Fernando Sabino: porque escrevo…

1 12 2023

Leitor

Mary Viola Paterson ( Inglaterra,1899-1981)

desenho

 

 

 

“Escrevo porque me sinto descompensado em relação à realidade. Preciso de uma verdade fora de mim em que me agarrar. Me sinto defasado. A minha realidade interior vive abaixo do nível da realidade que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio , num contacto normal com os demais seres humanos, tenho que escrever, porque a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar. Há uma espécie de catarse naquilo que escrevo: para não precisar de me deitar no divã de um psicanalista. Se escrevi, por exemplo um livro com o título, A faca de dois gumes, pode ter sido para não esfaquear alguém.”

 

Em: O tabuleiro de damas: trajetória do menino ao homem feito, Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record: 1988, p.18.

 

 





Trova da agricultura

30 11 2023
Ilustração Rudolf Koivu.

 

 

 

Terra – bendito seu nome,

sinônimo de fartura;

só quem nunca sentiu fome

menospreza a agricultura!

 

(Arlindo Tadeu Hagen)





O lago, soneto de Narcisa Amália

22 11 2023

Paisagem Rural com Espelho D’água e Casinha

Augusto Rodrigues Duarte (Portugal-Brasil, 1848 -1888)

óleo sobre madeira, 24 x 32 cm

 

 

O Lago I

 

Narcisa Amália

 

 

Calmo, fundo, translúcido, amplo o lago

longe, trêmulo, trêmulo morria,

No seu límpido espelho a ramaria,

curva, de um bosque punha sombra e afago

Terra e céu, ondulando, eram na fria

tela fundidos! O queixume vago

que a água modula, de ambos parecia

solto, ululante, intérmino, pressago!

“Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste”

talvez; mas todo o encanto que o reveste

sentisse; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisse-lhe a mudez, que fala,

e sorverias no frescor que o embala

todo o alento vital da Natureza!

(1872)





Trova das minhas compras

16 11 2023
Pato Donald vai às compras, ilustração Disney.

Do meu anúncio em jornal

gostei tanto quando li

que antes do prazo final

comprei tudo o que eu vendi.

(Abílio Kac)





Uma amizade em cartas

9 11 2023

Homem Lendo

Antônio Hélio Cabral (Brasil, 1948)

 

 

 

 

Encontrei hoje essa deliciosa passagem no livro de Otto Lara Resende chamado O rio é tão longe: cartas a Fernando Sabino; em que Otto reclama do conto enviado a ele por Sabino.  Há humor, calor humano, camaradagem, puxão de orelha e a magia de uma grande amizade.

 

 

“… deixe-me protestar contra a torpeza de me ter mandado o conto com as páginas todas fora de ordem, o que me foi uma verdadeira calamidade. Eu estava tão burro que li tudo fora de ordem e é verdade que achei meio estranho, mas como grande e estranho é o mundo, fui logo achando deliciosa a sua loucura.

 

Em: O rio é tão longe: cartas aFernando Sabino, Otto Lara Resende,  introduçao de Humberto Werneck, São Paulo, Cia das Letras: 2011, p. 19

 





Insônia, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

9 11 2023

Insônia

Joana Aslanian (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 73 x 91 cm

 

 

Ali onde se pescam amarguras,
a insônia se aprimora nas torturas.

 

 

Insônia

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

 

A manhã se aproxima e é sempre duro

quando o sol rompe a treva e inunda o escuro

de um sono que nem mesmo aconteceu.

Sinto-me novo e inútil Prometeu

a quem bicam o fígado, melhor

dizendo a mente, e que aprendeu de cor

os caminhos da noite soluçados,

como vagidos, em jardins murados,

numa vigília que não se escolheu.

Ah, estradas da noite, ah, poços fundos,

sempre cheios de lodo, tão imundos

deste vazio amortalhado em breu.

Ah, pontes sem destino, cruel fadiga

do tempo debulhado como espiga.

 

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.63





Dois haikais de Primavera de Guilherme de Almeida

24 10 2023

Glicínia em flor

Da série: Flores da Primavera

Yushi Osuga (Japão, 1946-1970)

xilogravura policromada

 

 

 

CHUVA DE PRIMAVERA

 

Vê como se atraem

nos fios os pingos frios!

E juntam-se. E caem.

 

 

 

FESTA MÓVEL

 

Nós dois? – Não me lembro.

Quando era que a primavera

caía em setembro?

 





Trova da esperança

23 10 2023

Neste mundo que nos cansa

tanta maldade se vê,

que a gente tem esperança

mas já nem sabe de quê…

 

(José Maria Machado de Araújo)

 

 





Trova de São Francisco

4 10 2023

 

 

Adelson do Prado (1944) Arca de Noé (1978) Óleo sobre tela 27 x 33 cmArca de Noé, 1978

Adelson do Prado (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 29 x 33 cm

 

 

Defendei, meu São Francisco,

os cachorrinhos e os gatos.

Protegei-os contra o risco

do abandono e dos maus-tratos.

 
(A. A. de Assis)





Trova dos pirilampos

29 09 2023

Vou brincar com pirilampos

e beijar as flores nuas

pra ver se encontro nos campos

a paz que fugiu das ruas!

 

 

(José Lucas de Barros)