Gatinha observadora, por Michael Leu ( Formosa, China/EUA)
De olhos azuis transparentes,
a Mimi não é francesa,
mas seduz bichos e gentes
essa gatinha… siamesa.
(Dorothy Jansson Moretti)
Gatinha observadora, por Michael Leu ( Formosa, China/EUA)
De olhos azuis transparentes,
a Mimi não é francesa,
mas seduz bichos e gentes
essa gatinha… siamesa.
(Dorothy Jansson Moretti)

Retrato de Machado de Assis, 1905
Henrique Bernardelli ( Brasil, 1858 – 1936)
Óleo sobre tela
Academia Brasileira de Letras, RJ
O Jornal do Comércio publicou hoje um interessante artigo do jornalista Antonio Gonçalves Filho sobre os escritores brasileiros mais citados por 55 tradutores, professores e bibliotecários de 19 diferentes países. E para surpresa dos organizadores do projeto, “Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira”, que encomendou a pesquisa, contrário à expectativa de que Paulo Coelho seria o escritor contemporâneo mais citado, foi o gaúcho Moacyr Scliar, quem surpreendeu.
Como o artigo demonstra, esta não é só uma lista dos dez mais. Ela incorpora todos os autores citados mais de uma vez pelos tradutores e professores de português em universidades estrangeiras, trazendo nomes recém traduzidos para o inglês, caso do escritor e redator-chefe da revista “Veja”, Mário Sabino, autor de “O Dia em Que Matei Meu Pai”, que recebeu uma entusiasmada crítica na Austrália.
Os dez escritores mais citados pelos especialistas estrangeiros consultados na pesquisa realizada pelo Itaú Cultural são os seguintes:
1- Machado de Assis
2- Clarice Lispector
3- Guimarães Rosa
4- Graciliano Ramos
5- Jorge Amado
6- José de Alencar
7- Manuel Bandeira
8- Moacyr Scliar
9- Rubem Fonseca
10- Drummond de Andrade.
Em: Jornal do Comércio, Sexta-feira e fim-de-semana 29-30-31 de maio, Caderno C, página 5.

Uma boa parte dos leitores deste blog é de professores dos cursos básico e médio que procuram poesias adequadas à sala de aula. Grande ênfase tem sido dada aos pequenos poemas, com trocadilhos e uma atitude jocosa nas rimas ou ritmos. Há na verdade ótimos poetas brasileiros e portugueses que se enquadram exatamente nessa tendência, chamada “para crianças”. Mas não muito tempo atrás, já bem na segunda metade do século XX a poesia para crianças era — com exceção de uns poucos autores entre eles os nomes clássico como Olavo Bilac, Zalina Rolim – a poesia que autores escreviam para um público geral e que era selecionada para uso escolar, por causa da temática e do linguajar de mais fácil compreensão. Daí o sucesso de antologias de poesias para a infância, tais como aquelas organizadas e selecionadas por Henriqueta Lisboa, ela mesma uma excelente poeta brasileira. Quisera eu me lembrar do nome do organizador da antologia de textos e poesias brasileiras em cujo volume estudei na escola municipal do Rio de Janeiro onde completei os meus primeiros anos escolares… Mas não me lembro.
Lembro-me, no entanto, que decorávamos poesias, na sala de aula, a turma inteira, éramos 30, lendo o texto em conjunto, como faríamos se regidos numa missa à cultura brasileira. Vez por outra, íamos, um a um, para perto da professora, lá na frente, e declamávamos – por bem ou por mal – um ou outro poema, lendo de nosso livro de textos. Tive sorte, agradeço à minha professora, Dona Yolanda, algumas boas memórias. Entre elas está o poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, que por ser muito longo – e o líamos inteiro – foi recitado em conjunto, em sala de aula, como se declamássemos uma tabuada de versos, e depois, cada estrofe, era lida por uma criança, em cadeia perpétua: quem lia a última estrofe era seguido por quem lia a primeira estrofe de novo, como num rondó, interminável. É um poema que sei de cor até hoje. Em parte, porque eu conseguia me ver naquele menino de oito anos “correndo pelas campinas, à roda das cachoeiras, atrás das asas ligeiras das borboletas…” Não havia campinas no Rio de Janeiro, não havia cachoeiras perto de minha casa e muito menos borboletas azuis. Mas eu sabia que deveria haver um local assim, à sombra das bananeiras.
Não é difícil imaginar a influência que esse poeta teve no Brasil e principalmente a influência desse poema especificamente: ENORME! Achei que poderíamos nos lembrar de Meus oito anos, aqui no blog, pois ontem, virando as páginas de alguns livros de poesia, achei uma outra jóia, influenciada por Casimiro de Abreu e que também pode ser usada na sala de aula. Em, Cheiro de chuva, do poeta norte rio-grandense José Lucas de Barros, sentimos claramente a influência de Casimiro de Abreu, no ritmo, no tema escolhidos. No entanto, é um poema que se destaca por si só, seu valor independe de Meus oito anos. Colocarei aqui os dois textos, para uma bela e saudável comparação. Em ambos há um retorno à infância e um retrato da natureza como imaginamos, que hoje, depois da abertura da nossa conscientização sobre o meio-ambiente, a natureza deva ser ou possa voltar a ser. É claro que há uma idealização mas uma idealização que só sublinha ainda mais enfaticamente a necessidade que temos de que a nossa terra e o nosso planeta voltem a nos dar prazeres semelhantes aos descritos nos dois poemas. Bom proveito!

Chuva no sertão, fotografia Pedro Cavalcante/Flickr.
Cheiro de chuva
José Lucas de Barros
Deus, que saudosa manhã,
Em que ouço a melodia
Do canto da saparia
E o grito da jaçanã!
Ai! Quem conhece esse encanto
No meu sertão grato e santo
Esquecer não poderá.
O que há de bom nesta vida,
Pode passar de corrida,
A saudade deixará.
Vendo d’água a terra cheia,
Eu sinto a doce lembrança
De meu tempo de criança,
Dos meus açudes de areia;
A corrente do regato,
O cheiro de flor do mato
Das caatingas do sertão,
Tudo são gratas memórias
Que vêm cavar mil histórias
Plantadas no coração.
Nada mais belo e atraente
Do que, no rio revolto,
Pelejar de braço solto
De encontro à bruta corrente.
Lembro-me bem, no Espinharas,
Em manhãs boas e claras,
Após noite de trovão
A gente afogava as mágoas,
Cortando o peito nas águas
Como simples diversão.
Depois de ver-se na terra
Fartura d’água rolando,
O relâmpago faiscando,
O trovão quebrando a serra,
O gemer das cachoeiras,
Nas madrugadas fagueiras
Dá testemunho aos ateus
De que toda essa grandeza
É a própria Natureza
Cantando a glória de Deus.
NOTA: Espinharas, nome de um rio no estado da Paraíba.
Em: Panorama da poesia norte-riograndense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, prefácio de Luís da Câmara Cascudo.

Menino, caju e Recife ao fundo, década de 1970
Cícero Dias ( Brasil 1907-2003)
Óleo sobre tela, 70 x 63 cm
Meus Oito Anos
Casimiro de Abreu
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar – é lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
—-
José Lucas de Barros, (original da PB, registrado em Serra Negra do Norte, RN, 1934) professor, advogado, poeta, trovador e pesquisador da literatura popular. Vice- presidente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, presidente da Associação Estadual de Poetas Populares – RN e membro da União Brasileira de Trovadores, seção de Natal/RN.
Obras:
Cantigas de meu destino, trovas
Repentes e desafios, ensaio e pesquisa
Caminhada, poesias
—
Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica. Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857. Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose. Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos.
Obras:
Teatro:
Camões e o Jaú , 1856
Poesia:
Primaveras, 1859
Romances:
Carolina, 1856
Camila, romance inacabado, 1856
A virgem loura,
Páginas do coração, prosa poética,1857

Bandeira brasileira, s/d
Olavo Campos
Madeira reciclada
Ao vento, assim, desfraldada,
numa data alvissareira,
lembra a Pátria idolatrada
— a Bandeira Brasileira.
(Moyses Augusto Torres)

Pato Donald ao telefone, ilustração de Walt Disney.
O tagarela, insistente,
jamais consegue agradar…
Mas agrada, sempre, a gente
Quem sabe ouvir e calar…
(A. F. Bastos)
Escola: pintura à óleo de Diva do Val Golfieri (Brasil, contemporânea)
Eu sei ler
Martins D’ Alvarez
Eu sei ler corretamente,
faço contas de somar,
sou batuta em dividir,
gosto de multiplicar.
Quando a professora escreve
no quadro-negro da escola,
leio até de olhos fechados:
“Paulo corre atrás da bola.”
Pra somar uma banana
com mais duas e mais três,
vou comendo e vou somando
1 mais 2 mais 3 são 6.
Pra dividir três pães
comigo e com meu irmão?
Eu sou o maior, ganho dois.
Para ele basta um pão.
Se mamãe me dá um doce
na hora de merendar,
acabo comendo três.
Como eu sei multiplicar!
Em: Vamos estudar? – cartilha — de Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1961 [Para a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita].
José Martins D’Alvarez (CE 1904) Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904. Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará. Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.
Obras:
“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).
“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).
“Vitral”, 1934 (poemas).
“Morro do moinho” 1937 (romance)
“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).
“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).
“Chama infinita, 1949 (poesias)
“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)
“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)
“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)
“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)
Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:
ANJO BOM ; AMIGOS ; JOÃO E MARIA ; SÚPLICA

Passarinho cantando, ilustração de Maurício de Sousa.
Mimoso passarinho
Num galho lá pousou
E bem, bem de mansinho
Ao matagal saudou.
Quadrinha de A. de Carvalho
Esta quadrinha faz parte do seguinte exercício: Passe para prosa, com suas palavras, esta quadrinha.
Em: Exercícios de Linguagem e Matemática: 2ª série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1958, p. 59

Bailarina, ilustração de Yuri Dyatlov.
—-
—-
Cecília Meireles
—
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
—
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
—
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.
—–
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
—-
Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
—-
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
—-
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
—-
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
—-
—-
—
—
——
——
Cecília Meireles
Cecília Benevides de Carvalho Meireles (RJ 1901 – RJ 1964) poeta brasileira, professora e jornalista brasileira.
Obras:
Espectros, 1919
Criança, meu amor, 1923
Nunca mais…, 1924
Poema dos Poemas, 1923
Baladas para El-Rei, 1925
O Espírito Vitorioso, 1935
Viagem, 1939
Vaga Música, 1942
Poetas Novos de Portugal, 1944
Mar Absoluto, 1945
Rute e Alberto, 1945
Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948
Retrato Natural, 1949
Problemas de Literatura Infantil, 1950
Amor em Leonoreta, 1952
12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952
Romanceiro da Inconfidência, 1953
Poemas Escritos na Índia, 1953
Batuque, 1953
Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955
Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955
Panorama Folclórico de Açores, 1955
Canções, 1956
Giroflê, Giroflá, 1956
Romance de Santa Cecília, 1957
A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957
A Rosa, 1957
Obra Poética,1958
Metal Rosicler, 1960
Antologia Poética, 1963
História de bem-te-vis, 1963
Solombra, 1963
Ou Isto ou Aquilo, 1964
Escolha o Seu Sonho, 1964
Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965
O Menino Atrasado, 1966
Poésie (versão francesa), 1967
Obra em Prosa – 6 Volumes – Rio de Janeiro, 1998
Inscrição na areia
Doze noturnos de holanda e o aeronauta 1952
Motivo
Canção
1º motivo da rosa
Peri e Ceci, ilustração de Santa Rosa, O Guarani, Rio de Janeiro, José Olympio: 1955.
Como postei no dia 3 de maio estou elaborando algumas notas sobres as excelentes informações do Professor Vanderlei Vicente sobre os 5 livros do romantismo necessários para o vestibular, publicado no Portal Terra. Meu objetivo é ajudar aqueles que precisam destas leituras: não só a entenderem um pouquinho mais do romantismo no Brasil, mas conseguirem se lembrar de alguns detalhes das obras mencionadas. O artigo original estará sempre em itálico azul.
O Guarani (1857), de José de Alencar – “Este é o primeiro romance de temática indianista publicado pelo autor, que estabelece uma visão idealizada sobre a formação do povo brasileiro através do índio Peri e da portuguesa Cecília. A idealização do indígena fica evidente nas ações de Peri, que, em certo momento da obra, chega a oferecer-se para o sacrifício para salvar sua amada Ceci. No final do romance, a permanência de Ceci com Peri na selva dá um caráter fundador ao texto”.

O romance O Guarani foi o segundo romance publicado por José de Alencar. Foi originalmente publicado em capítulos, em folhetim para o Diário do Rio de Janeiro entre 1º de janeiro e 20 de abril de 1857. Em geral esses romances publicados em folhetins eram traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou edições francesas, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Foi com essas publicações em capítulos, que a partir de 1830, um maior número de brasileiros começou a se familiarizar com o mundo da literatura de ficção, em veredas diferentes daquelas já exploradas pelos portugueses. Assim, brasileiros acompanharam as aventuras de Ivanhoé ou de D’Artagnan e foram apresentados ao romance histórico, ou seja ao romance que detalhava as aventuras de seus heróis em eras do passado.
Qual não foi a alegria dos leitores dos diários brasileiros de descobrirem que havia um autor brasileiro, muito bom, que também se dedicava à escrita do romance histórico! E ainda, um romance histórico brasileiro! Graças à imaginação de José de Alencar e também à sua indiscutível habilidade narrativa, O Guarani em capítulos, proporcionou aos brasileiros, pela a primeira vez, um passatempo em que, como um todo, a sociedade teve a oportunidade de pensar, fantasiar, considerar e discutir sobre a vida no Brasil de 300 anos antes; a vida dos colonizadores portugueses vivendo em 1604. A revolução cultural deste evento foi enorme.

José de Alencar, autor de O Guarani.
José de Alencar não foi o primeiro escritor brasileiro a publicar seus romances em folhetins. Três outros autores já o haviam precedido: Teixeira e Sousa, 1843 com O Filho do Pescador; Joaquim Manuel de Macedo, com A Moreninha, o primeiro romance nacional, e Manuel Antônio de Almeida que aos 22 anos, publica o seu As suas Memórias de um Sargento de Milícias um livro de aventuras cômicas da vida no Rio de Janeiro no tempo de D. João.
Em O Guarani, um romance com 54 capítulos divididos em 4 partes: Os Aventureiros, Peri, Os Aimorés e A Catástrofe; leitor é colocado diante de aventuras constantes, que o deixavam em suspense na leitura de um capítulo para o outro, assim mesmo como acontece hoje em dia nas novelas televisivas. Um romance histórico indianista, que se desenrola na época em que o Brasil estava sob o domínio espanhol [1604], compreende a conquista do sertão brasileiro, o confronto de raças e de culturas [européia e indígena], a imposição do cristianismo, a assimilação do selvagem na cultura dominante e muito especificamente a idealização da natureza.

Cascata do Conde D’Eu, no Rio Paquequer, no estado do Rio de Janeiro, uma das localizações descritas em O Guarani.
CAPÍTULO I
Cenário
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio d’ água que se dirige para o norte e engrossado com os mananciais, que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar e se enroscar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito.
Dir-se-ia que vassalo e tributário desse rei das águas, o pequeno rio altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do suserano. Perde então a beleza selvática; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltam contra os barcos e canos que resvalam sobre elas: escravo submisso, sofre o látego do senhor.
Não neste lugar que ele deve ser visto; sim três ou quatro léguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como filho indômito desta pátria da liberdade.
Aí, o Paquequer lança-se rápido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pelo esparso pelas pontas de rochedo e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recua um momento para concentrar suas forças e precipita-se de um só arremesso, somo um tigre sobre a presa.
Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e adormece numa linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
—–
Este Rio Paquequer, existe?
O Rio Paquequer nasce no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro e sua bacia cobre uma área aproximada de 290 Km2. A Cascata do Conde D’ Eu, descrita nas páginas de O Guarani, é a mais alta queda d’ água do estado. O peso do enorme volume de água em queda livre formou, ao longo dos séculos, uma garganta na parte inferior — um poço com 30 metros de diâmetro — de águas limpas, transparentes e de temperatura fria. Essa queda d’ água está permanentemente envolvida numa nuvem de partículas de água, que a tornam ainda mais sedutora, que alcançam a altura de 150 m. É uma das grandes belezas naturais do estado do Rio de Janeiro.

Estátua de José de Alencar, na Praça José de Alencar no Flamengo, RJ.
Qual era a opinião de Machado de Assis sobre José de Alencar?
Machado de Assis teve diversas oportunidades de mostrar sua admiração pelo autor de O Guarani. Recorto aqui um trecho de suas palavras:
No romance que foi a sua forma por excelência, a primeira narrativa, curta e simples, mal se espaçou da segunda e da terceira. Em três saltos estava O Guarani diante de nós, e daí veio a sucessão crescente de força, de esplendor, de variedade. O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional da sua obra.
Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira. E não é só porque houvesse tratado assuntos nossos. Há um modo de ver e sentir, que dá a nota íntima da nacionalidade, independente da face externa das coisas. O mais francês dos trágicos franceses é Racine, que só fez falar a antigos. Schiller é sempre alemão, quando recompões Felipe II e Joana D’ Arc. O nosso Alencar juntava a esse dom a natureza dos assuntos tirados da vida ambiente e da história local. Outros o fizeram também, mas a expressão do seu gênio era mais vigorosa, e mais íntima. A imaginação que sobrepujava nele o espírito de análise, dava a tudo o calor dos trópicos e as galas viçosas de nossa terra. O talento descritivo, a riqueza, o mimo e a originalidade do estilo completavam a sua fisionomia literária.
Machado de Assis, Discurso proferido na cerimônia do lançamento da primeira pedra da estátua de José de Alencar.
A terra com suas belezas não é o único ponto de idealização no romance de Alencar. Peri, nosso herói, cujo nome em guarani significa junco silvestre, era da tribo dos índios goitacazeses, honrados nos dias de hoje pelo nome da cidade fluminense: Campos dos Goytacazes. Peri luta contra os aimorés, contra o homem branco e até contra os elementos naturais, para agradar e salvar sua Cecília, filha de um nobre português.
Quem eram os Goitacazes?
Os Goitacazes foram um grupo indígena, hoje extinto, que habitava no século XVI a região costeira entre o rio São Mateus, no Espírito Santo e a foz do rio Paraíba, no Rio de Janeiro. “Goitacaz“ quer dizer corredor, nadador ou caranguejo grande comedor de gentes. Fisicamente possuíam pele mais clara, eram mais altos e robustos que os demais índios do litoral. Considerados muito perigosos entre outras características, por sua extraordinária força.

Índio Goytacaz, ilustração no livro Capitães do Brasil, de Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva:2006, 2a edição.
Há 3 contemporâneos das aventuras de Peri e Ceci, cujas descrições dos índios goitacazes mostram como eram violentos. E como deveriam ter sido inimigos de grande periculosidade. Aqui estão essas passagens, encontradas no livro de Eduardo Bueno:
De acordo com o relato de frei Vicente do Salvador (1564-1639), os Goitacá mais pareciam ” homens anfíbios do que terrestres”, que nenhum branco era capaz de capturar, pois “ao se verem acossados, metem-se dentro das lagoas, onde ninguém os alcança, seja a pé, de barco ou a cavalo. ” Ainda conforme frei Vicente, os Goitacá eram capazes de capturar peixes ” a braço, mesmo que sejam tubarões, para os quais levam um pau que lhes metem na boca aberta, que não a pode cerrar com o pau, com a outra mão lhe tiram por ela as entranhas, e com elas a vida, e o levam para terra, não tanto para os comerem, como para dos dentes fazerem as pontas de suas flechas, que são peçonhentas e mortíferas”.
Se não comiam tubarões, os Goitacá eram, segundo o francês Jean de Léry (1534-1611), “grandes apreciadores da carne humana que comem por mantimento e não por vingança ou pela antiguidade de seus ódios”. Para Léry, a tribo deveria ser considerada a mais bárbara, cruel e indomável da Nações do Novo Mundo: selvagens estranhos e ferozes, que não só não conseguem viver em paz entre si como mantêm guerra permanente contra seus vizinhos e contra estrangeiros.
Embora rival de Léry, o cosmógrafo André Thevet ( 1502-1592) confirma o relato de seu desafeto. Thevet afirmou que, após capturar um inimigo, os Goitacá “imediatamente trucidam e o comem seus pedaços quase crus, como fazem com outras carnes”.
Em: Capitães do Brasil, Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva:2006, páginas 106 e 107.
—
O Guarani, a ópera

Cartaz para a apresentação da ópera do compositor brasileiro Carlos Gomes, inspirada pelo romance do mesmo nome do escritor José de Alencar.
Quem já ouviu a introdução musical do programa de rádio, nacional, A Voz do Brasil, conhece também os primeiros acordes da introdução da ópera em 4 atos, O Guarani de Carlos Gomes, que estreou em 19/3/1870 no teatro Scala de Milão, Itália, fazendo um grandioso sucesso.
—
A obra O Guarani de José de Alencar está em domínio público, para obter o texto original, clique AQUI.

Bolinha, Luluzinha e Aninha, da revista infantil Luluzinha.
Cada um tem sua sorte
pelo destino traçado,
mas não há ninguém tão forte
que nunca tenha chorado.
(Rômulo Cavalcante Mota)