Olhando a vida vivida,
esta pergunta passou:
-fui eu que fiz minha vida,
ou fez-me a vida o que sou?
(Baptista Nunes)
Olhando a vida vivida,
esta pergunta passou:
-fui eu que fiz minha vida,
ou fez-me a vida o que sou?
(Baptista Nunes)
“Uma manhã lá no Cajapió (Joca lembrava-se como se fora na véspera), acordara depois duma grande tormenta no fim do verão. A madrugada estava orvalhada, mas serena, e ele se erguera da sua rede para ver o tempo. Um grande tapete de verdura fresca e úmida parecia ter descido do céu e coberto como um manto misterioso o campo… Os olhos perdiam-se na campina alegre; o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a erva tenra; um bando de marrecas passava grasnando, pousava aqui , levantava o voo acolá, buscava mais longe a região dos eternos lagos… Dias inteiros de chuvas; o pasto agora era farto, a água porfiava em vencê-lo, e quando mais tarde o dilúvio se interrompia, viam-se na vasta savana verdes pontos claros que eram o refrigério dos olhos. Eram os primeiros lagos. Em volta deles uma multidão de aves aquáticas brincavam descuidosas e ostentavam as penas de cores vivas e quentes. Vinham pássaros de toda a parte; pernaltas com o seu bico de colher, marrecas em algazarra, jaçanãs leves e tímidas; e à tarde, quando o céu se vestia de nuvens cinzentas, notava-se desfilar, ora o bando marcial e rubro dos guarás, pra a ala virgínia e branca das garças… No fundo dos lagos multidão de peixes borbulhavam por encanto. E em tudo o mesmo milagre de ressurreição, de rejuvenescimento, de expansão e de vida.”
Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.
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Esta é uma das mais belas descrições de uma multitude de ações, de dezenas de animais, tudo acontecendo num momento, em um único parágrafo.
Nem ouro, nem pedra rara,
nada que vem do garimpo,
vale um fio de água clara
no leito de um rio limpo…
(Aloísio Alves da Costa)

Ontem foi dia de encontro memorável: nós quatro, escritoras cariocas, que nem sempre moramos no Rio de Janeiro, nos encontramos para um excelente bate-papo, muito esperado e inspirador que durou um pouco mais de quatro horas. Que venham mais.
Vicente de Carvalho
Olhos encantados, olhos cor do mar
Olhos pensativos que fazeis sonhar!
Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranquilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor…
Olhos pensativos que falais de amor!
Vem caindo a noute, vai subindo a lua…
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fímbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Bruscos arrepios de mulher beijada…
Olhos tentadores da mulher amada!
Uma vela branca, toda alvor, se afasta
Balançando na onda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noute vasta,
Pela vasta noute feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar…
Olhos cismadores que fazeis cismar!
Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar… Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fímbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa…
Olhos abençoados, cheios de promessa!
Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!
(Poemas e canções, 1908)
Exausta de solidões
de um céu escuro e vazio,
a lua busca emoções
no leito alegre do rio.
(Durval Mendonça)
A modelo, 2023
Jean-Claude Götting (França, 1963)
acrílica sobre tela, 100 x 100 cm
Crônicas minhas de Nancy de Souza é para ser lido e degustado aos pouquinhos. Porque depois de cada crônica a tendência do leitor é refletir sobre a vida, as mudanças que testemunhamos no do dia a dia; as emoções que algumas memórias nos trazem. Essas crônicas são pequenas, mas acordam uma infinidade de considerações sobre o que é viver, como se transformar, e as consequências dessas transformações.
Houve momentos em que parei emocionada, como em “Carta ao meu tataraneto”, de onde trago o seguinte parágrafo:
Tente, meu tataraneto, me descobrir registrada no seu código genético e, falando com a sua voz, te dizer segredos de família que não conseguirá ouvir. Sinto, aqui e agora, uma tristeza enorme de me perder assim sem te ver, dentro de você, presa num emaranhado, dito DNA. Liberte-me sendo você mesmo, sorrindo alto como sorriam os meus e com sonhos ousados como foram os meus. Encontre-se comigo num mundo melhor, desvenda-me, desvendando-se a si próprio. [103]
E outras em que cheguei a dar um risinho divertido, como em “O sofá, os urubus e as termais”:
Depois de um ano fora, fazendo intercâmbio pela faculdade, minha filha responde ao meu questionamento: ‘Do que você sentiu mais falta aqui do Brasil?’. Sua resposta saltou ligeira, sem dificuldades, como que descoberta antiga e fascinante: ‘Do sofá.’ [41]
Todas essas crônicas, sem exceção, nos levam a ponderar sobre nossas experiências e trazem à tona memórias, algumas bem escondidas na sobreposição de eventos mais recentes. Mas ter alguém narrando e comentando sobre a vida, ocorrências diárias, quase sempre começadas por gesto ou objeto banal, é muito prazeroso. Porque Nancy de Souza tem e teve uma vida, igual a de todos nós, repleta de pequenos incidentes, de decisões acertadas e outras não tão bem-sucedidas, de momentos que sabia serem importantes. O que a difere do resto de nós todos? Excelente memória emotiva e factual, bom senso de humor, vários aprendizados adquiridos do mar ao piano, da artista plástica à escritora. Experiências, que transformou em pepitas de ouro para reflexão, como na emotiva despedida, no se desprender das cinzas de seu cão e companheiro, Benjamin James, em “Pó de estrela”.
A cada passo, me dava conta de que todo nosso corpo, ideias e lembranças, podem caber num pequenino saquinho plástico, pois somos pó, pó de estrela. Em explosões cósmicas colocamos os pés no mundo, caminhamos para cá e para lá, estudamos, aprendemos, lemos, nos esforçamos, com a ilusão de que seremos “sempre”. No entanto, aquele saquinho plástico balouçante em minhas mãos me dizia, sem dizer nada, que somos pó, pó de estrelas. [86]
Há ainda uma característica dessas crônicas que gostaria de ressaltar. Há tempos sinto falta na literatura brasileira contemporânea das histórias das pessoas comuns, de uma classe média que trabalha, estuda, quer avançar, quer se melhorar e melhorar o mundo à sua volta. Tanto da nossa escrita se detém naquilo que é diferente, que é cruel, absurdo, no comportamento limítrofe, nas diferenças, no ódio! Tanta ênfase tem sido dada a extremos que a pessoa comum, que é assolada por dúvidas e decisões que a afetam e a outros também, parece ter desaparecido do nosso horizonte literário. Nancy de Souza traz a ‘normalidade’ de volta ao palco e nos convida a esquadrinhar o que estamos fazendo com nossos hábitos cotidianos.
Crônicas minhas terá, por algum tempo ainda, um lugar na minha mesa de cabeceira, porque quero voltar a ler, ali e acolá, e ponderar. Recomendo sem restrições.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Rapaz com capucho
Carlos Alberto Petrucci (Brasil, 1919 – 2012)
óleo sobre tela
Mário Faustino
O mar reza por mim
Somente sua voz terrível é digna daquele
a quem retorno o mais triste dos homens
embora nunca tenha sido o pródigo
Sou apenas uma pobre criança
pela primeira vez diante de si própria
E que tenho medo
As imagens penetram a face intacta
e os ouvidos resistem à sinfonia
nada mudou apenas eu transbordo.
Também há quantos eu não escrevo poemas?
Há miríades de séculos irmão,
25/2/1948
Em: O homem e a sua hora e outros poemas, Mário Faustino, org. Maria Eugenia Boaventura, São Paulo, Companhia das Letras: 2009, p. 203
Mandacaru, 1951
Dimitri Ismailovitch, (Ucrânia-Brasil, 1892-1976)
crayon e pastel sobre papel, 54 x 36 cm
Manoel Bandeira
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o nosso seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:
– Era belo, áspero, intratável.
Petrópolis, 1925
Em: Libertinagem, Manuel Bandeira, Global Editora, São Paulo, 2013
Martins D’Alvarez
A preguiça ficou doente
Com preguiça de comer.
Preguiça não quis remédio
Com preguiça de beber.
Preguiça não sai de casa
Preguiça de levantar!
Preguiça não se espreguiça
Preguiça de esticar.
Preguiça tem tal preguiça
De sarar e de viver,
Que preguiça só não morre
Com preguiça de morrer.
Em: No mundo da lua, Martins D’Alvarez, Editora Casa de José de Alencar, UFC:2000