Passa uma borboleta, poesia de Alberto Caeiro

23 02 2023
Ilustração Hilda T. Miller

 

Passa uma Borboleta

 

 

Alberto Caeiro

 

 

 

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

 

 

 

 

Em: O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa, [Poemas de Alberto Caeiro], 10ª edição, Lisboa, Ática:1993, p. 64





Trova de carnaval

21 02 2023
Fantasia de cavalo de corrida.

 

Carnaval: dança e alegrias,

que têm o dom surpreendente

de sepultar, por três dias,

todas as mágoas da gente!

 

(P. de Petrus)





Trova de Carnaval

19 02 2023
Lampadinha lembra ao Professor Pardal que já é Carnaval,  ilustração Disney Studio.

 

Assustado, constatou,

após dias de folia,

que a bruxa de quem gostou

não usava fantasia.

 

(Maria Bicalho Brandt)

 





Trova de Carnaval

18 02 2023
Crianças fantasiadas, ilustração J. Bernard Long

 

Para que um carnaval

com três dias de folia,

pois se a vida é afinal,

grande baile à fantasia?

 

(Renato Vieira da Silva)

 





Trova da morte

9 02 2023

Ilustração francesa de conto de fadas.

Sem resposta que conforte,

dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?

Fim? Partida? Porto? Porta?

(Alonso Rocha)





Carnaval, texto de Marques Rebêlo

6 02 2023

Claudio Faciolli - Carnaval no Rio de Janeiro - o.s.e - ass. c.i.e - datado de 2010 med 46x61 cmCarnaval no Rio de Janeiro, 2010

Claudio Faciolli (Brasil, 1955)

óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm

[25 de fevereiro de 1938]

“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço),  e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:

— Vamos, vovó!

A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:

— Bofe por bofe, este não é antediluviano…

Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.

Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:

— Oh, que pena!

Clotilde era imitativa:

— Deixe eu cheirar um pouco.

— Para quê?  Bobagem!

— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!

— Não cheira não.

— Uma prise só…

Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:

— Não convence não.

Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.

— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…

— Dane-se!”

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  p. 347-348.





Poema natural, Adalgisa Nery

6 02 2023

Mulher lendo

Mordecai Lavanon (Romênia-Israel, 1901-1968)

óleo sobre tela, 71 x 59 cm

 

 

 

Poema natural

 

Adalgisa Nery

 

Abro os olhos, não vi nada

Fecho os olhos, já vi tudo.

O meu mundo é muito grande

E tudo que penso acontece.

Aquela nuvem lá em cima?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Ontem com aquele calor

Eu subi, me condensei

E, se o calor aumentar, choverá e cairei.

Abro os olhos, vejo um mar,

Fecho os olhos e já sei.

Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.

Quando a maré baixar, na areia secarei,

Mais tarde em pó tomarei.

Abro os olhos novamente

E vejo a grande montanha,

Fecho os olhos e comento:

Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,

Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

 

 

Poemas, Adalgisa Nery, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional:1960





Trova da arte

26 01 2023

Clarabela ensina Horácio a pintar, ilustração Walt Disney.

 

 

Ama a tua arte. Por ela

faze o bem: ama e perdoa.

A bondade é sempre bela,

a beleza é sempre boa.

 

(Bastos Tigre)





Trova do pai

9 01 2023

Embora não fosse nobre,

meu pai deixou — que nobreza —

em seu nome honrado e pobre,

minha única riqueza.

(José Corrêa Villela)





Trova da magreza

28 12 2022

De ser magro, minha gente,

não tenho — confesso — mágoa,

o rio, em sua nascente,

é também filete d’água.

(Carlos Ribeiro Rocha)