Quadrinha: teus olhos

13 02 2010

menina com flores amarelas

Teus olhos, duas continhas,

douradas, suavemente;

duas pérolas,  miudinhas,

neste rostinho luzente.

(Antônio Bispo dos Santos)





Jornada com Rupert, de Salim Miguel

13 02 2010

Maria Fumaça, s/d

João Barcelos ( Brasil, contemporâneo)

óleo sobre linóleo, 38 x 46 cm

Os americanos têm uma expressão —  “coming of age” –  [chegada à idade] que resume a passagem de um período da vida para outro, a superação dos conflitos em cada um de nós, quando descobrimos que deixamos a adolescência para entrarmos numa outra fase da vida.  Quando finalmente encontramos a nossa identidade, independente daquela que herdamos de nossas famílias ou da cultura à nossa volta.  Este período, esta mudança, tem servido há muitas décadas como tema de inúmeros romances, filmes e peças teatrais, principalmente no mundo anglo fônico.  A idade em que essa mudança ocorre difere de cultura para cultura, de pessoa para pessoa.  Dentre os mais famosos romances em língua inglesa que retratam essa transformação estão: Grandes Esperanças, [Great expectations], de Charles Dickens, O apanhador no campo de centeio, [Catcher in the Rye] de J. D. Salinger,  O sol é para todos [To Kill a Mockingbird] de Harper Lee, A insígnia vermelha da coragem [The Red Badge of Courage] de Stephen Crane.  Mas a lista é numerosa.    Na Alemanha, o “Das Bildungsroman” — o equivalente do romance de iniciação — tem no Os sofrimentos do jovem Werther, [Die Leiden  des jungen Werther] de Goethe, um grande exemplo.  No Brasil esta temática não é tão popular, talvez mesmo porque, na nossa cultura, custamos a deixar a casa paterna em busca do nosso próprio destino.  É uma questão cultural.  E é justamente esta transformação, este momento de autoconhecimento que o romance de Salim Miguel, Jornada com Rupert [Record: 2008] retrata com mestria.

Rupert, o nosso protagonista, chega à vida adulta tarde.  Está com 30 anos quando cria suficiente coragem para deixar para trás o lar paterno e procurar sua própria vida, sua independência.   Encontramos Rupert começando sua viagem para o desconhecido.  E nos lembramos com ele da vida que deixou para trás, das expectativas de seus pais para o seu futuro, expectativas impossíveis de serem preenchidas pelo jovem.    

Nesse ínterim somos levados a considerar as tradições familiares herdadas por Rupert, neto de imigrantes alemães.  E, por causa da memória familiar, das histórias recontadas, sempre que possível, sobre a chegada dos avós ao Brasil,  viajamos no tempo, observando esses primeiros imigrantes, em Santa Catarina, suas expectativas e seus sonhos pelo estabelecimento de uma sociedade mais justa do que a que haviam deixado em solo europeu.  Este relato é maravilhoso pelo contexto histórico que oferece, e ninguém melhor que o filho de imigrantes (Salim Miguel chegou ao Brasil aos 3 anos de idade] para retratar esse complexo de emoções trazidas nas bagagens dos que aqui aportaram em busca de um futuro, de uma vida melhor. 

À medida que a viagem ao passado se desenrola podemos perceber que o problema de Rupert não é só causado pela chegada à vida adulta, solucionável  pela partida da casa dos pais, mas é, sobretudo, um problema de identidade.   Diferente da colônia portuguesa, por exemplo, que no Rio de Janeiro teve seus integrantes assimilados rapidamente na cultura local, os imigrantes alemães, vieram para o Brasil e formaram comunidades, onde língua, hábitos, comidas tudo se reportava ao país de origem.  Essa vida, em pequenas aglomerações de outros alemães, fomentava uma cultura paralela, não só à brasileira, mas também à alemã.  É interessantíssimo seguir a narrativa de Salim Miguel e ver que a realidade que fez com que esses imigrantes deixassem a Alemanha em meados do século XIX, vai sendo romanceada à medida que é recontada.  Aos poucos, o lugar que deixaram é diferente, é idealizado, é sonhado.  É muito melhor do que anteriormente.

Salim Miguel

Quando nos anos 40 do século XX, encontramos Rupert, mais de cem anos depois da imigração de seus avós, vemos seus pais apoiando Hitler.  Rupert, que se considera primeiro brasileiro, não os apóia, nem a Hitler.  Mais do que uma questão política, para ele, o apoio ou não a Hitler foi uma questão de identidade, de identidade brasileira.   E cada qual, desses netos de imigrantes, dessa geração que chegou à idade adulta na década de quarenta, acha sua maneira de expressar a sua brasilidade.   Ilze, a amiga de infância de Rupert, chega primeiro à independência, ao conforto de deixar co-habitarem suas raízes alemãs e brasileiras, simultaneamente.  Embarca para o Rio de Janeiro e consegue, vivendo como tradutora, fundir todas as partes numa só.  Acredita-se que Rupert saberá fazer o mesmo, e terá sucesso nessa empreitada.  É o que esperamos, mas para Rupert a viagem só começava. 

Muito bom.  Vale a leitura e, sem dúvida, uma re-leitura.





A uma bailarina, soneto de Maria Thereza de Andrade Cunha

10 02 2010

 
A uma bailarina

                                          Maria Thereza de Andrade Cunha

Fecho os olhos e a vejo que, ondulante

Como um salgueiro ao vento, fina e leve,

Lá se vai!  Deixa apenas, flutuante,

A lembrança de um véu de “tule” e neve…

Demorou-se tão pouco!   Um curto instante!

Um curto instante, tão fugaz, tão breve!

Quem sabe, além, num palco mais distante,

Outro poema de ritmos descreve?

Mas fica eternamente nos meus sonhos;

Vejo-a de olhos brilhantes e risonhos

Que nas asas do vento a cena corta.

Impalpável… Comparo-a à luz e à espuma,

E a julgo, vendo-a leve como pluma,

A alma, talvez, de uma falena morta!

Em: É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949.

 

 Maria Thereza de Andrade Cunha (RJ, RJ, 1927) Professora, poeta e trovadora.





Quadrinha da casuarina

6 02 2010

casuarina

Ora é canto, ora é lamento,

canção de amor em surdina,

esse sussurro de vento

nas ramas da casuarina.

( José Lucas Filho)





Verão, poesia infantil de Zilda Maria Vasconcellos

1 02 2010
Ilustração de Meredith Johnson

Verão

                              Zilda Maria Vasconcellos

 

Bem na pontinha dos pés,

sobre a erva do caminho,

com os sapatos na mão,

fui caminhando sozinho.

Belo dia de verão!

Tudo parado, quietinho…

perfumes para todo lado,

e um gostoso calorzinho.

O sol bateu em meu rosto

e a leve aragem do vento.

Fui caminhando com gosto

num passo lento, bem lento.

Demorei a encontrar

as minhas vespas amigas,

as cigarras a cantar,

as diligentes formigas.

Então, no grande silêncio,

uma formiga ouvi:

Precisamos trabalhar,

O outono está quase aí.

Já vão-se abrir as escolas,

Irás estudar também.

Adeus,  meu bom amiguinho,

até o verão que vem!

Em: O mundo da criança, vol. 1: poemas e rimas,  Rio de Janeiro, Editora Delta: 1971





Quadrinha sobre o trabalho

25 01 2010

trabalhar vc está louco

Ilustração, Walt Disney.

Se tens à frente uma estrada,

não passes por um atalho,

que a vida só é gozada

à custa de muito trabalho.

(Luiz Evandro Innocêncio)





Papa-livros: Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum, resenha

24 01 2010

Manaus, foto antiga, coleção Allen Morrison.

Se eu tivesse que expressar visualmente a minha impressão do livro de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente, teria que dizer que como leitora, fui habilmente seduzida por um texto cuja história se mostra tímida, escondida nas entrelinhas, e que vai se revelando, a contragosto, com algumas contorções, com gestos delicados e incompreensíveis,  com mudanças de ritmo e de perspectiva.  Foi como se eu tivesse sido vítima de magia, encantada por uma Salomé, por uma dançarina oriental, debaixo de sete véus.  Infelizmente, Milton Hatoum não me deu, como leitora, a oportunidade de descobrir a total beleza da mulher que se desnuda à minha frente.  O último véu, aquele que encobria o rosto, aquele que só me  permitia, até o último momento, ver só os olhos pelos quais me aproximei da história, esse véu não caiu.  A última barreira para a identidade da narradora dessa trama,  para o seu nome, fica presa naquela película translúcida através da qual sinto a presença da face.   Gostaria de que esse véu tivesse também caído, para saber ao certo, sem quaisquer dúvidas,  a identidade dessa personagem, filha adotiva,  sem-nome, que volta à casa da infância e se lembra das histórias do passado.  Os detalhes do rosto que vislumbro e que imagino, no entanto, nessa dança sedutora, não me são jamais revelados.  Foi grande a frustração causada pela narrativa dissimulada, oblíqua da história desta família de imigrantes do Oriente Médio no Amazonas.    Terminado o texto, voltei ao início do livro para ter certeza de que não havia perdido algum detalhe que houvesse me desviado para um final inconclusivo, mas continuei, depois de reler o texto, com a inconveniente sensação de uma narrativa que carecia de um único detalhe para um desfecho pleno, satisfatório.

Esse é o terceiro livro de Milton Hatoum que leio.  Já havia lido Dois irmãos, de que gostei imensamente, e Órfãos do Eldorado, cuja resenha pode ser encontrada aqui no blog.   Esse grande escritor amazonense me agrada.  Aprecio sua dedicação à memória, à memória cultural, à memória individual.  Sem ela não somos, simplesmente estamos.  Milton Hatoum tem uma maneira onírica de contar histórias e é capaz de nos levar facilmente a um mundo meio-sonho, meio realidade, à zona da imaginação que pontua narrativas de um passado não muito distante.  Como nos livros citados acima, este romance também se passa em Manaus, essa última fronteira, terra de água e de floresta, de culturas imigrantes e nativas.  Ali os mundos se encontram e aprendem a conviver.

Milton Hatoum, foto: Lucila Wroblewski.

A trama é centralizada numa família, cujos principais componentes e eventos que a cercam são contados não só pelas lembranças da principal narradora, uma mulher que, passados vinte anos, retorna ao lar da infância, mas por outras vozes também.  Ela era a filha adotiva do casal de imigrantes, e permanece o centro das recordações.   A narrativa é composta de diversas memórias, não só dessa filha, mas também de outros membros da família, de amigos, memórias  que se entrelaçam e se confundem.   Conhecemos assim por pedaços, por insinuações o mundo de Emilie, matriarca desse clã libanês.  Ao longo da narrativa tive consciência da herança da cultura oral brasileira e das culturas do Oriente Médio.  Com uma narrativa evocativa, o romance ganha profundidade a cada relato, a cada personagem que conta parte da história.  Acaba-se com a sensação de se ter lido, de fato um grande romance.  Gostaria, no entanto, de fazer a seguinte observação:  acho que Milton Hatoum complica um belíssimo texto, mais do que necessário.  Se eu, que sou leitora assídua e regularmente inteligente, tenho que pegar papel e lápis para fazer anotações e ver se estou entendendo direito o que acontece na trama, há algo de errado.   E foi isso o que aconteceu comigo.  Li o livro com papel e lápis na mão.  Até um esboço de uma árvore genealógica construí.  Não acredito que isso deva acontecer.  Qualquer que seja o romance, de quem quer que seja.  Mas mesmo assim, a força narrativa de Milton Hatoum, e seu texto, cuidadoso — como hoje já quase não vemos na literatura brasileira — não deixam que eu coloque esse livro de lado.  Vou recomendá-lo, mas advirto, nem sempre o texto tem a clareza que deveria  transmitir.  Fiquei frustrada e me senti manipulada com essa narrativa oblíqua e dissimulada.





A borboleta azul, poema de Faustino Nascimento

21 01 2010

 

Ilustração, Maurício de Sousa.

 

A borboleta azul

Faustino Nascimento

De uma clareira à borda da floresta,

Que o sol transforma em rútila vinheta,

Toda de azul, como quem vai à festa,

Passa, bailando, a linda borboleta.

Uma ninfa, talvez, fugindo à sesta,

Em busca de algum Pan, deusa faceta,

Toda beleza e graça manifesta,

Voejando, entre uma rosa e uma violeta.

Não tenta conquistar as altitudes,

Transpor abismos e vencer taludes,

Pois nasceu borboleta e não condor…

É que ela busca apenas a quem ama,

E despreza a riqueza, a glória e a fama,

Pois tem tudo na terra, tendo o amor…

Em:  Antologia Poética, Faustino Nascimento, Rio de Janeiro, Freitas Bastos: 1960, p.103.

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Antônio Faustino Nascimento (Missão Velha, CE, 1901-)  advogado, magistrado, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, tradutor.  Em Fortaleza, fundou a revista Argus.

Obras

Juvenília, poesia, 1927

As Cosmogonias, ensaio, 1929

Paisagens sonoras, poesia, 1937

Ritmos do novo continente, poesia, 1939, 1943

Elogio do amor e da ilusão, poesia, 1941

Cantos da paz e da guerra, poesia, 1943

O refúgio sublime, poesia, 1945

Exortação, soneto em cinco idiomas, 1949

O sonho do fauno, poesia, 1950

Cântico ao nordeste, poesia, 1954

Caminhos do Infinito, poesia, 1956

A  fonte de Afrodite, poesia, 1958

A Alvorada, cântico a Brasília, 1958

Antologia poética, 1960

A vida, o amor e a ilusão, poesia, 1962

A terra de Israel, ensaios, 1967

Oriente e ocidente, história, 1973





Quadrinha sobre a aranha e sua teia

10 01 2010

aranha

A teia se expande e estica

porque a aranha o fio tece.

O milagre não se explica

e simplesmente acontece.

(José Augusto Fernandes)





Rakushisha de Adriana Lisboa, finalista do Prêmio Casino da Póvoa

9 01 2010

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Foi com grande alegria que li hoje no  jornal O Globo, na seção Prosa e Verso, que livro de Adriana Lisboa, Rakushisha, está entre os finalistas para o Prêmio Literário Casino da Póvoa, que este ano distingue uma obra em prosa (em anos ímpares distingue poesia).  Tive a oportunidade de ler Rakushisha em 2007, quando o livro foi selecionado para discussão mensal (agosto) do meu grupo de leitura Papa-livros.  Foi um livro que teve aprovação unânime entre os leitores do grupo.  E nenhum de nós conhecia nenhuma outra obra de Adriana Lisboa.  Veio aquele gostinho de festa, de descoberta de um novo autor: uma sensação maravilhosa.

Rakushisha é um pequeno romance sobre dois brasileiros, Celina e Haruki,  que tendo se encontrado por acaso viajam juntos para o Japão.  Neste pequeno período de tempo em que os seguimos somos apresentados às diferenças grandes e pequenas de percepção entre uma visão ocidental e uma visão oriental-ocidentalizada de viver, tudo regado ao molho da indiscutível beleza dos haikais de  Matsuo Bashô.  Este livro é uma pequena jóia, fascinante pelo tema, mas sobretudo pela linguagem. 

Quando, mais tarde, entrei para o grupo virtual de leitura e de empréstimos de livros conhecido como Livro Errante, tive o segundo prazer com o mesmo livro:  o prazer de emprestá-lo pelo Brasil afora [como é normal com os livros desta comunidade da internet] e garantir assim a leitura deste delicioso romance por pelo menos mais 20-25 leitores (já perdi a conta). 

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Adriana Lisboa

Adriana Lisboa é a única autora do Brasil entre os finalistas do Prêmio Casino da Póvoa, que é de € 20.000 , e o único prêmio literário  em Portugal a incluir autores ibéricos, além daqueles em língua portuguesa.  O júri este ano foi composto por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho, Patrícia Reis, Vergílio Alberto Vieira, que selecionaram dez obras das 160 concorrentes de língua portuguesa, castelhana ou hispânica.  A lista das obras finalistas é a seguinte:

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A Eternidade e o Desejo, Inês Pedrosa

A Mão Esquerda de Deus, Pedro Almeida Vieira                        

A Sala Magenta, Mário de Carvalho

Myra, Maria Velho da Costa

O apocalipse dos trabalhadores, Valter Hugo Mãe

O Cônego, A. M. Pires Cabral

O Mundo, Juan José Millás

O verão selvagem dos teus olhos, Ana Teresa Pereira

Rakushisha, Adriana Lisboa

Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio

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No dia 23 de janeiro o júri  decidirá o vencedor deste ano.  O resultado será feito público no dia 24 de janeiro e o prêmio entregue no dia 27.