Não sei que mais me fascina,
que mais me traz entre abrolhos:
se os olhos dessa menina,
se as meninas desses olhos!
(Belmiro Braga)
Não sei que mais me fascina,
que mais me traz entre abrolhos:
se os olhos dessa menina,
se as meninas desses olhos!
(Belmiro Braga)
Maria Dinorah
Menina das brancas asas,
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si,
quando passas pelas casas,
canta a rua e o céu sorri.
Tanto encanto há no seu jeito
feito de campo e açucena,
que as águas dançam no leito
enquanto a lua te acena.
Um anjo morre de inveja,
um astro morre de amor
ao ver-te cor de cereja,
tingindo o mundo de cor.
Menina, tão menininha,
nem sabes que és uma flor!

ENCONTRO DE ESCRITORES – Aqui estou eu, o poeta e letrista paulista José Mauro e a encantadora Aninha na porta Livraria Argumento, no Leblon, depois de um delicioso jantar no Café Severino. Foi uma das noites mais agradáveis que passei nos últimos tempos, que espero poder repetir em breve. José Mauro tem diversas letras de músicas em seu portfólio assim como alguns prêmios.
Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu.
(Durval Mendonça)
Entrada da fazenda, 1966
Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)
óleo sobre tela, 59 x 77cm
O Rio Grande do Sul está em todos os nossos pensamentos. Dia sim. outro também. Durante a semana passada, uns versos, que eu não sabia de quem, e que não sabia de onde vinham, vieram me visitar, memória é uma coisa chocante.
Por muitos anos tive o hábito de anotar versos que lia e que achava bonitos. Na adolescência certamente sem o cuidado que desenvolvi, ao longo dos anos, de anotar o autor, o livro etc. A frase que me perseguiu foi “os rios são com certeza, o pranto da natureza.” Bem, chegar à autoria de Olegário Mariano foi fácil. Bastou abrir aspas, colocar a frase no Google, fechar aspas e procurar. O problema foi achar a poesia…. Achei. Tenho em casa a obra completa do poeta. Mas são dois volumes… Levei um tempinho. Aqui vai para vocês.
Acredito que o rio mencionado na poesia seja o Rio Saracuruna aqui no estado do Rio de Janeiro. Já naquela época, antes de 1931, Mariano nos alertava sobre os maus tratos que este rio recebia.
A Fazenda Santa Cruz
Olegário Mariano (1889-1958)
Por entre a folhagem verde
Que pelas brenhas se perde,
No coração da Fazenda
Dorme a casa de vivenda.
Um pátio largo defronte,
Ao fundo azul — o horizonte
A crepitar, esbraseado,
Num crepúsculo doirado.
A mata pesada, imensa,
Parece que sonha ou pensa…
Catedral verde que encerra
O culto simples da terra.
Abre-se um rio de prata
E, num fragor de cascata,
Borbulha de duna em duna…
É o rio Saracuruna.
À tona um enxame treme
Se equilibra e vibra e freme,
E às vezes se desmorona
Como uma coluna, à tona…
Umas partem, outras voltam,
As asas doiradas soltam
Em nervosas tarantelas,
Brancas, verdes amarelas.
Bate a porteira da entrada.
Sonolenta entra a boiada:
— Pintado! Moreno! Audaz!
And à frente, meu rapaz!
Um deles, o mais tristonho,
Que é pesado como um sonho,
Olhando o campo tão lindo,
Vai passando, vai mugindo…
Entre árvores surge a lua,
Branca e inteiramente nua,
Mostrando, em suaves coleios,
O tronco, os braços, os seios…
Sobe e do alto descampado
Espalha um véu de noivado
Com cintilações estranhas
Pela encosta das montanhas…
Depois desce ao rio, e o rio
Que rola sereno e frio,
Se enrosca num frenesi:
— Beija-me as águas, Iaci!
O Saracuruna sonha…
Na marcha lenta e tristonha,
O rio lembra um vivente
Porque chora, porque sente.
Vai sinuoso… Entra a devesa
Levando na correnteza
Troncos, arbustos e ninhos
Que encontrou pelos caminhos.
E perde-se longe… Agora
Nem sinal da água que chora…
Os rios são, com certeza,
O pranto da natureza.
Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), pp. 90-92.
É Deus que à noite dispersa
o bando dos pirilampos,
taquigrafando a conversa
que há entre as flores, nos campos.
(Balthazar de Godoy Moreira)