Abriu em versos o seu coração, poema de Zalina Rolim, homenagem ao Dia das Mães

5 05 2012

Mãe e filhos no jardim, 1928

René Brimstead

Para House & Garden, Julho de 1928.

Abriu em versos o seu coração

Zalina Rolim

Venha do céu o melindroso Anjinho

— Maravilha de graça e de inocência

De nosso lar a flor e da existência

O rescendente laço de carinho.

Venha do céu na doce refulgência

De um sorriso de Deus ao nosso ninho…

Criatura gentil, meigo entezinho,

Do eterno Bem a misteriosa essência.

Venha… e com ele o resplendor da graça

Que — avezinha ideal — passa e perpassa

E acende em nosso olhar doce lampejo…

Venha… e com ele a vaga de ternura

Que o coração dos pais funde e mistura

Na deliciosa música do beijo.

Em: 232 Poetas Paulistas, antologia de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Quadrinha da mamãe

3 05 2012

Dia das mães, ilustração de Jessie Willcox Smith.

Quanta bondade e ternura

O teu coração encerra;

Mamãezinha és para mim

O anjo bom desta terra!

(Walter Nieble de Freitas)





As melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa? Dê o seu palpite!

29 04 2012

Minie lê um livro de autoajuda, ilustração Walt Disney.

Neste domingo, o jornal inglês The Guardian publicou uma lista das dez melhores primeiras frases de romances em língua inglesa.  A lista — The 10 best first lines in fiction — faz parte da seção de entretenimento e cultura do jornal que costuma ter um viés leve e jocoso nos fins de semana.  O objetivo é fazer com que durante o tempo de folga você pense nas suas leituras, e principalmente nas frases que, ao introduzir uma história, o fizeram de tal maneira que a continuação da leitura se tornou inevitável.

A lista inglesa inclui as aberturas para : 1)  Ulisses (1922) de James Joyce; 2) Orgulho e preconceito (1813) de Jane Austen; 3)  Jane Eyre (1847) de Charlotte Brönte; 4)  As aventuras de Huckleberry Finn (1884) de Mark Twain; 5) The luck of the Bodkins (1935) de P.G. Wodehouse; 6) Earthly Powers (1980) de Anthony Burgess; 7) I captured the castle (1948) Dodie Smith; 8) The Bell Jar (1963) de Sylvia Plath; 9) A história secreta (1992) de Donna Tartt; 10) A ilha do tesouro (1883) de Robert Louis Stevenson. [ Mantive os nomes em inglês dos livros que acredito não terem sido publicados em português].

Pensando nesse entretenimento, comecei a fazer a minha própria lista.  Mas resolvi pedir auxílio dos leitores, porque não me acho tão capacitada para o trabalho.  Faço uma sugestão e espero que os leitores possam vir a contribuir com outras.  Lembrem-se: Só a primeira frase. 

Início da lista de primeiras frases de impacto na literatura de língua portuguesa:

1)

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS  (1881) – Machado de Assis

E a sua contribuição?

Aproveite o longo fim de semana e dê tratos à bola…




Quadrinha infantil do bom livro

29 04 2012

Cascão lendo na cama, ilustração Maurício de Sousa.

Eu encontro nos bons livros

O guia certo e seguro,

Que ilumina a minha vida

e prepara o meu futuro.

(Walter Nieble de Freitas)





O medo do novo e o conhecimento: “O pintor de retratos” de Luiz Antonio de Assis Brasil

28 04 2012

A paisagem do fotógrafo, 2008

Michael Orwick (EUA, 1975)

óleo

http://michaelorwick.blogspot.com

O novo, o encontro com o desconhecido, sempre causa ansiedade.  O mundo é mais confortável, a vida é mais segura se sabemos o que nos espera, como agir e que reação ter em diferentes circunstâncias.  Assim como hoje debatemos o futuro do livro em papel por causa das publicações digitais, no século XIX, com o aparecimento da fotografia, os pintores, antes de descobrirem como essa nova tecnologia iria auxiliá-los, temeram por seu futuro profissional.  É nessa virada de tecnologia, quando a fotografia parece interferir com a pintura,  que se enraíza o romance O Pintor de Retratos, de Luiz Antonio de Assis Brasil, [LPM:2001/2005, 5ª edição].

Luiz Antonio de Assis Brasil sempre me cativa com sua linguagem despojada, quase seca, em que consegue em uma frase, não muito longa, passar um mundo de informações e capturar sentimentos.   Com excelente domínio da narrativa, com poucos traços e não mais que duas centenas de páginas, ele conta a vida inteira de um homem, um pintor de retratos, italiano, que confrontado com a fotografia, perde a noção que tem de si próprio.  Diante da devastadora imagem, cara a cara com aquele retrato de si mesmo, fotografado pelo grande Félix Nadar, nosso herói se desintegra emocionalmente e num momento de desvario, emigra para o Brasil, onde se estabelece na mais meridional das províncias, na terra das revoluções.  O Rio Grande de Sul o acolhe desconfiado, mas é lá que finalmente acredita renascer, crescer e finalmente apresentar a imagem exterior que, fotografada, mostraria ao mundo como ele é, ou o que ele pensa de si mesmo.   Se consegue ou não, o leitor só descobre no final, mas como toda boa história é o meio, é o processo que fascina.

Arraigado à pintura por tradição familiar, treino e medo da nova tecnologia, Sandro Lanari chega à letárgica Porto Alegre determinado a ganhar a vida como pintor e obcecado pela imagem de Sarah Bernhardt que viu em Paris fotografada por Nadar.   Quando consegue fixar sua atenção numa jovem que se parece com a atriz francesa, entreabre-se o caminho do crescimento, mas terá ainda muito chão a percorrer até se conciliar com a vida no Novo Mundo.  Só quando aceita trabalhar, vagando de estância em estância, retratando senhores da terra, começa sua verdadeira introdução à vida brasileira, ao novo continente e a si próprio.  Mergulha em um mundo tão diferente daquele em que foi criado que acaba por se despir dos conhecimentos profissionais, reconhecendo-os válidos exclusivamente para o solo europeu. Na água do banho vão também seus preconceitos.  A caminhada brasileira, por ironia do destino e pela própria sobrevivência, transforma-o em fotógrafo.

E vai ser como fotógrafo que conseguirá a essência do que desejava expressar em seu trabalho.  Num campo de batalha gaúcho, fotografando o lado vitorioso,  Sandro Lanari vence  uma batalha pessoal, consegue a expressão máxima de sua arte,  uma obra que o faz, finalmente, poder erguer a cabeça com orgulho: capturou o lampejo de vida nos olhos de quem fotografava.  Daí por diante, pazes feitas com a fotografia, tem sucesso garantido.  Torna-se um  respeitado membro da comunidade,  pai de quatro filhas, imigrante abastado.   Para ter certeza de seu sucesso, só lhe falta a última e única constatação de sua legítima identidade, uma nova visita a Félix Nadar.

Luiz Antonio de Assis Brasil

Com um final inesperado, O pintor de retratos nos faz refletir sobre a autoestima, a visão  que temos de nós mesmos, contrastada com a imagem que os outros têm de nós; sobre o preconceito e o medo do novo, do desconhecido; sobre a nossa própria aceitação.  Tudo isso colorido pela paisagem gaúcha de antanho, pelos costumes peculiares de época, com um sabor histórico na medida certa.  Uma leitura que nos enriquece e deleita.





Os lírios, poema de Henriqueta Lisboa

24 04 2012

Primavera, s/d

Adelson do Prado (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 72 x 72 cm

Os lírios

Henriqueta Lisboa

Certa madrugada fria

irei de cabelos soltos

ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem

simples e belos — perfeitos! —

ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça,

neblina rompe neblina

com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo

para que ninguém perceba

contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria

dobrando meus frios joelhos

farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo

deitada por entre lírios

adormecerei tranquila.

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971.

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento.

 





Sobre memórias e diários, texto de Gilberto Freyre

24 04 2012

Retrato de senhora*, 1787

Adélaïde Labille-Guiard (França, 1749-1803)

Óleo sobre tela

Musée des Beaux-Arts, Quimper

*Anteriormente identificado como Retrato de Jeanne-Marie Roland de la Platiere (1754-93), conhecida como Mannon Philipon.

Diários e memórias

Gilberto Freyre

É um gênero de literatura – às vezes subliteratura, é certo, porém, outras vezes de literatura na sua expressão mais forte e na sua forma mais transbordante de vida – de tradição muito débil na nossa língua: o diário ou o livro de memórias.  Entretanto, reúne ao interesse artístico ou literário – quando o possui, ostensivo ou dissimulado – um interesse humano, considerável.  É material ótimo para a análise e interpretação do caráter de um povo ou da fisionomia ,de uma época, através da personalidade ou simplesmente da pessoa que, ora pelo excesso de extroversão, ora pelo gosto de introspecção revela aspectos interessantes ou traços profundamente íntimos do seu tempo ou da sua gente.  E não apenas de sua própria e restrita intimidade individual. Traços de patologia social e não apenas da pessoal.

O gosto pela leitura de tais documentos – quando não os iluminam, de dentro para fora, as luzes festivas de personalidades em grande evidência ou de vida espetacular – não é, entretanto, um gosto comum e fácil. Ao contrário: precisa, em geral, de ser adquirido.  Adquirido aos poucos.  É um tanto como o gosto pelo uísque e pela própria cerveja amarga em relação com o entusiasmo fácil – de adolescente, de moça, antigamente, de deputado federal brasileiro – pela champanhe doce e pelos vinhos de sobremesa.  Mas é um gosto que, uma vez adquirido, nos enriquece a vida.  Junta a experiência a cada uma variedade de experiências alheias; ao sabor de nossa época, ou de outras épocas; ao conhecimento da intimidade do nosso povo, ou da intimidade de outros povos. E a verdade é que esse conhecimento ou esse sabor do geral através do particular, nós o vamos recolher mais puro em diários onde se registram o miúdo de preferência ao grandioso; e memórias onde se anotam as repetições de vida doméstica ou pessoal, de preferência aos fatos extraordinários ou excepcionais.

É claro que para o leitor guloso de pitoresco ou ansioso de dramaticidade ou de regalo simplesmente literário ou estético – o leitor a quem só um dannunzio memorialista é capaz de contentar – tais repetições se apresentam como coisa monótona e tristonha, nas quais ele não acha jeito de enxergar valor histórico de espécie alguma; nem significação sociológica ou psicológica por mais rasteira.  Diante de uma memorialista pachorrenta que nos fale voz igual e baixa, de nascimento de filhos e de netos, de casamentos e mortes na família, de doenças predominantes em sua casa, de fugas de suas crias, de remédios caseiro e tradicionais, de intimidades suas e de parentes – tudo isso com simplicidade e mesmo com simplismo, com candura e até com ingenuidade – é natural que o guloso de pitoresco, de variedade, de aventura, de heroísmo, de drama, se sinta incomodado e até revoltado, como um meu conhecido que muito se indignou com a publicação do diário íntimo do engenheiro Vauthier e, depois, o do velho Félix Cavalcanti.

Mas se do mesmo leitor alguém se interesse em experiências de transformar amantes de champanhe em amigos de bebidas profundas como uísque, fizer não só um estudante de literatura menos ostensivamente literário, dando-lhe a ler memórias e diários clássicos – desde Santo Agostinho aos ingleses, e desde o velho Pepys aos da época de colonização puritana nos Estados Unidos – como um estudante de sociologia e de psicologia, que chegue até ao estudo sociológico e psicológico dos diários e das confissões e à análise e interpretação das recorrências na vida doméstica, estou certo de que o mesmo leitor – admitido, é claro, o seu bom capital de inteligência, de sensibilidade e de gosto – se tornará um entusiasta dos diários e das memórias monótonas. E um entusiasta – aventuro-me a acrescentar – capaz de preferir, às vezes, tal monotonia à prosa polifônica dos memorialistas d’annunzianos.  Não que estes não sejam sugestivos e até fascinantes com sua exaltação do heroico, do raro, do genial e até do anormal. Falta-lhes, porém, o encanto da rotina, da repetição, da constância, da normalidade, da regularidade, na qual tantas vezes é agradável descansar do ruído das exterioridades grandiosas e da impressão das aventuras heroicas. Não só agradável como proveitoso à saúde intelectual.  É humano, demasiadamente humano.

Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.

Nota de rodapé desse texto:

Este artigo foi recortado do Jornal do Comercio do Recife, numa época em que o organizador deste livro ainda não tinha qualquer ideia de referenciação bibliográfica, o que explica – embora de modo nenhum justifique – a omissão da data.  Deve ser de 1940, quando, aluno da primeira série do curso pré-juridico e por recomendação do Professor Moacir de Albuquerque, leu Casa Grande e Senzala e começou a se interessar pela obra de Gilberto Freyre.




A Camões — soneto de Manuel Bandeira

22 04 2012

 

Mosteiro de Batalha, Portugal, *

Azulejaria portuguesa

A Camões

Manuel Bandeira

Quando nalma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,

Te resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe  que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.

Em:  Bandeira, antologia poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá:1961, 5ª edição.

* Escolhi uma representação do Mosteiro de Batalha, em Portugal por ser uma das obras arquitetônicas que conheço de maior impacto. É realmente um monumento extraordinário.  Infelizmente desconheço alguma pintura de pintor português que represente esse local ou até mesmo detalhes desse local.





Dia de Tiradentes, 21 de abril, quadrinhas para uso escolar

20 04 2012

Liberdade ainda que tardia…

Dia de Tiradentes

quadrinhas para comemorar o Dia de Tiradentes

Por ter sido descoberto

Por Pedro Alvares Cabral,

O Brasil, caros colegas,

Pertenceu a Portugal.

Ouvi dizer que homens bravos.

Chefiados por Tiradentes,

Receberam nesse tempo,

O nome de inconfidentes.

Os nossos inconfidentes

Nutriam um ideal:

Desejavam separar

O Brasil de Portugal.

Joaquim Silvério dos Reis

Traiu os inconfidentes,

Destruindo dessa forma,

O sonho de Tiradentes.

No dia Vinte-e-Um de Abril,

Sob vivas estridentes,

Foi, no Rio de Janeiro,

Enforcado Tiradentes.

O exemplo que Tiradentes

Nos deu a Vinte-e-um de Abril

É a página mais linda

Da História do Brasil.

Quadrinhas para uso escolar de Walter Nieble de Freitas.





Cabral, poema de Raquel Naveira

19 04 2012

Cabral

(a Pedro Álavares Cabral)

Cabral,

Navegador,

Bom soldado,

Cristão,

Leal,

Chefe ideal

Da esquadra de Portugal.

Partiram as treze naus,

Semanas e semanas no oceano,

Com medo de dragões,

Serpentes aladas

Que brotavam dos sonhos maus.

As caravelas ligeiras

Singravam os mares,

Uma sumira;

De repente, algas marinhas,

Aves nos ares,

De terra à vista,

O sinal.

Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, [Poemas dos livros Casa de Tecla e Senhora].