Em férias, poesia infantil de Zalina Rolim

24 11 2011

Jardim florido, ilustração de Charles Robinson.

Em férias

Zalina Rolim

No campo a gente madruga;

Deixa‑se a cama cedinho,

Quando a aurora acorda o ninho

E o orvalho às plantas enxuga.

O céu é todo rubores;

Toda a campina, um veludo…

E ondeia e espalha‑se em tudo

O aroma vivo das flores.

Sai das verdes profunduras

Barulho d’ água, ligeiro,

Como um som de voz fagueiro,

Falando de cousas puras.

E deleita e aviva o olfato,

O cheiro forte e sadio,

Que vem das margens do rio

E dos verdores do mato.

Os burricos vão espertos,

Num trote, campina em fora,

Alongando o olhar, que explora

Longínquos plainos desertos

E as vozes dos pequeninos

Ressoam festivamente,

No frescor do ar transparente,

Em vivos sons cristalinos.

Na frente, o mais corajoso,

— Chapéu na mão, pronto e ledo,

Explora o campo, sem medo,

Todo radiante de gozo.

E, farejando o caminho,

Pendente a língua vermelha,

O cão, no olhar, o aconselha

A dar a rédea ao burrinho.

Das frescas moitas cheirosas,

Tintas de alegres matizes,

Erguem o vôo as perdizes,

Batendo as asas plumosas.

E mil insetos, zumbindo

No ar puro da madrugada,

Sonorizam toda a estrada

Num concerto estranho e lindo.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Quadrinha sobre o amor

24 11 2011

Morcegos amorosos, ilustração Maurício de Sousa.

Amor é igual a uma seta
lançada sem direção!…
não tem alvo, não tem meta,
não escolhe coração.

 (Plínio Motta)





Almas no jardim, um conto de Marques Rebelo

23 11 2011

Almas no jardim

Marques Rebelo

Cercada por uma muralha de morros negros e tristes, silenciosa e limpa, a pequena praça fica num bairro distante, no fim de uma rua nova mas abandonada.  Tem dois mesquinhos repuxos ao gosto municipal, quatro tabuleiros ingleses de grama dum verde que o vento e o sol fustigam e queimam, e vários ficus, ostentando, tesos, figuras recortadas por tesouras de reduzida originalidade.  Tem duas pérgolas também, duas ridículas pérgulas de madeira pintada de branco, onde umas trepadeiras, que se abrem em agressivos cachos solferinos, se enroscam mais ou menos raquiticamente. Sob cada pérgula, um banco.  Não são incômodos, mas que fossem! não há bancos incômodos para os casais de namorados.

Nessa pequena praça, ouvindo a música medíocre dos repuxos , ora numa, ora noutra pérgula, diariamente, ao cair da tarde, eu me encontro com ela, com ela que é branca como uma açucena, que é mansa como uma sombra, que é doce como um favo, com ela cuja voz é uma fonte cantando e cujo olhar traz para mim o mesmo mistério do céu noturno.

Por esta hora, nesse bairro distante que o sol custa a deixar e cujo vento é qualquer coisa de extraordinariamente notável, a pequena praça é pouco frequentada. Raramente crianças vêm brincar nas retas ruazinhas de fino saibro, entre os quatro canteiros urbanos, em volta dos repuxos.  Para um casal apaixonado é uma solidão propícia, uma amável solidão.  Lá estamos todas as tardes, eu e ela, tecendo o delicado tecido das esperanças, frágil teia que não resiste ao menos sopro contrário.

— Você gosta de mim?

— Adoro!

— Se eu morresse…

— Bobo!

— Então eu não posso morrer?

— Não!

Sacudo os ombros:

— Pois morrerei.  Morrerás.  Morreremos.

Ela — que tem medo da morte! — treme:

— Não tem mais nada para dizer, não?

Tenho.  Tenho um mundo de coisas doces e ternas, ó miragens, ó sonhos, ó devaneios! E tenho um mundo de coisas graves também.  Coisas graves e sérias, mas que jamais sairão, jamais confessarei, ficarão para sempre dentro do meu peito inquieto, tubilhonantes, confusas — oh, extremamente dolorosamente confusas e opressoras! — porque tudo crestariam, pior que o vento da pequena praça, como um vento de fogo.

E ela talvez advinhe as minhas coisas graves e sérias.  Põe em mim os olhos cheios de amor:

— Amo-te com todos os mistérios da tua vida.

E é melhor assim.

Cai frequentes vezes, ela, num contemplativo mutismo, o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no meu ombro.

— Em que está pensando? — pergunto.

— Em você.

— Ora!… Fala.

— Gosto mais de te ouvir.

Abre o amável sorriso de claros dentes, responde numa moleza:

— Adoro!…

E o amor é isto: se está triste, amo sua tristeza, se está alegre, amo a sua alegria; e há palavras que parecem sem sentido, mas que caem fundo no coração; e há silêncios que valem por todas as palavras; e ora é um sorriso que nos leva para o céu, ora é um baixar de olhos que nos traz o céu com mil estrelas.

Além de nós, uma vez por outra, um outro casal ocupa a pérgula fronteira.  Olham para nós, sorriem, compreendendo, e como nós desenrolam a eterna história dos corações.  Mas são casais intermitentes.  Constantes, constantes como o vento, somos nós.  Nós, os pardais e Liró.

Os pardais são inumeráveis — ciscam, chilreiam, voam, brigam, amam…  O guarda é um polícia municipal que deve andar pelos quarenta anos, mas a quem se pode dar muito mais.  Tem o porte muito pouco marcial (o pagamento anda sempre atrasado) e o andar de quem já não tem mais pernas.  Com o seu cinzento capacete colonial, escondendo um rosto avermelhado, gretado e melancólico, faz olho morto e complacente aos nossos beijos, aos nossos abraços demasiados.  Já que o vento não consente na primavera dos canteiros, que ao menos nos nossos corações — deve pensar ele — haja flores e outras manifestações primaveris.  Atira pedrinhas aos esquivos peixinhos vermelhos no tanque, peixinhos japoneses cuja cauda tem a transparência das medusas, fica horas e horas numa contemplação, não sei se estúpida ou poética, dos repuxos que não se cansam na sua música monótona, medíocre, inútil.  Com uma continência conivente e frouxa, cumprimenta-nos quando chegamos às quatro e quando saímos às sete, mais ou menos, hora em que a pequena praça começa a sofrer  a noturna invasão dos namorados do bairro.

Liró é o contraste do guarda.  Liró é alegre.  Liró  é brincalhão.  Liró é saltitante.  Mal apontamos, ele corre ao nosso encontro com os olhos transbordantes de simpatia.  Quando partimos, nos leva religiosamente até a esquina mais próxima.  Liró, sabemos, é realmente nosso amigo.  Tem o fraco difícil das verdadeiras e desinteressadas amizades.

Hoje não vimos Liró ( o nome foi posto por nós no primeiro dia que viemos à pequena praça).  Perguntamos ao guarda por ele.  Com voz surda, voz gasta, voz sem dentes, respondeu que não sabia.  Sumira desde a véspera., pouco depois de nos termos ido embora.

Ficamos tristes, inquietos (os pardais chilreavam insensíveis).  Se tiver sido apanhado pela carrocinha, combinamos, irei resgatá-lo no depósito público. Se tiver sido vítima de um automóvel — e ela ficou com os olhos úmidos — não voltaremos à pequena praça.  Porque Liró é a vida da pequena praça, convencemo-nos.  Toda a vida.

Em: Contos Reunidos, Marques Rebelo, Rio de Janeiro, José Olympio 1979, 2ª edição.

– 

Edi Dias da Cruz, pseudônimo: Marques Rebelo (RJ 1907-RJ 1973) jornalista, contista, cronista, novelista e romancista. Nasceu no Rio de Janeiro, mas mudou-se com a família para Barbacena em Minas Gerais. No início dos anos 20, ingressou na Faculdade de Medicina, que logo abandonou para se dedicar ao comércio.  Dedicou-se ao jornalismo profissional no início dos anos 20.  Escreveu seus primeiros contos por volta de 1927, quando fazia o Serviço Militar. Teve uma carreira brilhante como escritor e bastante produtiva.  Retratou como poucos a vida na cidade do Rio, no período que viveu as agitações de seu crescimento.





Quadrinha do por do sol

22 11 2011

Margarida e Pato Donald contemplam o por do sol, ilustração Walt Disney.

Num arroubo apaixonado,

antes que a lua desponte,

o sol pinta de dourado

as paredes do horizonte…

(Izo Goldman)





Quadrinha do pai agricultor

22 11 2011

Ilustração, desconheço o autor.  Iniciais: GM

O esforço na terra dura

de meu pai agricultor

fez brotar da agricultura

meu diploma de Doutor!


(Arlindo Tadeu Hagen)





Quadrinha da poeta

21 11 2011

Pescaria, gravura no estilo Art Deco, dos anos 20-30, autor desconhecido.

Nesta vida tão inquieta,

o meu consolo é pescar.

Sou pescadora-poeta

que pesca versos no mar!

(Gislaine Canales)





Quadrinha dos pensamentos

17 11 2011

Pensando, ilustração Maurício de Sousa.

Em muitas ocasiões,

só somos bons elementos

porque certas intenções                     

não passam de pensamentos.

(José Lucas de Barros)





Travessa, poema de Machado de Assis

16 11 2011

Lendo no bosque, s/d

Ferdinand Heilbuth ( França, 1828-1889)

aquarela sobre papel com detalhes em guache, 24 x 33cm

Travessa

Machado de Assis

…………………………………………………..

Ai, por Deus, por vida minha!

Gosto de ti — gosto tanto

Dessa tua travessura

Que não dera o meu encanto,

Que não dera o meu gostar,

Nem por estrelas do céu,

Nem por estrelas do mar!

Alma toda de quimeras

Que acordou no paraíso

Vinda do leito de Deus;

E que rivais de teus olhos

Só tens dois olhoos — os teus!

Pareces mesmo criança

Que só vive e se alimenta

De luz, amor e esperança.

Ave sem medo à tormenta

Que salta e palpita e ri;

Não sabes como, não sabes,

As travessas primaveras

Assentam tão bem em ti!

Assentam sim, como as asas

Assentam no beija-flor;

Como o delírio dos beijos

Em uma noite de amor;

Como no véu que se agita

De beleza adormecida

A brisa mole e sentida!

Foi por ver-te assim —  travessa

Que eu pus a minha esperança

No imaginar de criança

Dessa formosa cabeça…

Foi por ver-te assim. — Que os sonhos

Eu sei como os tem, eu sei,

Puros, lindos e risonhos,

Um coração novo e calmo

Onde a lei do amor — é lei;

Foi por ver-te assim, que eu venho

por em ti as fantasias

De meus peregrinos dias,

Como a esperança no céu;

Em ti só, que és tão louquinha,

Em ti só por vida minha!

…………………………………………………….

(1859)

Em: O Espelho: revista semanal de literatura, modas, indústria e artes [ edição fac-similar] (1859-1860) Rio de Janeiro, MEC: 2008.





Trova do carro velho

16 11 2011

Cartão postal de Margret Boriss, anos 20 do século XX.

Carro velho, meu amor,

dá trabalho: além de feio,

no morro, falta motor;

na ladeira… falta freio!

( José Ouverney)





Quadrinha infantil comemorando a República

15 11 2011

Bandeira do Brasil, 1995

Regina Mello ( MG, Brasil, 1959)

Módulos de madeira, pintados em acrílica

250 x 160 cm

www.reginamello.xpg.com.br

Aclamado pelo povo,

Deodoro, com destemor,

Dando vivas à República,

Destronou o Imperador.

(Walter Nieble de Freitas)