamos a um objeto como acontecia com o coral, visto na Idade Média como protetor contra o mau-olhado.  Coleções dizem muito sobre quem as fez.

Há muitos anos, nos EUA, fui ao leilão do espólio de uma senhora que falecera sem herdeiros. Arrematei grande parte de sua biblioteca, que nesse caso foi vendida em caixas, contendo indiscriminadamente 30 a 35 livros cada.  Na família éramos dois professores.  Livros sempre foram algo de corriqueiro, do dia a dia.  Comprá-los é como comprar gêneros de primeira necessidade.  Adquiri também nesse dia alguns itens de cerâmica francesa e outros objetos de cerâmica oriental.  Ms. Jenkins, como ficou conhecida para mim, viajara o mundo, e havia feito algo que eu sempre sonhei em fazer: atravessara a Europa em direção à Turquia pelo Orient Express, isso nos anos 20.  Como sei disso?  Pelos livros que me deixou.  Não que tenha me deixado.  Afinal eu os comprei.  Mas me senti como tendo recebido um presente dessa senhora.  Descobri quando abrimos as caixas de livros que compramos, muitas delas desejadas só por um ou dois títulos, é que nossos gostos, nossas preferências e maneiras de ver o mundo eram semelhantes.  Ms. Jenkins e eu teríamos sido farinha do mesmo saco, ou como dizem os americanos, ervilhas da mesma vagem. Teríamos sido amigas em vida se tivéssemos nos conhecido. Nossos gostos não eram semelhantes só nos livros, nas cerâmicas, nos tapetes, no brique a braque característico de um lar.  Havia algo místico, indefinível, na maneira como a cada caixa aberta, mais ela se fazia presente.

Por isso entendo que Compton no texto de Luís Jardim, acima, tenha se mostrado simultaneamente fascinante e familiar, que sua amizade com o narrador tenha se aprofundado.  Afinal os objetos que o fascinavam, que decoravam as paredes dessa casa de interior, falavam. Era uma linguagem silenciosa mas eloquente.  Foi fácil saber os interesses do dono da casa, reconhecer sua estética.  Daí certamente o senso de conforto do mineiro com o estrangeiro. Este ao abrir a sua casa deixara a descoberto sua personalidade, sua vida interior.  Era terreno fértil para o desabrochar de uma amizade.





Quadrinha da multidão

7 12 2013

john brack, crowd, 1955Rua Collins às 17 horas, 1955

John Brack (Austrália, 1920-1999)

óleo sobre tela, 115 x 163 cm

National Gallery, Vitória, Austrália

Na rua a multidão passa…

Humanos, juntos -é  certo-,

mas, vejo, pela vidraça,

cada qual no seu deserto.


(Lucília de Carli)





Soneto de Bernardino Lopes: “A filha, pálida e loura” 1881

6 12 2013

ARTHUR TIMOTHEO DA COSTA - Bordadeira, óleo sobre tela, 64X53cmBordadeira, s/d

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre tela, 64 x 53 cm

XVI

A filha, pálida e loura

Faz seu serão de costura:

Às vezes pensa… ou procura

Dentro do cesto a tesoura.

Vive numa dobradura

A singular criatura!

Ralha-lhe o pai com doçura,

Ao regressar da lavoura.

Dá na varanda oito e meia…

Levanta-se logo a moça,

Pondo os morins no baú;

Traz os preparos da ceia;

E nas tigelas de louça,

Tomam café com biju.

Em: Cromos, 1881